Estas já longas explicações bastarão, parece-nos, a expôr claramente o nosso pensamento. Ha ou não ha uma nacionalidade portugueza? Questão absurda, assim formulada. Evidentemente ha, se nacionalidade quer dizer nação. Se por nacionalidade se entende, porém, um corpo de população ethnogenicamente homogeneo, localisado n'uma região naturalmente delimitada, insistimos em dizer que tal cousa se não dá comnosco. Se por nacionalidade[{pg. 22}] se entende, finalmente, essa unidade social que a historia imprime em povos submettidos ao regime de um governo, de uma lingua, de uma religião irmans, como nós o temos sido durante sete seculos, evidentemente a resposta só póde ser uma.[{pg. 23}]

[[7]] V. Th. da hist. universal, nas Taboas de chron., pp., XXII e segg.

[[8]] V. As raças humanas, introd., pp. LXVII e segg.

[[9]] V. Instit. primitivas, pp. 290-306.

[[10]] O sr. F. Ad. Coelho.

[[11]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.), pp. 122-5.

[[12]] V. As raças humanas, I, pp. 20-5.

[[13]] V. Hist. da repub. romana, I, pp. 117-45.

[[14]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 81-111.

[[15]] V. As raças humanas, I, pp 20-5.

[[16]] V. Th. da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. XXX-I.

[[17]] V. Th. da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. XXVI-VII e Instit. primit., pp. 222 e segg.

[[18]] V. Instit. primitivas, pp. 233-43.

[[19]] V. Raças humanas, I, IV, 2, 3.

[[20]] V. Portugal contemporaneo, II, pp. 119-37.

[[21]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 116-7.


[III
Geographia portugueza]

Quando se observa o retalho da Peninsula, de que a historia fez Portugal, separado do corpo geographico a que pertence, desde logo se vê como a vontade dos homens pôde sobrepujar as tendencias da natureza. Os rios e as serranias descem, perpendiculares sobre a costa occidental, proseguindo uma derrota e provindo de uma origem que se dilatam para muito além das fronteiras, até ao coração do corpo peninsular. As cumiadas das montanhas e os valles extensos mudam de nacionalidade n'aquelle ponto convencional que aos homens aprouve fixar.

Não falta, porém, quem pretenda encontrar, no nosso proprio territorio, motivos determinantes da constituição primordial da nação: tanto póde a obcecação doutrinaria! Diz um que essa separação dos litoraes é uma regra;[[22]] nega outro o caracter arbitrario da linha das fronteiras de leste, affirmando que essa linha coincide com os limites extremos até onde os nossos rios são navegaveis. Decerto nunca os viu quem tal affirma. No Guadiana apenas se navega até Serpa, e entretanto o rio é portuguez nas duas margens até Monsarás, formando a raia d'ahi até Elvas. O Douro para cima da Regoa é tão navegavel até Zamora como até á Barca-d'Alva. No Tejo, passando Abrantes, tanto se vae[{pg. 24}] até Alcantara, como até Aranjuez. Onde está pois a concordancia da fronteira com a parte navegavel dos rios? A allegada base geographica da nacionalidade desapparece pois, se é que uma tal expressão não quer apenas denunciar o destino maritimo, como que phenicio, da nação.

As duas cousas não devem, porém, confundir-se, pois n'um caso encontramos a causa determinante da aggregação social, emquanto no outro se observa a consequencia do facto da existencia anterior d'essa aggregação, fortuitamente constituida n'um litoral. É evidente que o caracter maritimo e colonial da nação portugueza, na segunda dynastia, não podia ter influido no facto já secular da independencia. É sabido que D. Affonso Henriques, o author d'ella, não tinha navios, servindo-se dos dos Cruzados para tomar Lisboa e Alcacer. A marinha foi uma creação da monarchia e um producto da nação, depois de constituida: o caracter maritimo é historico, não é primitivo em um povo rural, como era o portuguez dos primeiros tempos, e ainda hoje o é o gallego. O movimento de deslocação da capital do reino para o sul, as medidas de D. Diniz, as de D. Fernando, depois a empreza do Infante D. Henrique, são momentos successivos de uma historia que é o nervo intimo da vida portugueza. Desde a reunião das esquadras cruzadas no Tejo para a conquista de Lisboa, desde a introducção dos genovezes, que vieram ensinar-nos a navegar, vê-se começar a formar-se essa nação cosmopolita, destinada á vida commercial, maritima e colonisadora.[[23]]

É essa a nação que a historia fórma: e por isso mesmo que a vida portugueza foi maritima, e o[{pg. 25}] destino da sua historia o mar: por isso mesmo avultam os elementos que diariamente tornam cosmopolitas as cidades maritimas de um paiz cuja capital é um dos melhores portos do mundo. Portugal foi Lisboa, e sem Lisboa não teria resistido á força absorvente do movimento de unificação do corpo peninsular.

Erguido em frente do mar como um amphitheatro cujos primeiros degraus as ondas constantemente aspergem, o territorio portuguez, independente, adquiriu d'esta localisação um caracter seu: ao mesmo tempo que nos habitantes de Portugal acaso uma diversa combinação de sangue favorecia uma tendencia particular. Assim como, porém, as cristas das montanhas, e, pelo coração dos valles, o curso dos nossos rios, são as veias e os tendões que nos ligam ao corpo peninsular; assim tambem no nosso sangue os elementos primitivos accusam o facto de uma origem e de uma raça irman.

E se temos uma phisionomia moral, distincta sem ser diversa, tambem as condições do nosso territorio nos dão um genero de destino differente, mas encaminhado a um mesmo fim. As navegações e descobertas são a nossa gloria e a nossa maior façanha. Mareando a interrogar as mudas ondas, construimos; conquistando, derrocámos. Navegadores e não conquistadores, desvendámos todos os segredos dos Oceanos; mas o nosso imperio no Oriente foi um desastre, para o Oriente e para nós. A bordo fomos tudo; em terra apenas podémos demonstrar o heroismo do nosso caracter e a incapacidade do nosso dominio. Façanhas de homens que dirigem instinctos devotos e pensamentos de cubiça, eis ahi o que nós veremos ser o nosso imperio oriental. Epopêa do espirito indagador, audaz e paciente, as nossas navegações, as nossas explorações colonisadoras,[{pg. 26}] tornam-nos os genios d'esse elemento mysterioso, para o qual, porventura, a nossa alma celtica nos attrahia. Quando á Europa humilhada o castelhano impõe a lei com a espada e o mosquete, nós, amarrados ao banco dos remeiros, segurando o leme, ferrando as velas, alargamos mar em fóra a nau, com o olhar perscrutador fixado nos astros que nos guiam. Vamos de manso, ao longo das costas... Ninguem nos vê: só as ondas ouvem as melopêas monotonas dos marinheiros, cujo rithmo obedece ao rithmo do quebrar da vaga contra o costado.—Elles vão, emplumados e vestidos de aço, arrogantes e cheios de imperio, com o seu grito stridente e tragico, ensurdecer e estontear o mundo! Ninguem diria dois povos irmãos; e são-no, porque ambos obedecem a um motivo identico, a um pensamento egual, que está no fundo da sua alma inconsciente, como a chamma que arde no cerne da Terra, dando origem a rochas tão diversas no aspecto, na côr, na rigeza, na structura, no merito.