Portugal é um amphitheatro levantado em frente do Atlantico que é uma arena. A vastidão do circo desafia e provoca tentações nos espectadores, arrastando-os afinal á laboriosa empreza das navegações, que era para elles um destino desde que a politica os destacára do corpo da Peninsula.
Quando se percorre de norte a sul a estreita facha da nação occidental da Hespanha, encontram-se os successivos prolongamentos das cordilheiras peninsulares, galgando uns até ao mar, terminando outros mais distante da costa. Entre elles abrem-se as bacias ou estuarios de rios parallelos que podem[{pg. 27}] dividir-se em dois systemas: o do norte e o do sul, delimitados pela cordilheira da Estrella-Aire-Montejunto-Cintra.
No systema do norte, o Douro é a arteria central d'uma região montuosa, coroada nos limites setentrionaes e austraes pelas duas cordilheiras culminantes da Galliza e da Beira. De uma e de outra, como socalcos ou degraus successivos d'essa platéa de montanhas que se fecha áquem da fronteira portugueza, descem outras serras, entre cujas depressões se precipitam os rios nacionaes do norte: o Minho, que delimita a Galliza, o Lima, o Cávado e o Ave, ao norte do Douro, e ao sul o Vouga e o Mondego. As serras de entre Minho e Lima são as do Suajo; as de entre Lima e Douro, as do Gerez e do Marão, separadas pelo Tamega, confluente d'este ultimo; as d'entre Douro e Vouga, Montemuro; as d'entre Vouga e Mondego, Caramullo.
No sul, as bahias do Tejo e Sado, divididas pela peninsula da Arrabida, constituem o centro de um systema de caudaes irradiantes que cortam a zona mais plana, limitada de um lado pela serra da Estrella, do opposto pela do Algarve. Ao norte, na raiz austral da primeira, corre o Tejo, desinternando-se de Castella; destacando-se d'este, para sueste, o Sorraia, em plena planicie; e, mais pronunciadamente para o sul, o Sado, que vae nascer no pendor norte das montanhas algarvias.
Se a metade norte de Portugal é fechada a leste por um systema de contrafortes avançados dos Pyreneus cantabricos, a metade sul, theatro das guerras castello-portuguezas, contradiz de um modo incontestavel a opinião dos que vêem na orographia a base necessaria da delimitação das fronteiras nacionaes.
A começar do sul, o Guadiana fende a cordilheira[{pg. 28}] andaluza penetrando no interior da Peninsula. Curvando a sua orientação em Badajoz, o Guadiana, depois de ter regado os nossos terrenos raianos, toma uma direcção leste atravez das largas campinas da Estremadura hespanhola que os tratados apenas dividiram do nosso Alemtejo. N'esta metade austral da nossa fronteira de leste, as planicies e as aguas do rio que as rega mudam de nação sem mudarem de natureza; e outro tanto succede aos contrafortes avançados que reunem n'um mesmo promontorio as serras de Guadalupe e a Morena, e onde em Portugal assentam Portalegre ao norte, Evora ao sul. No troço de fronteira ao norte d'esta como que garra lançada pela ossatura da Hespanha no Portugal alemtejano, corre, primeiro, o amplo valle em cujo centro deslisa o Tejo, prolongando-se com elle, Estremadura em fóra, até Toledo; e seguem, depois, as cumiadas da Guardunha que dividem o Tejo do Zezere, apertando este rio contra a serra da Estrella.
O pendor austral das serras do Algarve e a facha ou tapete de jardins sobre que pousa a sua base o throno d'esses montes, formam uma ultima e como que excepcional provincia geographica, vedeta sobre o continente fronteiro, cujo clima e producções partilha.
Geognosticamente, o territorio portuguez póde dividir-se em tres regiões principaes: a das rochas igneas e paleozoicas, a dos terrenos secundarios, e a dos terrenos terciarios.