O enthusiasmo da tomada de Lisboa tinha-o impellido a proseguir, aproveitando a commoção triste dos vencidos e o apparecimento de novas frotas que agora, christan Lisboa, demandavam o Tejo, para refrescar, nas suas viagens para a Palestina.

Al-Kassr, ou Alcacer-do-Sal, era, para além de Lisboa, o centro estrategico da linha de defeza do Alem-Tejo, que guardava Chelb ou Silves. Logo[{pg. 87}] depois de rendida Palmella, Affonso Henriques, confiando demasiado nas proprias forças, investira, só e ao modo antigo, o castello de Alcacer, mas fôra cruelmente vencido (1151). Annos depois, vale-se do auxilio de uma frota ingleza, sem conseguir render a desejada praça (1157), que afinal cáe perante o ataque combinado das forças portuguezas e alliadas da Cruzada de 1158. Evora e Beja cedem tambem por essa occasião; e dir-se-hia que Silves, desguarnecida da sua linha de fortalezas fronteiras, ia cair rapidamente nas mãos do afortunado principe.

Não era, porém, assim. Essas successivas conquistas das praças do Alemtejo não tinham a importancia decisiva que tivera a de Lisboa. Levantadas como pontas de rocha isoladas, no meio dos vastos campos desolados, as praças do Alemtejo offereciam aos guerreiros abundantes prezas; e por isto os Cruzados de tão boa vontade paravam aqui, a preludiar na Hespanha o programma feito para a Syria. Saqueadas, incendiadas, porém, ou arrazadas, o seu valor para o reino era por certo lado pequeno ou nullo. O rei não dispunha de forças bastantes para guarnecer tão numerosos castellos e tão dilatadas fronteiras. Já para conseguir manter a linha do Tejo, tivera de doar ás ordens monastico-militares estrangeiras (Hospital, Templo, Santiago) as praças rayanas de Thomar, de Palmella, de Leiria. Os territorios despovoados e nús não vinham augmentar-lhe o numero de soldados, nem a riqueza. Para que isso succedesse era mister que a paz e o tempo fomentassem o desenvolvimento natural das forças economicas. Assim, desde que as armadas dos Cruzados, abarrotadas de prezas, largavam a bahia do Tejo, Affonso Henriques, tornando a achar-se a sós com[{pg. 88}] os seus recursos militares, era forçado a abandonar as conquistas avançadas do Alemtejo. Annos havia, tomára e deixára Beja: e agora (1158), das praças conquistadas, apenas guarnecia e conservava Alcacer.

Estas campanhas do Alemtejo estão perante Silves como, antes, as da Estremadura perante Lisboa: emquanto o sarraceno pisar o Algarve, serão precarias todas as conquistas n'este largo trato de terreno devastado que não poderá nutrir-se e prosperar, emquanto não estiver ao abrigo das invasões. Porque não foi Affonso Henriques cair directamente sobre Silves, aproveitando-se de alguma esquadra de Cruzados, em vez de consumir as suas forças na empreza esteril das correrias, conquistas e saques das praças do Alemtejo? Porque evidentemente lhe faltava a larga vista das aguias dominadoras, tendo só o que é commum a todas as aves de rapina: o ataque fulminante, e a garra cheia de força e tenacidade.

Depois de saquearem Alcacer, os Cruzados tinham partido; e a noticia dos successivos desastres dos ultimos onze annos decidira os almuhades[[42]] a tratar seriamente de pôr cobro aos progressos de Affonso Henriques. Invadem o Alemtejo; e junto de Alcacer, seis mil portuguezes mortos, o exercito desbaratado, decidem a perda de todo o Alemtejo (1161) pondo em perigo Lisboa. Os sarracenos chegaram a tomar Palmella e Almada, mas julgaram prudente abandonar esses pontos destacados na peninsula de entre o Tejo e Sado. Desde que outras emprezas obrigaram a retirar o exercito almuhade depois de fortificar Alcacer, já Affonso Henriques, e os seus discipulos em aventuras podiam[{pg. 89}] á vontade recomeçar as correrias e assaltos. Effectivamente, em 1162, um troço de burguezes toma Beja por surpreza; e em 1166 um bando de salteadores, com Giraldo á frente, de escada ao hombro, punhal nos dentes, entra uma noute em Evora, que saqueia e atulha de cadaveres. Eram portugueses? eram sarracenos? eram de uns e d'outros; eram uma das muitas companhias de bandidos que batalhavam por conta propria, sem noção de patria a que pertencessem, nem de religião que seguissem. Tinham por culto apenas a ladroagem, e adoravam o deus do estupro, do saque, da matança. Eram de todas as nações; e falavam uma algaravia, mosarabe nos christãos, most'latina nos musulmanos—uma lingua franca.

