Áquem Tamega o scenario muda: a humidade cria em toda a parte vegetações abundantes; não ha um palmo de terra d'onde não brote um enxame de plantas: mas como o solo é breve, como a rocha afflora por toda a parte, e os campos nascem do terreno vegetal formado nas anfractuosidades do granito pelas folhas e ramos decompostos, e nos estuarios dos rios pelos sedimentos das cheias, a vegetação é rasteira e humilde, o pinho maritimo de uma constituição debil, o carvalho um pigmeu enleiado pelas varas das vides suspensas. A densidade da população completa a obra da natureza n'uma região onde o vinho não amadurece: o acido picante dá-lhe uma similhança das bebidas fermentadas do norte, cidra ou cerveja, e com ella, ao genio do povo, caracteres tambem similhantes aos de bretões e flamengos. A vegetação, de si mesquinha, é amesquinhada ainda pela mão dos homens: as necessidades implacaveis da população abundante produzem uma cultura que é mais horticola do que agricola: pequeninos campos, circumdados por pequeninos valles, orlados de carvalhos pigmeus, decotados, onde se penduram os cachos das uvas verdes. No meio d'isto formiga a familia: o pae, a mãe, os filhos, immundos, atraz d'uns boisinhos anões que lavram uma amostra de campo, ou puxam a miniatura de um carro. Sob um céu ennuveado quasi sempre, pisando um chão quasi sempre alagado, encerrado n'um valle abafado em milhos, dominado em torno por florestas de pinheiros sombrios, sem ar vivificante, nem abundante luz, nem largos horizontes, o formigueiro dos minhotos, não podendo despegar-se da terra, como que se confunde com ella; e, com[{pg. 37}] os seus bois, os seus arados e enxadas, fórma um todo d'onde se não ergue uma voz de independencia moral, embora amiude se levante o grito de resistencia utilitaria.[[26]] A paizagem é rural, não é agricola; a poesia dos campos é naturalista, não é idealmente pantheista. Quem uma vez subiu a qualquer das montanhas do Minho e dominou d'ahi as lombadas espessas de arvoredo, sem contornos definidos, e os valles quadriculados de muros e renques de carvalhos recortados, sentiu decerto a ausencia de um largo folego de ideal, e de uma viva inspiração de luz. Apenas aqui e acolá, engastado na monotonia da côr dos milhos, um canto do verde alegre do linho vem lembrar que tambem no coração do minhoto ha um lugar para o idyllio infantil do amor.
Descendo para o sul do Douro, entre a Beira montanhosa e a Beira litoral, dão-se differenças analogas ás que distinguem o Minho e Traz-os-Montes: analogas, dizemos, e não identicas, porque n'esta nova região começam a sentir-se as influencias de causas geraes, como são as da latitude. A zona anterior estanceia entre os parallelos de 41° e 42°; as Beiras descem até 39° 30'. Portugal, inscripto entre 37° e 42°, e lançado como uma estreita facha norte-sul, tem na latitude das regiões uma causa geral a concorrer sempre com as causas particulares, quaes são a altitude, a exposição e a constituição geognostica das montanhas, no sentido de determinar os caracteres das suas differentes provincias.[{pg. 38}]
N'esta de que agora nos occupamos, levanta-se ao centro a serra da Estrella, a cujo pendor maritimo se chamou Beira-alta, dando-se aos declives transmontanos oppostos, reunidos á Guardunha, o nome de Beira-baixa. Tres zonas compõem a região das duas provincias: o litoral formado pelos estuarios do Vouga e do Mondego, as serranias occidentaes ou maritimas, e as orientaes ou transmontanas.
A serra da Estrella é a mais elevada das cordilheiras portuguezas; é o prolongamento da espinha dorsal da Peninsula; é a divisoria das duas metades de Portugal, tão diversas de phisionomia e temperamento; é finalmente como que o coração do paiz—e acaso nas suas quebradas e declives, pelos seus valles e encostas, demora ainda o genuino representante do lusitano antigo. Se ha um typo propriamente portuguez: se atravez dos acasos da historia permaneceu puro algum exemplar de uma raça ante-historica onde possamos filiar-nos, é ahi que o havemos de procurar, e não entre os gallegos ao norte do Douro, nem entre os turdetanos da costa do sul, nem entre as populações do litoral cruzadas com o sangue de muitas raças e com os sentimentos e costumes das mais variadas nações.
