Já similhante por muitos lados ao alto Alemtejo, a Beira-baixa é a transição da metade norte para a metade sul do paiz.[{pg. 41}]

Caminhemos de oriente para occidente. O Alto-Alemtejo tem o clima de Traz-os-Montes; a temperatura média é mais elevada (16 a 17.), porque a menor altura das montanhas dá frios menos intensos no inverno; as chuvas estivaes são menores tambem (30 a 50 mill.). Fronteira aberta da Hespanha, a raia apenas convencionalmente o divide da Estremadura castelhana. As mesmas planicies onduladas, as mesmas culturas cerealiferas, as mesmas florestas de sobros e azinhos, as mesmas vinhas, os mesmos costumes, os mesmos homens, estão de um lado e do outro da fronteira. Torrada pelo sol a face barbeada, de olhar vivo, gesto livre, porte nobre e seguro, bizarro, folgasão, hospitaleiro e communicativo, o alemtejano exprime no seu todo a grandeza um tanto austera do chão sobre que vive. Não é decerto um grego de Athenas, mas é um grego da Beocia. Os seus campos são um granel, os seus montados um viveiro. Quando nas longas e alinhadas estradas, entre lençoes de mattas de azinho escuro, sob o calor de um sol dardejante, divisamos ao longe uma pequena nuvem de poeira, que a luz illumina, e ouvimos o tilintar alegre das campainhas e guizos nas colleiras dos machos—é o cazeiro, que a trote largo, com a cara redonda e alegre, o ventre apertado nos seus calções de briche preto, vae á feira de Villa-Viçosa em maio, ou á de Evora em junho, tratar dos negocios da lavoura. A distancia, vem o arreeiro no seu carro toldado, guiando a récua de machos carregados de odres de vinho: logo o pastor com o guarda-mato de pelle de cabra, o cajado ao hombro, conduzindo as ovelhas, a vara de porcos, gordos como texugos, ou a boiada loura de longas hastes. O sol ardente dá tom a todas as côres, vida a todos os movimentos: suffoca-se, a poeira céga, e as bagas[{pg. 42}] de suor camarinham na testa. O alemtejano diz pouco, e raro canta; não é misanthropia, é indifferença. O idyllio não póde seduzir a quem vive em ampla communhão com o campo largo, o céu sempre azul, o sol sempre em fogo. Apenas, de verão, baila ao som da guitarra nas noites calmosas, fazendo a vigilia aos seus santos favoritos, não para esquecer um trabalho que lhe não dóe, mas para dar largas aos seus amores de um momento.

Os que uma vez embarcaram abaixo de Serpa, onde as cataratas põem ponto á navegação, Guadiana em fóra até ao Algarve, terão sentido ao chegar á foz a impressão de quem entra, de um sertão, em um jardim: de quem deixa uma gruta escura por uma planicie luminosa. Breve é a extensão do Algarve, desde Villa-Real até Lagos, abrigado pela ponta do cabo de S. Vicente; mas esse trajecto sombrio do Guadiana divide duas regiões caracteristicamente accentuadas. O algarvio é um andaluz. Ao contrario do alemtejano, tudo o interessa, de tudo fala, agita-se em permanencia, com uma vivacidade quasi infantil. No Algarve não ha o silencio e a impassibilidade: ha o movimento constante, o falar, o cantar de uma população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios costeiros, ora occupados nos seus campos, que são jardins. Se a planicie e os longos horizontes das montanhas dão ao espirito a placidez solemne, tambem o arrulhar constante da onda, sobre a qual, debruçado como um eirado, está o Algarve, põe no pensamento uma agitação permanente, meio-tonta, mas encantadora. Ao calor de um sol já africano, durante o estio, e no seio de uma constante primavera, durante o inverno, o algarvio desconhece a aspereza da vida: nem os frios[{pg. 43}] o obrigam á industria para se vestir, nem a fome ao duro trabalho da enxada para comer. Emquanto voga sobre o mar, mercadejando, pescando, contrabandeando, crescem-lhe no campo a figueira, a amendoeira, a laranjeira, cuja seiva o sol se encarrega de transformar todos os annos em fructos. A alfarrobeira nas encostas da sua serra, a palma pelos vallados, pedem apenas que lhes colham os fructos e os ramos; e o mercador, no seu barco, ao longo da costa, espera as cargas, para as trocar por dinheiro.


No decurso da nossa viagem deixámos em claro as mortiferas baixas do Guadiana: nem vale a pena demorarmo-nos n'essa região desolada; porque agora, regressando pela costa acima, o litoral do Alemtejo e a parte occidental da Estremadura transtagana partilham com ella os caracteres tristonhos e doentios. Entramos na região dos terrenos terciarios: as aguas estagnam e apodrecem nas baixas; as populações definham. Ou torradas pelo arido suão, que os areaes ardentes não podem suavisar, e sem montanhas que obriguem os vapores do mar a condensarem-se; ou envenenadas pelos miasmas dos paúes que o sol de fogo põe n'uma fermentação permanente, as populações amarellecidas e magras definham, curvadas pelo trabalho mortifero das marinhas de sal, ou da cultura pantanosa do arroz. São o contraste das baixas do norte do paiz, estas baixas do sul. Além, copiosas chuvas e uma humidade creadora; aqui o ar secco (500 a 700 mil. annuaes, 30 a 50 no estio; humidade, 30 a 80%) duro e carregado de emanações mephiticas. Além, uma temperatura branda; aqui um calor (med. 17°) excessivo. Além, uma população exuberante: aqui, as solidões e os[{pg. 44}] areaes nús, matizados pela traiçoeira cevadilha, e pelo áloes orgulhoso, levantando com imperio o seu penacho côr de fogo. Além, homens laboriosos e familias; aqui tribus esfarrapadas em choupanas, tiritando com o frio das sezões n'uma atmosphera de lume: mulheres esqualidas, creanças verde-negras, homens na indifferenca de desolação, ou na vertigem do crime.