Affonso Henriques não podia socegar vendo essas façanhas. Eil-o outra vez a cavallo, Alemtejo em fóra, a correr charnecas e arremetter cidades: Moura, Serpa, Alconchel, e, internando-se pela Estremadura hespanhola, Caceres o Tordjala, ou Trujillo (1166). Essa era a sua paixão, o seu furor. Que importa, se, apenas voltava costas, logo se erguia de novo a bandeira musulmana nas muralhas que escalára á traição? Elle tambem voltaria, no verão seguinte, a repetir a sua façanha. E assim, por falta do genio militar do conquistador, as scenas repetiam-se, os castellos passavam successivamente de mão em mão, e portuguezes e sarracenos apenas podiam chamar seu ao terreno que actualmente pisavam. Se as forças proprias do portuguez lhe não consentiam outra cousa: se, sem o auxilio dos Cruzados, não podia abalançar-se á empreza de Silves, melhor fôra sacrificar a paixão ao interesse proprio, consolidando o dominio, do que pôr em perigo o Portugal cistagano, por consumir de um modo esteril as forças militares do novo reino nas[{pg. 90}] correrias transtaganas. O rudo capitão não tinha porém intelligencia para tanto: a correria arrastava-o, a presa seduzia-o, e a guerra governava-o a elle, em vez de ser elle quem governava a guerra. Sem plano fixo, á toa, á aventura, internára-se até Trujillo e queria tomar Badajoz, invadindo territorios que, apesar de sarracenos, eram vassallos do visinho monarcha de Leão. A sua loucura teve a sorte de todas as loucuras; e já o vimos coxeando e duplamente ferido, no joelho e nos brios, caminhar a esconder a sua vergonha em Santarem (1169).

O desastre de Badajoz devia ter soado por todo o Al-gharb, onde as correrias e façanhas do bando de Affonso Henriques espalhavam a angustia e o terror; e o musulmano, inimigo por patria e religião, não devia ao bulhento principe a generosidade magnanima do genro leonez. Um novo e poderoso exercito transpõe o Tejo, e vem cercar o ferido em Santarem (1171). Acode-lhe Fernando II que, como verdadeiro rei, sabia calar os resentimentos pessoaes, deante de um perigo commum para todos os principes christãos da Peninsula. Duas vezes salvo pelo genro que o vencera; humilhado, abatido, ferido e velho, Affonso Henriques já não é o irrequieto soldado de outros tempos. Santarem que ganhára por esforço proprio, escalando os muros, era o seu tumulo. Ahi n'um leito gemia dores de muitas especies: todo o Alemtejo estava perdido; e agora (1184) Jussuf, o grande émir de Marrocos, vinha em pessoa, dirigindo o exercito, cercal-o outra vez. Acudiria o genro outra vez a salval-o? Cinco annos havia que o exercito musulmano passeiava triumphante pelos seus reinos. Não pudera entrar em Abrantes, mas tinha destruido Coruche, que era para a defeza de Lisboa e da linha[{pg. 91}] do Tejo, como fôra Leiria para Coimbra e para a linha do Mondego. Evora apenas resistiria ás invasões, que tinham levado Alcacer e Serpa, Beja, Moura, Jerumenha e todo o Alemtejo (1179-82). Como o javali, encerrado no covil e perdido, o guerreiro contava as horas, e antecipadamente sentia o penetrar das lanças nas suas carnes abatidas pela edade, e o quebrar dos seus ossos tão rijos ainda, mas mal governados pelos tendões flacidos. Chorava; talvez se arrependesse dos seus erros. Feliz porém mais uma vez, os acasos imprevistos concorriam para o salvar. Á magnanimidade do genro devera o não ter ido acabar n'alguma masmorra escondida nas montanhas das Asturias; e a esta circumstancia, verdadeiramente excepcional, de um principe generoso, devera tambem o salvar-se do primeiro cerco. Em vez de Fernando, que não acudiu agora, veiu em seu auxilio a sorte que matou o émir de Marrocos, e espalhou uma peste no meio do exercito almuhade.

Levantou-se o cerco, Affonso Henriques pôde respirar ainda livre os ultimos annos da sua já acabada vida.


O pensamento que elle não soubera ou não pudera realisar, coube ao filho e herdeiro pôr em pratica. O modo serio de conquistar o Alemtejo era ir com os Cruzados, por mar, investir Silves. Logo que Sancho I herdou o reino, e desde que appareceu no Tejo a primeira armada, decidiu-se levar a cabo a empreza. Já então havia uma frota portugueza; e se á constituição geographica do corpo da nação faltava a metade meridional, o coração, Lisboa, pulsava já independente e vivo; os navios[{pg. 92}] da primeira expedição do Algarve são d'isso a prova. Abria-se agora uma segunda epocha; e, ou filha do genio do monarcha, ou proveniente da expansão natural das forças nacionaes, ou resultado das duas causas combinadas, o facto é que, entrados n'uma segunda edade, respiramos um ar diverso, observamos um typo differente e uma nova phisionomia da nação.