[[32]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.), liv. III, 1.

[[33]] Resumimos á politica o campo das nossas observações, por termos deixado na Hist. da civil. iberica desenhados os traços geraes dos movimentos propriamente sociaes. V. Livro III; pass.

[[34]] V. Hist. da repub. romana, I, pp. 309-48.

[[35]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 113 e segg.

[[36]] V. Instit. primitiv., p. 215.

[[37]] V. Instit. primitivas, p. 165.

[[38]] Th. da hist. universal, nas Taboas de chronol., XXXII-III.

[[39]] V. Quadro das instit. primit., pp. 267-75.


[II
A conquista do Al-Gharb]

Nas suas emprezas contra Leão, Affonso Henriques, batido sempre como guerreiro, conseguira desforrar-se dos desbaratos com a astucia. Das duas faces que apresenta a historia da fundação da monarchia, vimos a primeira: resta-nos vêr a segunda. Assistimos aos actos do politico; vamos assistir agora ás fecundas emprezas do conquistador.

O principe trazia para a guerra as manhas da côrte, sem prejudicar a firmeza necessaria, a bravura, o sangue-frio e a audacia. Com este conjuncto de elementos dava um caracter original á guerra (novo genere pugnandi). Ia de noute, ás escondidas (furtim), como um chefe de bandidos em assalto a algum villar, fortificado, no pendor de uma serra distante (quasi per latrocinium). Assim investiu e tomou Santarem. «Assim conquistou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha e Al-Kassr, este inimigo de Deus!» diz o chronista arabe. O ponto de ataque era de antemão escolhido. Por uma noute escura e tempestuosa punha-se a caminho com um troço de homens resolutos: dir-se-hia uma quadrilha de salteadores. Galgavam rapidamente as distancias, e chegados ao destino, apeiavam-se, approximando-se caladamente dos muros. Affonso Henriques encostado á escada, era o primeiro a subir com o[{pg. 80}] punhal preso entre os dentes. Parava, escutava, com o olhar agudo, a respiração suspensa: afinal pousava ancioso o pé entre as ameias, e apertando o punhal nas mãos, cozia-se com os muros. Na sombra não o distinguiam. Caía como um falcão sobre a sentinella, e apunhalava-a antes que ella podesse tugir um grito. Entretanto os companheiros iam subindo. O bando reunia-se na esplanada, armado e resoluto, o ao grito de «Santiago!» caía sobre a guarnição adormecida e trucidava-a. «Tal foi o modo por que este inimigo de Deus tomou a maior parte dos castellos das provincias de Belatha e Al-Kassr!»

Havia porém ainda outra maneira de guerrear, cuja invenção não pertence a Affonso Henriques: era o systema de álgaras, fossados ou correrias, atravez dos extensos territorios fronteiros. De um lado e de outro, n'uma zona mais ou menos larga, conforme o ordenavam a constituição geographica e a estrategia, desdobravam-se as charnecas periodicamente assoladas. Aqui e além, apertadas em cintos de muralhas, ficavam as povoações, em cuja volta, como oasis, appareciam malhas de terrenos agricultados. Confiar ao nervo e á velocidade dos cavallos o transpôr as passagens perigosas d'esses desertos onde as sortidas dos castellos podiam cortar a retirada, e cair impetuosamente sobre as searas, incendiando-as, sobre os rebanhos, roubando-os, sobre os tardivagos, matando-os; talando os campos, cortando as arvores, incendiando as casas, e voltando rapidamente com as prezas feitas: tal era o processo egualmente seguido por christãos e sarracenos; reduzido já a um systema de invasões annuaes na epocha das colheitas, e contado como principal recurso financeiro da rude economia do tempo.[{pg. 81}]

Se a tomada de Santarem (1147) é um typo da primeira especie, a batalha de Ourique, ou Orik (1139), é o typo da segunda. A fortuna accendia a audacia de Affonso Henriques, que levou o fossado por entre as fortes posições de Santarem e Alcacer, deixando Palmella, Cintra e Lisboa na retaguarda; atravessando o Tejo, para ir talar os campos de Chelb ou Silves, emporio sarraceno da Hespanha lusitana. Poucas vezes, porém, um fossado era apenas uma correria e um saque. As guarnições dos castellos passavam signal, combinavam sortidas; e o episodio de uma batalha acompanhava quasi sempre a obra de depredação. A batalha de Ourique, qualquer que tivesse sido a importancia numerica dos combatentes, deu a Affonso Henriques uma victoria que o encheu de animo para entrar em campanhas mais regulares e fecundas.

Os primeiros nove annos do governo do principe tinham sido absorvidos pelas questões leonezas, quando em 1137 uma invasão sarracena veiu destruir Leiria, que elle erguera para defender Coimbra das subitas investidas dos inimigos. Ourique desforrou-o do desastre, que o rei por outro lado remediava reconstruindo o castello, então fronteiro do extremo sul dos seus Estados. Mas logo o musulmano responde, voltando como uma onda que, alastrando o territorio christão, vae rolando até aos altos de Trancoso, deixando pela segunda vez derrubadas as muralhas de Leiria. Affonso Henriques consegue dominar a invasão, que retrocede ao abrigo da linha do Tejo; e retribue logo a visita com uma tentativa frustrada sobre Lisboa. Depois, alliado ao wali de Mertola contra o de Santarem, vae assolar os districtos de Merida e Beja. Nos intervallos d'estas correrias, o rei ferira[{pg. 82}] as batalhas do tratado de Zamora, e ganhára a victoria que lhe preparou o cardeal Guido.

O periodo de dez annos que está entre 1137 e 1147 offerece n'estas guerras o aspecto de um movimento que oscilla, como um pendulo suspenso de um ponto que é Lisboa: invasões sarracenas para o norte, portuguesas para o sul do Tejo, instabilidade de resultado de ambas. O eixo d'este movimento era evidentemente Lisboa e o systema das suas linhas de defeza—Cintra-Almada-Palmella-Santarem. A conquista da linha do Tejo tornava-se a condição indeclinavel, não já do alargamento, mas até da conservação da monarchia de Affonso Henriques.

Demasiado, porém, sabia elle que os recursos militares de que dispunha, se chegavam para os fossados annuaes, se bastavam para conquistar quasi per latrocinium os castellos isolados, eram demasiado escassos para tentar empreza tão vasta como a da conquista do systema de fortalezas que formavam o nucleo defensivo do centro do que foi depois o reino portuguez. Na tentativa frustrada que fizera sobre Lisboa em 1140 fôra ajudado por uma esquadra de Cruzados. As suas esperanças estribavam-se n'um auxilio d'essa ordem: até porque, sem forças navaes para entrar no Tejo—ainda então não havia marinha militar—seria absurdo tentar a empreza.