Entretanto, sete annos iam passados depois d'essa primeira apparição dos Cruzados, sem que outros viessem proporcionar-lhe occasião para realisar os seus designios. Impaciente, orgulhoso ainda com o resultado da correria de Beja (1145), seguro do lado de Leão pelas pazes de Zamora, forte pela confirmação do seu titulo, confiado na protecção papal—o sangue pula-lhe nas veias, e decide tomar[{pg. 83}] Santarem, (1147) á sua moda, isto é, por surpreza. Pela calada da noute appareceu á raiz das muralhas da villa. Pozeram-se escadas. Subiu um furtivamente e abafou uma vela (sentinella); depois subiu outro, depois terceiro, «e depois que todos tres foram em cima do muro, a vela que estava em cima do caramancham, quando sentiu Mem Moniz que se ia alongando, disse-lhe: «Manahu!» e elle respondeu-lhe em aravia e fel-o descer, e logo que foi em baixo cortou-lhe a cabeça e deitou-o aos de fóra. E então elles poseram outra escada e subiram por ambas o mais toste que poderam, e foram tantos que se apoderaram do muro e britaram as portas por onde entraram elrey e os que com elle foram. E d'esta guisa foi furtada a villa de Santarem aos mouros.» O resultado correspondeu pois ao plano, e quem sabe se a temeridade teria arrastado o rei a proseguir do mesmo modo contra Lisboa? Não foi, porém, necessario. Esse anno vieram os Cruzados[[40]] por quem suspirava, e com elles metteu hombros á empreza.
A guerra toma desde então um caracter regular de cercos e campanhas. Os meios correspondem aos propositos, e estes á idéa da nação que começava a definir-se.
A tomada de Lisboa lavra a acta do nascimento da nação portugueza, até ahi envolvida nos limbos da geração. O cerco affigura-se-nos como o concilio internacional, uma especie de congresso guerreiro, em que a Europa baptisa o recem-vindo á luz da historia. Creado pelos actos geradores da vontade[{pg. 84}] de um homem, abrigado pela égide da Egreja, Portugal tem a existencia confirmada pela sancção dos exercitos cruzados da Europa. O caracter cosmopolita da sua vida futura, da sua ulterior phisionomia politica, parece ter-lhe sido desde logo imposto, como um baptismo, quando, em frente d'essa piscina do Tejo, onde fundeiam duzentas naus coroadas pelos pavilhões de tantas nações da Europa, se estende o cordão do exercito de flamengos, lotharingios, allemães e inglezes.
As columnas dos cavalleiros cruzados combatem ao lado das mesnadas dos barões portuguezes, estendendo-se em meia lua, a investir o morro de Lisboa; e com as pontas apoiadas contra o rio, formam metade do cinto que a armada, fundeada no Tejo, encerra. Com os frankos e inglezes, colossaes de estatura, rubros de sangue, herculeos de musculos, vêem italianos sagazes, mestres consummados na arte das minas ou sapas. Sobre os navios e do lado da terra a arte acorre em auxilio da força. Os inglezes montavam as suas manganellas ou catapultas, os frankos as suas torres; e Affonso Henriques pasmava d'esses maravilhosos instrumentos deante dos quaes a escada e o punhal do salteador nocturno pareciam miseraveis. Acaso a comparação offendia a sua opinião, bem fundada, de atrevido; acaso achava mais rapido e simples confiar o resultado aos seus expedientes favoritos de condôr: o facto é que decidiu começar por um assalto. Foi no dia 3 de agosto que pela primeira vez rebombou a trovoada dos golpes do moganons, o stridente sibilar das settas despedidas do alto das torres, e das pedras soltas das fundas,[[41]] o clamor apocalyptico[{pg. 85}] dos combatentes, erguendo um côro de imprecações ferozes, proferidas nas mais desvairadas linguas. Á tormenta dos sons respondiam os relampagos do pez, do azeite, da estopa incendiada, que os muros de Lisboa vomitavam sobre os assaltantes, ajudando o sol que, illuminando a scena, congestionava as cabeças dos filhos da algida Germania, da Britannia ou da Frankonia. Ás ondas de lume, ao lume do sol, veio juntar-se um novo clarão de chammas e de grossas voltas de fumo negro que subia cravejado de scentelhas a perder-se no ar: as torres ardiam! O assalto era repellido; a tentativa falhára.
Começou o cerco. Em poucos dias a voracidade feroz dos homens louros do norte destruiu quanto havia em torno de Lisboa: hortas e pomares, villas, cazaes e granjas. Dentro da cidade escasseiavam os mantimentos, e bandos de soldados fugiam com fome: do alto dos muros, os que ficavam perseguiam-nos com surriadas de pedras. Os gastadores minavam, atulhando a sapa com lenha cortada nos arredores: no dia decisivo, o fogo, consumindo esses transitorios esteios, roubaria a base ás muralhas. Os italianos construiam uma grande torre, que ficou terminada em meiado de outubro, quando a resistencia de Lisboa tocava o extremo. Queimaram-se os robles da sapa, assestaram-se os tiros, prepararam-se as columnas de soldados, e deu-se o assalto, logo que se ouviu o estrondo de um panno inteiro das muralhas que se derrocava do lado do oriente.
Lisboa capitulou. Os Cruzados cevaram o amor do ouro, da prata, e das mulheres formosas, (auri et argenti et pulcherrimarum fæminarum volupias) que os levava á Syria; e Affonso Henriques tomou posse da cidade. As fortalezas satellites de[{pg. 86}] Lisboa não podiam resistir: Cintra, Palmella, e Almada Cairam em curto espaço nas mãos dos vencedores.
A base geographico-maritima de Portugal estava ganha para não mais se perder; e se o rei fôra o author do facto da separação, era o rei quem todos os dias ia adiantando a obra de uma independencia positiva e formal. Lisboa não valia menos, para tal fim, do que a protecção de Roma.
Esses dias de Zamora e de Lisboa (1143 e 47) marcaram o apogeu do reinado do primeiro monarcha portuguez. Batido em Badajoz pelo genro leonez (1169), foi-o tambem nas suas novas conquistas, pelo sarraceno (1161-71). Affonso Henriques não era já o mesmo homem: a edade quebrára-lhe o vigor de outros annos; e o perdão de Badajoz e as armadas dos Cruzados deviam ter quebrado tambem a cega confiança que punha nos seus recursos e habilidades. Via que no coração dos homens podia haver mais do que ambição e manha; e na arte da guerra processos mais valiosos do que a escada e o punhal, a razzia e o assalto nocturno. Taes observações, acompanhadas pela ferida do joelho que o conservava tolhido roiam o velho capitão no seu antro de Santarem (1171).