Por isso as fronteiras de Portugal oscillam durante[{pg. 18}] os primeiros dois seculos á mercê dos azares das guerras, com Leão e Castella de um lado, com os sarracenos do outro; e Portugal vem a ser formado com dois fragmentos: do reino leonez, um, dos émirados sarracenos, outro.
Quando Fernando-Magno de Castella, descendo do oriente, conquistou a moderna Beira aos musulmanos,[[21]] a Galliza encontrou em Coimbra e na linha de defeza do Mondego uma fronteira que a punha ao abrigo de futuras correrias, até ou além do valle do Douro. Pelo meiado do XI seculo a expressão geographica de Galliza ia, pois, até ao Mondego; porém, as novas conquistas tinham sido constituidas pelo rei n'um governo, ou condado, cujos limites eram, pelo norte, o Douro; e a leste, uma linha passada por Lamego, Vizeu e Cêa, e que, descendo de novo á costa, acompanhava os pendores setentrionaes da serra da Estrella. Condado de Galliza ao norte, de Coimbra ao sul do Douro, sarracenos ao sul do Mondego: eis ahi a condição do territorio do moderno Portugal na segunda metade do XI seculo.
Já, porém, n'esta epocha, uma expressão a que não correspondia valor politico, militar ou administrativo, apparece a designar o territorio de entre o Douro e o Minho e a moderna provincia de Traz-os-Montes: a essa parte do condado da Galliza chama-se já Portucale.
Nos ultimos annos do XI seculo correrias felizes deram ao celebre Affonso VI a posse de Santarem, Lisboa e Cintra, alargando as fronteiras christans até á linha do Tejo. Os nossos territorios de entre Mondego e Tejo foram creados em condado ou governo, e confiados á guarda de Gonçalo Mendes da[{pg. 19}] Maia, o nomeado lidador: e os tres governos que tinham por limites successivos o Douro, o Mondego e o Tejo, constituiram em favor do genro de Affonso VI, Raymundo de Borgonha, uma especie de vice-reino. Breve foi, porém, a duração d'este periodo; porque logo em 1097, depois do desbarato do conde borguinhão e da perda da fronteira do Tejo, Affonso VI effectua uma nova divisão do territorio, dando autonomia politica á expressão geographica de Portucale ou Portugal, e annexando-lhe o antigo condado de Coimbra. O condado portucalense, por tal fórma engrandecido, foi dado a um primo do conde da Galliza, e os seus dominios recuavam assim de golpe desde o Tejo até ao Minho. Esse primo era o conde D. Henrique, tambem genro do poderoso Affonso VI.
Na primeira metade do XII seculo, o conde e a viuva sua herdeira levam as fronteiras do seu Estado, para leste, até Zamora, e para norte, por entre Minho e Bivey, até Tuy e Orense. As guerras civis dos Estados da Peninsula davam e tiravam assim, constantemente, territorios e povoações. A fronteira norte-leste breve regressa, porém, aos seus actuaes limites de além-Douro; mas o governo de Affonso Henriques, o primeiro que ousou quebrar de todo os laços tenues da vassallagem a Leão, viu alargar-se do lado opposto a raia até á linha do Sado, desde que, no meiado do XII seculo, Lisboa, Santarem, Cintra, Almada e Palmella cairam definitivamente em seu poder, accrescentando novas terras ás do primitivo condado portucalense.
As fronteiras do norte e leste, no além-Douro, eram já, ao tempo da accessão de Sancho I ao throno, as mesmas de hoje: margem esquerda do Minho, por Melgaço a Lindoso, d'ahi a Bragança por Miranda, entestar com o Douro no ponto em[{pg. 20}] que agora se extremam Portugal e a Hespanha. A fronteira de leste, entre Douro e Tejo, só no tempo de D. Diniz se demarcou por onde hoje passa: no fim do XII seculo a raia seguia desde a foz do Coa, rio acima, até á confluencia do Pinhel, e, acompanhando-o, passava entre Sabugal e Sortelha, em demanda das fontes do Elga. D'ahi ao Tejo, então e agora, a fronteira é a mesma.
Ao sul do Tejo é difficil, senão impossivel, determinar chronologicamente as fronteiras portuguesas. A nacionalidade do dominio nas cidades do Alemtejo permittiria traçar geographicamente a linha da fronteira com uma aproximação conveniente, tanto mais que os territorios de entre as cidades, devastados e ermos, eram posse de quem no momento os pisava armado. Mas as successivas correrias de lado a lado, a tomada, logo a queda; depois a reconquista de uma mesma cidade, ás vezes n'um periodo de mezes, tornam impossivel demarcar a fronteira antes da epocha em que definitivamente uma certa região passa para o dominio portuguez, para d'elle não mais saír. Assim, a tomada de Evora em 1166 dá á linha do Sado, pouco antes conquistada, um ponto de apoio a leste contra as fortalezas sarracenas de Jerumenha, Elvas e Badajoz. Por ahi a raia portugueza iria até Marvão, acaso até Arronches.
Tal é a linha das primeiras fronteiras do moderno Portugal.
No primeiro quartel do XIII seculo, Alcacer do Sal, base estrategica da linha sarracena ao sul, e Elvas, padrasto avançado da linha de leste, cáem em poder dos portuguezes; e á determinação final da nossa raia alemtejana vem juntar-se, até ao meiado do seculo, a conquista do Algarve, completando, entre o Guadiana e o mar, o moderno Portugal.[{pg. 21}]
No ferir das guerras da conquista não são os musulmanos que põem um freio á ambição pessoal dos principes, porque a sorte do imperio do Islam estava lançada, e para a consummar concorriam todos os Estados christãos da Peninsula. Será porventura a raça que delimita as fronteiras da nova nação? Ocioso é já responder. Será a geographia? Não parece; desde que vêmos a raia cortar de lado a lado as planicies do Alemtejo, as bacias do Tejo e do Douro, e cair perpendicularmente sobre as cumiadas das montanhas em vez de lhes seguir a orientação. Qual dos tres elementos nos resta? O equilibrio. O equilibrio é com effeito o elemento ponderador: á ambição dos principes de Portugal oppõe-se a resistencia dos reis de Leão; as armas, invocadas, demonstram que, se um dos antagonistas não tem força bastante para submetter o adversario, o outro tem de usar com prudencia de um poder limitado. Quando tenta passar além do Minho, ou adquirir para si Badajoz, a reacção mostra-lhe até onde póde ir a acção dos meios de que dispõe. Do equilibrio ou ponderação das duas forças antagonicas nasce a determinação geographica do Portugal moderno, para o qual só no extremo norte e no extremo sul, sobre o Minho e sobre o Guadiana, se assentou em admittir uma fronteira natural.