Ao norte do Douro os schistos predominam para[{pg. 32}] cima da linha Regoa-Chaves, os granitos para baixo. Ao longo da costa, desde o Porto até á Povoa, encontra-se, destacado, um affloramento de rochas eruptivas; e, para leste, um outro nas serras do Gerez e do Suajo, a poente do Tamega, lançando junto a Braga um ramo que vae, por Barcellos, a Vianna e até Caminha.

A leste da linha Chaves-Regoa são irregulares e dispersos os affloramentos eruptivos: acompanham a margem portugueza do Douro desde Bemposta até Miranda; apparecem em dois pontos da extrema fronteira do norte; vêem de Montalegre, por Chaves até Valpassos e Torre-de-D. Chama; e pela serra do Marão, desde Mondim e Ribeira-de-Pena, por Villa-Pouca e Villa-Real, morrer junto ao Douro em Villarinho. Todo o resto, o Marão, da Campean a Santa Martha, as alturas á esquerda do Corgo, a maxima parte do valle do Tua, e todo o valle do Sabor, são formados pelos terrenos paleozoicos.[{pg. 33}]

[[22]] V. As raças humanas, introd., pp. XXXI-II.

[[23]] V. O Brasil e as colonias portuguezas (2.ª ed.) pp. 1-29.

[[24]] V. para a geologia terciaria do Tejo, os Elem. de Anthropologia (3.ª ed.), pp. 212-17, podendo cotejar-se o estudo da região portugueza com o da Peninsula no seu todo na Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. VII-XXI.


[IV
A terra e o homem]

Conhecida a orographia e a geognosia do territorio, brevemente indicaremos o systema de caracteres agricolas e climatologicos, ambos subordinados aos anteriores, e todos solidariamente ligados para formar a phisionomia natural das diversas regiões do territorio portuguez.

A sua antiga divisão em provincias obedecia mais a estas condições naturaes do que a moderna divisão em districtos: as causas determinantes de uma e de outra são o motivo d'esta differença. As provincias formaram-se historicamente em obediencia ás condições naturaes; os districtos actuaes foram creados administrativamente de um modo até certo ponto artificial. Umas provinham dos caracteres proprios das regiões, e a administração limitára-se a reconhecer factos naturaes: outros, determinados por motivos abstractos, nasceram de principios administrativos e estatisticos (área, quantidade de população, etc.), fazendo-os discordar o menos possivel dos limites naturaes, geographicos e climatologicos. Por estes motivos nós agora estudaremos por provincias, e não por districtos, o territorio portuguez; deixando para o lugar competente o estudo das condições modernas da nação.[[25]][{pg. 34}]

A divisão das provincias apoiava-se em factos phisicos de um valor eminente. Começando pelo norte, o territorio de além-Douro inscreve duas zonas separadas pelo Tamega: a leste, Traz-os-Montes, a oeste, Entre-Douro-e-Minho. Além de obedecer, como se vê, á geographia, buscando nos rios fronteiras naturaes, a divisão das duas provincias consagrava differenças essenciaes: as geognosticas já por nós observadas (rochas eruptivas dominando a oeste, schistos a leste do Tamega), e além d'ellas as climatericas. Portugal, segundo já se disse n'outro lugar, é em geral um amphitheatro de montanhas, levantado em frente do Oceano. Esta circumstancia caracterisa para logo as regiões de um modo tambem geral, dividindo-as em duas categorias: as maritimas e as interiores; as cis e as transmontanas; as que estão directamente expostas á acção das brisas maritimas, e os declives orientaes, os valles interiores, e os degraus ou socalcos das serras encobertas aos bafejos do mar por cumiadas occidentaes sobranceiras.

Esta circumstancia dá caracteres inteiramente diversos ás duas provincias do Douro-Minho e de Traz-os-Montes, divididas pelas serranias do Gerez e do Marão, que roubam a ultima á acção das brisas maritimas. Quem alguma vez transpoz o Tamega, decerto observou a profunda differença da paizagem e do caracter e aspecto dos habitantes de áquem e de além d'esse rio. O transmontano, vivo, ágil, robusto, destaca-se para logo do minhoto, obtuso mas paciente e laborioso, tenaz, persistente e ingenuo. Além do Tamega o clima é secco (40 a 60% de humidade relativa) poucas as chuvas (500 a 1:000 millim. e no estio 70 a 80 apenas), grande o calor no fundo dos valles apertados, mas temperado nas alturas; intensos os frios hibernaes, que coroam de neve as[{pg. 35}] montanhas e gelam a agua pelas baixas (12 a 15° temp. média). Áquem, as brisas do mar, estacadas na sua passagem pelas serras, condensam-se e produzem as chuvas copiosas: por isso no Minho o pendor occidental das serras de oriente é sarjado pelos numerosos e successivos rios parallelos, cujos valles, reunindo-se junto á costa, formam ao longo d'ella a primeira das planicies litoraes de Portugal. Habita essa região pingue uma população abundante, activa, mas sem distincção de caracter, nem elevação de espirito: consequencia necessaria da humidade e da fertilidade. Falta essa especie de tonificação propria do ar secco e dos largos horizontes recortados n'um céu luminoso e puro. O Minho é uma Flandres, não uma Attica. As chuvas precipitam-se abundantes (1:200 a 2:000 mill. annuaes, e no estio 80 a 200) sobre um chão lavrado de caudaes; a humidade (70 a 100%) torna flaccidos os temperamentos e entorpece a vivacidade intellectual, que nem um frio demasiado irrita, nem um calor excessivo faz fermentar, á maneira do que succede nas zonas genesiacas dos tropicos. Temperado o clima (12 a 15°), sem excessivos afastamentos hibernaes, a população satisfeita, feliz, e bem nutrida de vegetaes e de ar humido, offerece a imagem de um exercito de laboriosas formigas sem cousa alguma de aládo e brilhante de um enxame dourado de abelhas.

O clima determina a paizagem. Além Tamega as louras messes do trigo, os pampanos rasteiros, o carvalho nobre e o castanheiro gigante vestem os pendores de elevadas serras, cujas cristas dentadas de rochas, no inverno coroadas de neves, se recortam no fundo azul do firmamento, dando fixidez e nobreza ao quadro, e infundindo o quer que é de elevado no espirito. A natureza vive na[{pg. 36}] luz, e a alma sente que os elementos teem dentro em si forças que os animam.