D. João de Castro, o marinheiro, tem, como um druida, o amor ingenuo da natureza: «Ó vergonha e grande cubiça dos homens, que por haver as desventuras dos metaes cavam tanto a terra que lhe tiram fóra as tripas, derribam grandes outeiros, abaixam asperas e altissimas serras no andar e olivel dos campos, e não contentes de estragarem tanto a terra, rompem e furam pelo mar por haverem uma perla—e para esculdrinhar uma obra maravilhosa da natureza são timidos e preguiçosos!»[{pg. 48}]

[[25]] V. Portugal contemporaneo, pass.

[[26]] V. Portugal contemporaneo (2.ª ed.), II, pp. 183-91.

[[27]] V. Portugal contemporaneo, (2.ª ed.) II, pp. 51-3.

[[28]] V. Elem. de Anthropologia (3.ª ed.) p. 232.


[V
A historia nacional]

D'esta viagem, breve, pallida, e incorrectamente esboçada, ficaria—ousamos crêl-o—no espirito do leitor uma impressão por isso mesmo verdadeira. Pallida e como que indeterminada, sem fortes côres nem linhas pronunciadas, é a phisionomia da nação, quer na paizagem, quer nos homens. Nenhum traço profundo distingue a nossa geographia; benigno, médio ou temperado é o nosso clima, e tambem o nosso caracter.

Se alguma cousa de facto nos individualisa, é a falta de affirmação do nosso genio. Aquellas a que poderemos chamar qualidades peculiares nossas, consistem na facilidade com que recebemos e assimilamos as de extranhos. Navegadores—e só por si este caracter não imprime em nós um cunho distincto dos demais povos maritimos—a maneira por que nos aventurámos ao mar, retrata ainda a nossa phisionomia collectiva: fomos prudente e pacientemente ao longo das costas africanas, ou de ilha em ilha, no oceano, caminhando passo a passo, avançando sempre, tenazes, mas jámais temerarios[[29]].

Essa individualidade passiva do nosso genio traduz-se na nossa historia. Ninguem busque n'ella[{pg. 49}] movimentos originaes e profundamente caracterisados por uma idéa nacional: esperal-o-hia o castigo reservado a todas as chimeras. Ninguem busque tampouco o systema de um desenvolvimento proprio e organico, obedecendo a leis particulares, e constituindo, no seu todo, aquillo a que se chama uma civilisação: por esse lado apparecemos indestructivelmente ligados ao corpo peninsular; e apesar de politicamente separados, obedecemos ás leis geraes que lhe determinam a vida historica. O conjuncto dos nossos pensamentos moraes, o caracter dos movimentos que compõem o systema do desenvolvimento das instituições, o das condições das classes, e até as linhas geraes da nossa vida politica, são apenas um aspecto do systema da historia da peninsula iberica. Por isso nós, que, em outro livro,[[30]] tratamos d'este assumpto, não voltaremos agora a occupar-nos d'elle, para não fatigarmos o leitor com repetições inuteis. Procuraremos n'esta obra determinar o modo particular, proprio ou nacional, com que realisámos um programma historico geral, definindo a nossa individualidade collectiva; procuraremos tambem indicar os movimentos politicos, em que resolutamente defendemos a nossa autonomia; e finalmente mostrar que, sendo a ausencia de caracter nacional affirmativo, e a malleabilidade com que recebemos e assimilamos as influencias extranhas, o que mais pronunciadamente nos individualisa como povo, a independencia da nação não proveiu de factos naturaes, porém sim dos actos de vontade dos seus homens. Causas de outra ordem houve de certo que vieram dar-lhes um apoio energico, e, não falando agora nas maritimas e coloniaes, referimo-nos ás[{pg. 50}] influencias extranhas á Hespanha, que por momentos nos pozeram, a nós, seus filhos, n'um estado de antagonismo transitorio com o desenvolvimento da historia peninsular. É sabido que a nossa primeira dynastia procedia de Borgonha; nos primeiros tempos são numerosos os fidalgos e soldados estrangeiros entre nós: e as conquistas de Lisboa, de Alcacer, do Algarve, effectuam-se com o auxilio de exercitos e armadas forasteiros. Mais tarde veem combater ao lado de D. João I os inglezes, com quem já ao tempo de D. Diniz celebráramos tratados de commercio, e que, nossos alliados no tempo do D. Fernando, nos impressionavam com os seus costumes e lettras. D'então data a generalisação dos nomes inglezes como Tristão, Jorge, Duarte, que se começam a encontrar ao lado dos antigos nomes romanos e gothicos. As allianças inglezas repetem-se nos primeiros tempos da dynastia de Aviz, até que o desenvolvimento do nosso imperio colonial nos torna soberanos. Annexados á Hespanha depois, voltamos a depender da Inglaterra ou da França, quando readquirimos a independencia. Generaes francezes commandam as campanhas da Restauração, patrocinada pela França; generaes inglezes, as guerras do principio do seculo subsidiadas pela Inglaterra. E duas vezes, quando se tentou chamar a nação á vida eminente da sciencia; duas vezes, quando D. João III e o marquez de Pombal reformaram a Universidade; duas vezes se importaram mestres extrangeiros.

