[[29]] V. O Brazil e as colonias portuguezas (3.ª ed.) pp. 2-6.
[[30]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.).
[[31]] V. O Brazil e as colon. port. liv. IV-V, e Portugal contemporaneo (2.ª ed.) liv. VI, 1, 3.
[LIVRO SEGUNDO
HISTORIA DA INDEPENDENCIA]
(DYNASTIA DE BORGONHA: 1109-1385)
«He nossa entençon curtamente fallar, nom come buscador de novas razõoes, per propria invençom achadas, mas come aiumtador em huum breve moolho, dos ditos dalguns que nos prouguerom.»
F. LOPES, Chr. de D. Pedro I.
[I
A separação de Portugal]
O condado portucalense, creado nos ultimos annos do XI seculo a favor do conde borguinhão D. Henrique, genro de Affonso VI, pouco tempo existiu sob o regime de uma vassallagem indiscutidamente reconhecida. Era essa a epocha em que a Hespanha tendia a constituir-se n'um systema de Estados independentes, á medida que successivas regiões iam saíndo de sob o dominio musulmano para o dos descendentes dos godos asturianos, ou dos seus actuaes alliados;[[32]] e o condado portucalense obedecia a esta tendencia geral, no empenho que o seu conde não mais encobriu desde a morte do sogro.
É com effeito da data do obito de Affonso VI[{pg. 54}] que deve contar-se a éra da independencia de Portugal; embora por largos annos ella seja mais uma ambição do que um facto: embora essa ambição traduza um pensamento que os acontecimentos posteriores da historia impediram se realisasse. Qualquer que fosse o valor dado no XI seculo á expressão geographica de Portucale, é facto provado por todas as memorias e documentos d'esses tempos, que para ninguem deixava de considerar-se o territorio de entre Minho e Mondego como parte da Galliza. O facto da constituição do condado de nada vale contra esta opinião; porque demasiado se sabe que a formação dos Estados medievaes, na Peninsula e fóra d'ella, jámais obedecia ás prescripções geographicas ou etimologicas. Não se attribua pois a causas d'esta ordem, nem á consciencia de uma solidariedade nacional, o facto da desmembração da Galliza dos fins do XI seculo. A scisão que o Minho demarcou obedeceu apenas a motivos de ordem politica.
Isto mesmo, porém, deu causa a uma ambição, na qual devemos reconhecer o principio da vitalidade da nação portugueza, durante estas primeiras e ainda indecisas epochas da sua existencia. A solidariedade nacional espontanea existia de facto para os gallegos; e desde que a Galliza fôra dividida pela politica em duas, áquem e além Minho, restava saber qual d'essas metades tomaria sobre si o papel de representar um sentimento de independencia, commum a todos os membros ainda então disconnexos do corpo peninsular.