Varias causas concorriam para attribuir este papel á metade portugueza da Galliza; e porventura acima de todas o facto do merecimento pessoal do conde portuguez. Circumstancias d'esta ordem eram decisivas n'uma epocha em que a anarchia[{pg. 55}] systematica da constituição da sociedade fazia principalmente depender os destinos immediatos d'ella da perspicacia ou da bravura dos seus chefes. Nada ha de commum entre a vida d'estes tempos e a dos posteriores: e n'um certo sentido póde até dizer-se que os factos de ordem politica são independentes dos de ordem social, porque a sociedade é como um elemento passivo que por este lado (mas por elle apenas) obedece ás consequencias do desordenado capricho dos actos e caracteres dos chefes militares que a governam, sem propriamente a representarem.
Nos primeiros tres seculos, isto é, na primeira epocha da historia portuguesa, a independencia é um facto originado no merecimento pessoal dos chefes militares dos barões de áquem Minho. Nacionalidade propriamente dita, não a ha; ou pelo menos não nol-a revelam os monumentos historicos, unanimes, tambem, em revelar uma ambição collectiva ou social que se estende a toda a Galliza. Ao merecimento pessoal reune-se, nos primeiros monarchas portuguezes, a circumstancia de serem os interpretes d'este sentimento. Por isso a tendencia permanente e o principio claramente definido da politica portugueza, nos primeiros seculos, é unificar a Galliza, constituindo a noroeste da Peninsula um Estado tão homogeneo, como o Aragão ou a Navarra a nordeste.
N'este proposito se filiam todas as guerras civis—se este nome convém ainda aos conflictos entre Portugal e Leão—e as repetidas allianças dos barões gallegos das duas zonas divididas pelo Minho. A facilidade com que os reis portuguezes transpõem armados as aguas d'esse rio, o se apossam por varias vezes dos territorios da Galliza leoneza, são provas evidentes da opinião exposta.[{pg. 56}]
Não quiz a sorte que chegasse a realizar-se este primeiro pensamento politico, a que chamaremos hegemonia de Portugal na Galliza, para usarmos de expressões modernas; antes ordenou que os limites convencionaes do condado portucalense apenas inscrevessem o ponto de partida da formação de uma nação, cujo caracter, ulteriormente definida, proveiu principalmente da phisionomia geographica da região; de uma nação, repetimos, que veiu a perder a tradição d'essa primitiva origem, desde que o genio das populações de entre Mondego e Tejo sobrepujou o das do norte, na direcção e impulso dados á vida collectiva portuguesa.
Se n'esta primeira epocha da nossa historia o pensamento occulto que dirige com maior ou menor consciencia a politica, é incontestavelmente o da hegemonia de Portugal na Galliza, seria absurdo suppôr que, ao lado d'este principio, decadente desde certa epocha, se não fossem tambem manifestando de um modo correlativo, e cada vez mais pronunciado, os symptomas da deslocação do centro vital da nação.
A circumstancia que mais decisivamente determina este caracter da nossa historia primitiva é a conquista dos territorios sarracenos de áquem Mondego, levada a cabo pelos barões portugueses, sem os auxilios do suzerano de Leão. É este movimento que, principiando por quebrar os laços de solidariedade entre os gallegos leonezes e os portugueses, vae gradualmente addicionando a estes ultimos os Lusitanos (seja-nos licito dizer assim, para mais claramente definir o nosso pensamento) até ao ponto de os ultimos predominarem na phisionomia posterior da nação, transferindo de Guimarães e de Coimbra, para Lisboa, a capital do reino: fazendo substituir á vida rural, primeiro quasi exclusiva,[{pg. 57}] a vida commercial e maritima depois predominante e quasi absoluta.
A primeira epocha da historia portugueza offerece pois á observação do critico dois movimentos[[33]], oppostos n'um sentido, concordes em outro, que é o da affirmação positiva da independencia. Mas, se essa afirmação, terminante nas guerras leonezas, e tambem nas sarracenas, exprime de um lado a politica da hegemonia na Galliza, do outro exprime, de um modo todavia inteiramente inconsciente e espontaneo, uma tendencia contraria. É a da formação de uma nação lusitana, de que a Galliza portugueza desce á condição de provincia ao norte, como o Algarve, mais propriamente turdetano, vem a sel-o ao sul. O entre Douro e Guadiana, isto é, a espinha dorsal da Estrella, ladeada pelas Beiras ao norte, polo Alemtejo a sul, pela Estremadura a poente: eis ahi o que, logo desde o XIV seculo, começa a representar o corpo homogeneo da nação portugueza.
No Portugal primitivo, a politica da hegemonia na Galliza não se fundava, porém, sómente em uma indeterminada ambição collectiva. Era um pensamento decisivo e fixo dos monarchas, e trazia origens tão antigas como a propria constituição do condado portucalense.
Creado por uma desmembração da Galliza, o condado cedido ao borguinhão não é natural que satisfizesse os desejos ambiciosos do principe. Como[{pg. 58}] as almas que, desorientadas pelas extravagancias do barbaro christianismo medieval, viviam n'um estado de aspirações nebulosamente infinitas: assim a ausencia de um criterio fixo, intellectual ou moral, e a lei da pura força em que existiam, lançavam os barões n'uma vida de aventuras, cujo criterio unico era a sua ambição, cujo unico limite era o limite imposto por uma força adversa. O poder do rei leonez era, para o conde borguinhão, o limite forçado das suas temeridades.