A raça é de facto o mais tenue dos laços proprios para garantir a cohesão independente de um povo. E além d'isso a doutrina—se admittissemos a identidade d'ella e do facto—exigiria que á expressão de raça se ligassem sempre certos caracteres correspondentes á vastidão necessaria, á eminencia sempre crescente das funcções organicas, e[{pg. 14}] á originalidade activa, das nações modernas. Mal de nós, pois, se ao facto de termos ou não termos sido os lusitanos, ou outros quaesquer, formos pedir argumentos para defender a nossa independencia nacional; porque esse facto não augmentará, nem a nossa força, nem as nossas razões: porque esse facto nem sequer chega para motivar a nossa separação da monarchia leoneza.
Não nos levantámos contra ella como lusitanos opprimidos: nós nem tinhamos a menor idéa de que fossemos lusitanos, ou qualquer outra cousa. A população do condado portucalense, ibera, cruzada de celtas, romanisada, submettida ao governo dos godos, depois aos arabes, e finalmente ao monarcha leonez, não podia ter decerto um sentimento de cohesão collectiva ou nacional, incompativel com o estado da sua cultura, com a tradição, e com a situação social e politica: é isso o que todos os documentos historicos nos revelam. «Portugal, diz o snr. Herculano, nascido no XII seculo em um angulo da Galliza, dilatando-se pelo territorio do Al-Gharb sarraceno, e buscando até augmentar a sua população com as colonias trazidas de além dos Pyreneus, é uma nação inteiramente moderna.» É decerto; sem isso, porém, impedir que tenha raizes antigas. Não confundamos esta questão com a da independencia, e teremos, cremos nós, pisado o verdadeiro e solido terreno da historia.
A causa da separação de Portugal do corpo da monarchia leoneza não é obscura, nem carece de largas divagações para definir-se: é a ambição de independencia do governador do condado, que o tinha do rei suzerano: é o afastamento d'esta nova região roubada aos sarracenos; é a necessidade de pulverisação da soberania, que a alliança d'esta idéa com a de propriedade, e a ignorancia de[{pg. 15}] meios administrativos capazes de manter a ordem em terrenos dilatados, tornam inevitavel na Edade-media.[[17]] Portugal separava-se, da mesma fórma que o reino da Navarra se dividira em tres, e pelos mesmos motivos. Portugal defende a separação: o monarcha suzerano impugna-a. Debate-se mais de uma vez a questão com as armas: não porque se chocassem os sentimentos nacionaes, mas porque os principes defendiam o que era, ou julgavam ser, propriedade sua. Estas primeiras guerras portuguezas não depõem decerto de um modo particular em favor da independencia, porque eram a lei de toda a Hespanha, a lei de toda a Europa—podemos dizer assim. É um preconceito fazer do conde D. Henrique o fundador consciente da independencia de uma nação, quando o conde apenas cuidava da independencia pessoal e propria. O sentimento de independencia nacional, a idéa de que os reis são os chefes e representantes de uma nação, e não os donos de uma propriedade que defendem e tratam de alargar, bem se póde dizer que só data da dynastia de Aviz, depois do dia memoravel de Aljubarrota.[[18]]
No XII e XIII seculos Portugal é um certo territorio, propriedade de um certo principe: d'onde vem? quem é? pouco importa. O conde D. Henrique era francez. Assim, a epocha da primeira dynastia desmente por todos os lados, e de todas as fórmas, a idéa de uma raça, possuindo, de um modo mais ou menos definido, a consciencia da sua existencia collectiva.
É essa consciencia que dá porém o caracter[{pg. 16}] eminente á segunda dynastia, ou de Aviz, em cujas mãos Portugal desempenha um papel bem similhante ao dos phenicios da Antiguidade.[[19]] Como aos phenicios succedeu aos portugueses: no momento em que a razão de ser da sua acção na civilisação da Europa desappareceu, a nação definhou, sumiu-se, perdendo tudo até perder a independencia.
É verdade que a nossa independencia restaura-se em 1640. Mas como, de que modo? Atrever-se-ha alguem a dizer que é uma resurreição? Não será a historia da Restauração a nova historia de um paiz, que, destruida a obra do imperio ultramarino, surge, no XVI seculo, como no nosso appareceu a Belgica, filho das necessidades do equilibrio europeu? Não vivemos desde 1641 sob o protectorado da Inglaterra? Não chegámos a ser positivamente uma feitoria britannica? E ainda no decurso d'esta historia o Brazil veiu, enchendo-nos de oiro, prestar-nos um ponto do apoio extra-europeu, e como que restaurar o antigo caracter do Portugal manuelino, capital europêa de um imperio ultramarino, á maneira da Hollanda. E que melhor prova póde haver da nossa desorganização do que a duração ephemera da obra do marquez de Pombal—o estadista que concebeu a verdadeira restauração de Portugal, chegando por um momento a fazer d'elle outra vez uma nação independente? que melhor prova do que a reacção victoriosa de D. Maria I?
A perda do Brazil, reduzindo o reino á miseria, veiu mostrar a fragilidade do nosso edificio politico. Os inglezes tiveram de nos tutelar para manter, como lhes convinha, a dynastia de Bragança; e passada, vencida a crise, appareceu com o liberalismo[{pg. 17}] a impotencia manifesta de restaurar a vida historica de uma nação imperial ou colonial.[[20]]
Não confundamos, pois, pelo amor de tudo o que ha sensato, o patriotismo com as questões e problemas scientificos das origens naturaes ethnicas. Tambem a Suissa, alleman, italiana, franceza, odiou o austriaco, á maneira por que nós odiamos Castella. Basta a historia, basta o interesse, para dar homogeneidade social e politica a um povo; e basta essa homogeneidade para crear um patriotismo. Ora o patriotismo das raças assim formadas exprime-se na acção, e não em miragens enganadoras de um passado que a historia acaba. Na sua lingua, nas suas tradições, no seu caracter, o celta da Irlanda encontra sempre um ponto de apoio vivo e positivo. Quereis uma prova da differença? Os pontos de apoio que nós buscamos são mortos ou negativos: morto o imperio maritimo e colonial, a India, e toda a historia que terminou com os Lusiadas em 1580: negativo, o odio a Castella, que nem nos opprime, nem nos odeia.
Se a unidade da raça primitiva se não vê, menos ainda Portugal obedece na sua formação ás ordens da geographia: os barões audazes, ávidos e turbulentos são ao mesmo tempo ignorantes de theorias e systemas. Vão até onde vae a ponta da sua espada: tudo lhes convém, tudo lhes serve, com tanto que alarguem o seu dominio.