Entre estas duas regiões litoraes extremas está porém a central, a vingar-nos da miseria de uma e da opulencia da outra. Quem desce, de Canha e Alcacer-do-Sal até Setubal na peninsula de entre Tejo e Sado, e domina, desde o promontorio da Arrabida, a paizagem circumdante, respira afinal a longos traços uma plena vida e uma doce alegria. Acaso não ha no reino panorama nem mais bello, nem maior, nem mais nobre, nem mais variado. A nossos pés descem as anfractuosidades da serra vestidas de espessas matas: as giestas douradas, as bagas carmineas dos medronhos, o rosmaninho, a alfazema, misturando todos os seus aromas inebriantes. Sobranceiros a Palmella, vemos-lhe os muros ameiados: Setubal desenha-se no valle encastoada n'um jardim de laranjaes; no fundo quebram-se as ondas contra as rochas do Cabo; e para o lado opposto as collinas da fidalga Azeitão ondulam por sobre o espesso tapete de pinhaes extendido até ao Tejo. Erguendo a vista, divisamos além do mar a ponta de S. Vicente e o sul; para leste, Evora de um lado, as campinas do Riba-Tejo do outro; para norte, Lisboa em amphitheatro sobre a sua bahia; além d'ella, Cintra e os montes da Estremadura cistagana, a qual, até ao Mondego, fórma a primeira[{pg. 45}] zona extremenha, por onde vamos entrar no exame da ultima das regiões do nosso territorio.

O litoral do centro, entre o Mondego e o Tejo, é a parte mais benigna do paiz. Ahi o ar temperado pelas brisas maritimas mantém um grau de humidade, (60 a 85%), e as chuvas, regulares sem serem copiosas (700 a 800 mil. annuaes, e 20 a 30 no estio), uma rega, que fertilisam os terrenos sem os tornar gordos, como os do norte. Nem o calor (15 a 16°) tisna de verão as vegetações, nem o frio do inverno as atrophia. Por tudo isto, a população abunda, sem exorbitar, como no Minho; e o habitante reune á laboriosidade de uma vida agricola a liberdade de uma existencia mais ampla. Por tudo isto, além dos caracteres geognosticos da região, a flora é variada, reunindo o pinheiro bravo e o manso, a vinha, a oliveira e o carvalho, o trigo, o milho e o centeio. Desde os campos que o Mondego todos os annos fertiliza, por Leiria e Alcobaça vestidas de florestas, pelas veigas do Nabão, chegamos ao Tejo; e, transpondo-o, entramos no seu valle, que é para nós como o Nilo é para o Egypto. N'elle com effeito o campino nos traz á idéa o typo d'essas raças da Africa setentrional, lybios ou mouros, cujo sangue anda misturado em nossas veias. A cavallo, de pampilho ao hombro, grossos sapatos ferrados, gorro vermelho na cabeça, o ribatejano, pastoreando os rebanhos de touros nas campinas humidas e vicejantes, é como um beduino do Nilo. A vasta planicie matizada de povoações e bosques de choupos, de salgueiros e de álamos, contornada ao longe pelas cumiadas das serras, tem o caracter das paizagens do Egypto, ou de Tunis, dominadas pelo esqueleto giganteo do Atlas[[28]].[{pg. 46}]

Como o beirão, tambem o ribatejano reune á vida agricola a maritima ou fluvial: é elle quem vem nos seus barcos de agua-acima, até Lisboa, trazer o seu tributo de cereaes e fructas. Pelo Tejo, o Portugal maritimo abraça o Portugal agricola fundindo n'uma as duas phisionomias typicas da nação. Rio acima, o Alemtejo de um lado, a Beira do outro, por esta fórma se communicam com a população maritima do litoral. Lisboa, com Sines ao sul, Aveiro ao norte, eis os pontos cardeaes d'essa costa Occidental, d'onde tantas grandes aventuras, tão dilatadas viagens se emprehenderam. Capital geographica, Lisboa é tambem a nossa capital maritima; e se as viagens e descobertas são o coração da nossa historia particular nacional, Lisboa é tambem a nossa capital historica. As toadas plangentes que ao som da guitarra se ouvem por toda a costa do occidente; essas cantigas, monotonas como o ruido do mar, tristes como a vida dos nautas, desferidas á noute sobre o Vouga, sobre o Mondego, sobre o Tejo e sobre o Sado, traduzirão lembranças inconscientes de alguma antiga raça, que, demorando-se na nossa costa, pozesse em nós as vagas esperanças de um futuro mundo a descobrir, de perdidas terras a conquistar ao mar?

Os sonhos cheios de encanto e melancolia, por tão longos tempos embalados pelo incessante murmurio do mar bretão e pelo ciciar das florestas druidicas; o carinho da natureza pelo homem, traduzido n'essas lendas piedosas em que os animaes falam, os passaros veem fazer ninhos na mão dos santos, e a voz das fadas se mistura com o ramalhar das arvores e o murmurar das aguas: esse vaporoso e encantador botão da alma celtica, porventura desabrochava no espirito nacional portuguez,[{pg. 47}] quando a conclusão das guerras da independencia assim o ordenou.