De tudo o que deixamos escripto o leitor decerto comprehendeu já o systema de preceitos a que vae obedecer o nosso estudo; e affigura-se-nos ser este o caminho verdadeiramente scientifico de encarar a historia nacional, despindo-a de illusões patrioticas, e de phantasias chimericas. Mal de nós,[{pg. 51}] se, amando do coração a nossa independencia, imaginarmos que ella póde manter-se firme sobre um alicerce de fabulas, contra a recta e indestructivel verdade da sciencia! A independencia dos povos assenta sobre tudo na vontade collectiva: tal foi a base da nossa, tal continuam a ser, se com a vontade tivermos o juizo correspondente. Sem elle, o querer é apenas um capricho.

Obedecendo pois ao enunciado, dividimos a historia patria em quatro periodos successivos. No primeiro, o da dynastia de Borgonha, não nos destacamos ainda bem do systema dos Estados peninsulares: somos um d'elles, e a independencia provém exclusivamente do espirito separatista da Edade-média personalisado no ciume absolutista dos reis e barões portuguezes.—Depois de Aljubarrota, porém, o sentimento de independencia nacional torna-se popular, desde que a revolução do Mestre d'Aviz o faz coincidir com o interesse particular da região portugueza. Entretanto a vida maritima fôra-se desenvolvendo: e a nova dynastia obedece conquistando o litoral da Africa aos marroquinos, á corrente historica peninsular: e inicia, com as navegações e descobertas, um movimento particularmente nacional. Póde então dizer-se que por um momento Portugal esteve á testa da historia da Hespanha.

A terceira epocha abrange, a nosso vêr, a infeliz empreza do Imperio oriental, onde o movimento maritimo nos levou. Os elementos de vida propria, formados na epocha anterior, produziram uma colonisação á antiga e uma litteratura néo-latina: n'estas duas circumstancias provavamos faltar-nos uma fibra de intima originalidade nacional. A perversão dos costumes, a vastidão das emprezas, o limitado dos nossos meios, os erros politicos, finalmente,[{pg. 52}] condemnam-nos á perda da independencia.—Se na quarta e final das epochas da nossa historia voltamos a reganhal-a, a nossa vida apparece, comtudo, outra. Ao imperio oriental perdido, vem a exploração e colonisação do Brazil substituir-se, dando um ponto de apoio externo ao pequeno corpo europeu; e mais tarde, perdido a seu turno o Brazil, voltamo-nos agora, a vêr se a Africa póde dar-nos os meios de custearmos as despezas de um paiz pequeno e mediocremente abastado, sobre o qual pesam os encargos cada vez maiores do machinismo nacional. Hollanda do extremo occidente, radicada no corpo da Hespanha, como ella o está no corpo germanico, só n'um ponto de apoio externo podemos fundar o alicerce de uma independencia excepcional; só á custa de recursos coloniaes poderemos talvez satisfazer as multiplas e dispendiosas exigencias da organisação economica, scientifica e moral, hoje inseparaveis e indispensaveis á existencia de uma nação.[[31]][{pg. 53}]