Rezou baixo alguns minutos, benzeu-se enternecidamente, e saudando o porteiro, entrou no convento. Dirigio-se para a Igreja,{21} prostrou-se ante os altares, e duas longas horas passou ahi n'essa posição, orando em pró do noviço infeliz, que as tentações do mundo arrancavão á vocação religiosa.{22}
[CAPITULO II]
Sahido da cerca dos jesuitas, seguira no entanto para o interior da povoação de São Paulo o noviço que se despedira do padre Eusebio de Monserrate. Chamava-se Manuel de Moraes. Nascera nos primeiros annos do seculo. Destinára-o seu pai, José de Moraes, para a vida trabalhosa de membro da companhia de Jesus, por se persuadir ser este o estado mais feliz, e posição mais brilhante e grata a Deos e á sociedade, que podia descobrir para o filho unico varão que lhe concedêra{23} a Providencia. Oriundo da provincia do Minho em Portugal, alli se casára José de Moraes com Ignez das Dôres, e o obrigára a pobreza a deixar os lares patrios, e procurar fortuna no Brazil, levando comsigo a consorte e companheira. Guiado pelos conselhos dos jesuitas, de quem se mostrava fervente admirador, empregára-se em lavoura na capitania de São Vicente, e ganhára creditos merecidos de um dos mais honestos moradores de São Paulo, e dos mais honrados Portuguezes, que ahi residião. Além de Manuel de Moraes, tinha mais tres filhas menores, que Ignez das Dôres educava piedosamente infiltrando-lhes no espirito tenro ainda as maximas mais salutares e virtuosas.
Entregára o proprio José de Moraes o filho querido á companhia de Jesus. Confiára-o particularmente ao padre Eusebio de Monserrate, seu amigo antigo, e protector decidido.{24} Madrugára no moço o engenho, e nem-um estudante o excedia em penetração e agudeza de espirito, e em desejos de instruir-se, e aproveitar as lições dos mestres. Merecia as sympathias dos jesuitas pelo seu procedimento escolar, e pela vida regrada que seguia, posto lhes desagradassem frequentes opposições e resistencias á disciplina e devoções mysticas que soíão praticar-se no Instituto dos discipulos de santo Ignacio. Procurára Eusebio de Monserrate acurvar essa vontade altiva, modificar essas tendencias mundanas, que o noviço manifestava claramente. Nada conseguíra, como acabamos de referir, e se determinára por fim Manuel de Moraes a abandonar o convento, e o velho padre a consentir-lhe aos desejos, reconhecendo a inutilidade das suas exhortações e conselhos.
Turvára-se a noite, e chuva ao principio miuda, que cahia sobre a terra, prognosticava{25} maiores torrentes, pela escuridão que cobria o firmamento, e pelos indicios certos de relampagos, que se denunciavão na atmosphera carregada de grossas nuvens.
Graves cogitações lhe acabrunhavão todavia o espirito attribulado pela importancia do passo que acabára de dar. Como o acolheria seu pai, ao saber da resolução que tomára? Tê-lo-hia previamente scientificado e preparado o padre Eusebio de Monserrate? Que vida o esperava, e que aventuras lhe erão reservadas, agora que, não pertencendo mais ao Instituto de santo Ignacio, entrava no gozo inteiro da liberdade, e se atirava no seio da sociedade civil, que não conhecia, mas que a imaginação lhe pintava como a mais apropriada e favoravel ao seu caracter, e ás suas aspirações intimas, que a communhão religiosa, que o acolhêra e educára até os vinte quatro annos de idade?
Ao descer um outeiro ingreme para subir{26} aquelle em que pousava a casa paterna, para a qual se encaminhava, e que era situada na extremidade da povoação, ouvio não longe de si, e mais em baixo, por detrás de uma ruela miseravel, gritos e rumores extraordinarios.
Cobria-o o habito preto de lila, que usava no convento. Não tinha armas para atacar ou defender-se. Sobrava-lhe porém coragem, e não hesitou um instante em correr para o lugar do perigo, de onde partião vozes que parecião pedir soccorro. Não lhe prestava a roupeta do jesuita uma força moral que lhe attrahia o respeito?
Ao dobrar um becco escuro, achou-se em frente de um grupo de quatro homens e de uma mulher. Escondia-lhe a densa escuridão as peripecias do acontecimento. Approximou-se porém de subito, e gritou-lhes, mostrando a cruz do seu rosario:—Em nome de Deos, cessai, peccadores!{27}
Mais poderosa que a espada foi a exclamação resoluta do noviço. Ao ouvi-lo, tres dos homens deitárão a fugir, sumindo-se incontinente. Achou-se Manuel de Moraes com um só dos homens, e o vulto de mulher que se arrastava pelo chão, proferindo ais angustiados.