O pastor quasi-barbaro d'essas cumiadas da serra a topetar com as nuvens (1:800 a 2:000m. de altit.), abordoado ao seu cajado, vestido de pelles, seguindo o rebanho de ovelhas louras, é talvez o descendente dos companheiros de Viriato. Por essas eminencias, tapetadas de relva no estio e de neves no inverno, nem as villas, nem as arvores se atrevem a subir: só o pastor nómada as habita. Do alto do seu throno de rochas vê gradualmente ir nascendo a vida pelas encostas: primeiro o zimbro,[{pg. 39}] rasteiro e roído pelo gado, circumda os altos nús; logo apparecem os piornos, as urzes brancas, os carvalhos; depois, já a meia altura da encosta, os castanheiros, as lavouras, e os enxames de aldeias; afinal, na extrema baixa, o lençol de lagunas, tapete de esmeraldas engastadas em fios de brilhantes, que o sol faceta ao espalhar-se no labyrintho dos canaes.
A serra da Estrella, reforçada ao norte pelo contraforte de Monte-muro, fecha, com o Marão e o Gerez, uma muralha natural, onde os ventos do mar estacam. Apenas cortada pelos valles do Douro e do Tua—duas fendas—essa barreira, cujos picos sobem até 2:000m., encerra e protege o Portugal do norte, sendo a principal causa das chuvas abundantes e do clima creador do litoral de além-Mondego.
O beirão, habitante da encosta occidental onde o ar é mais humido do que em Traz-os-Montes (65 a 100%), as chuvas mais abundantes (700 a 1:200 millim.) e a temperatura identica: onde o castanheiro colossal, o cedro, o carvalho e o pinheiro bravo põem na paizagem todos os tons e essa grandeza propria de arvores que vivem seculos: o beirão é menos vivo, mas mais robusto. Quem divagou por essas terras admirou decerto a structura herculea dos seus homens, cuja face, não luzindo com os brilhantes reflexos de vida interior, accusa todavia um pleno desenvolvimento da vida animal. Berço dos audazes bandidos, anachronicos representantes de uma independencia de outras edades,[[27]] a Beira é o viveiro de musculosos trabalhadores, que vão todos os annos, pelo estio, lavrar as glebas do sul do Tejo, levemente vestidos com as bragas curtas de[{pg. 40}] linho, descalços, com a camisola de lan agasalhando o tronco, o barrete phrigio na cabeça, a manta e a enxada ao hombro.
Descendo ao litoral, o beirão é amphibio: pescador e lavrador. A lavoura nasce do mar: os carros são barcos, adubos o molisso de algas e mariscos. Ao lado de um talhão de milho está uma marinha de sal. O mar insinua-se pelos canaes retalhando a planicie, em cujo centro, como uma arteria, corre placidamente o Vouga. A tres leguas da costa vê-se fundeado um barco: as mulheres cozem as redes, ao lado, sobre a terra humida e negra, que os bois lavram, ou o cavador abre á enxada. O calor (15 a 16), a humidade permanente (65 a 80%), fazem germinar breve as sementes, multiplicam as colheitas, e as febres. Essa paizagem deliciosa e original, indecisa entre o mar e a terra, e que nos enche de vivo prazer, quando a dominamos desde os altos de Angeja á raiz das montanhas, attrahe-nos como a sombra da manzanilha, cheia de frescura e veneno. Os elementos, confundidos, vingam-se da temeridade dos homens.
A exposição oriental ou transmontana das abas da serra da Estrella e dos cerros subalternos da Guardunha dá á provincia da Beira-baixa um outro aspecto: ha maior seccura no ar, e as chuvas são menos abundantes: os olivaes medram melhor, e os hahitantes juntam á vida agricola a industrial, tecendo as lans dos rebanhos da serra com a força das torrentes que se despenham nas quebradas do valle do Zezere.