—Serás desgraçado, filho!—retorquio-lhe o padre.—Deos não quer violencias. Recommenda apenas a convicção para chamar ao gremio da Igreja as ovelhas extraviadas. Dá-lhes o livre arbitrio, para ficarem responsaveis das suas intenções e feitos. Mas serás desgraçado, porque a Igreja catholica é a razão divina, a unica salvação da creatura{17} humana, e não encontrará descanso quem a trocar pelo oceano insondavel do mundo das miserias.
—E porque me não depositou Deos no espirito ancias e aspirações intimas para a vida da communidade ecclesiastica e da disciplina rigorosa que exige o santo Instituto?—perguntou o joven, exaltando-se amarguradamente, e manifestando agitação patente do animo.
—Para que saibas domar as paixões que borbulhão no homem,—repetio-lhe o velho.—Mais ganha quem na luta commette sacrificios, e vence os instinctos desregrados da natureza e da juventude.
—Que vale a devoção contrafeita?—articulou o mancebo.
Sorrio tristemente o jesuita, comprehendendo-lhe o fundo do pensamento. Chegou-se a um tronco cahido, que descobrio a pequena distancia, no intuito de arrimar-se n'elle,{18} levando pelo braço e para perto de si o noviço angustiado.
—Escuta,—disse-lhe com amenidade.—Eu tambem passei pela tua idade. Eu tambem senti ferver-me no peito paixões desencontradas, como em ti prevejo, e que me incitárão e arredárão do verdadeiro caminho da felicidade n'este e no outro mundo. Eu tambem, como santo Ignacio de Loyola, creador de nosso santo Instituto, achei-me precipitado nas lutas extravagantes e desordenadas da vida. Eu tambem combati como soldado, viajei como peregrino errante e aventureiro, soffri fomes, sêdes, perigos, prisões e exilios. Apprendi porém á minha custa, ensaiou-me a experiencia dos males, arrependi-me sinceramente dos meus erros, e foi o Eterno comigo misericordioso, abrindo-me a tempo os olhos da razão, para buscar asylo e socego de corpo e d'alma na Sagrada casa, a que me acolhi de coração. Oxalá seja Deos{19} bondadoso tambem comtigo, e te manifeste na eternidade a sua infinita piedade!
—Deixai-me igualmente gozar da mocidade,—exclamou o joven.—Siga comigo a natureza a sua marcha legitima, como succedeu comvosco.
Encarou-o o padre absorto. Percebeu lagrimas copiosas cahirem-lhe dos olhos apezar da firme resolução que denunciavão as palavras do mancebo. Não descobrio maldades aonde apparecia a só exaltação de animo verde e inexperiente. Moveu-o a compaixão, e assomou-lhe igualmente ao espirito a reminiscencia do seu proprio passado. Abraçou-o apertada e amigavelmente, e disse-lhe:
—Não lucra a religião com duvidas e lutas do espirito. Não agradece o Instituto de santo Ignacio serviços involuntarios. Parte. Manda-me a consciencia que te abençôe na despedida, e rogue a Deos todo poderoso{20} te illumine na senda escabrosa que pretendes percorrer, e te abra os thesouros da sua ineffavel graça a tempo de salvar-te dos perigos.
Cahio o joven de joelhos, e recebeu com toda a humildade a benção, que lhe lançou o religioso. Ao deixa-lo, sentio o padre que seus proprios olhos humedecião, e lhe rolava pela face, que começava a enrugar-se, pranto amargo e sentido. Acompanhou com a vista o mancebo, que sahia da cerca, até que não pôde mais descobri-lo com as trevas da noite, que se adiantava. Levantou-se do tronco em que estava apoiado, e seguio machinalmente para a casa da companhia, subindo o outeiro. Chegado ao alto, voltou-se, procurando rever ainda o joven. Vão esforço! Desapparecêra elle completamente.