Em vão Affonso Henriques insta e exige. Por fim, já nos derradeiros annos do seu reinado, e á custa de um presente de mil morabitinos e do augmento do censo annual, Alexandre III decide-se, e sancciona-lhe o titulo, garantindo-lhe a hereditariedade, sob condição de preito e confirmação outorgada aos seus successores.
Portugal, que já a esse tempo tinha uma razão de ser territorial independente da Galliza, achava agora um fundamento juridico de independencia de Leão. A suzerania do papa collocava o novo reino ao abrigo das pretenções da monarchia leoneza; e se Affonso Henriques não saía da condição subalterna de vassallo, porque apenas mudára de protector ou suzerano, o facto é que na mudança ganhava uma liberdade real, esperando o que de facto veiu a conseguir: que a vassallagem se tornasse nominal apenas.
Ainda no tempo do primeiro rei portuguez de[{pg. 76}] novo se ateia a guerra com Leão; mas basta um exame superficial dos monumentos historicos para vêr que o caracter e as condições d'essa nova campanha são já totalmente outros. Não é um vassallo rebelde pugnando pela independencia: é o choque de duas monarchias que reciprocamente se reconhecem como taes. A serie de guerras entre os diversos estados da Peninsula—caminho por onde ella chegou a determinar as condições definitivas das suas constituições politicas—tem na campanha de 1160 um episodio. Affonso Henriques, já rei de facto e de direito, já senhor da linha estrategica de Santarem, e possuindo além d'isso, como vedetas avançadas para o sul, varias praças do Alemtejo, dispunha de forças sufficientes para pesar com a sua espada no debate das questões politicas dos Estados peninsulares. Desde que se decidisse a fazel-o, é natural que a velha ambição das fronteiras dilatadas de norte e nordeste fosse a causa efficiente dos seus actos.
Fernando II de Leão casára com uma filha do rei portuguez, mas nem ao genro nem á filha Affonso Henriques cedia os seus ambiciosos propositos. Raras vezes a politica tomou em consideração os vinculos de familia. O rei de Leão usurpára a corôa de Castella, e contava que a esposa lhe trouxesse a alliança do portuguez; porventura teria havido intelligencias positivas entre os dois monarchas. Quando com uma livre audacia se rompiam as pazes mais solemnes, que admira que se mentisse a convenios ou ajustes privados? Affonso Henriques era, como se sabe, mestre na arte de reinar. O facto é que, logo um anno depois do casamento da infanta, aproveita o momento em que o rei Fernando se achava a braços com a insurreição dos castelhanos, para mandar seu filho[{pg. 77}] e herdeiro, Sancho, á batalha de Arganal, onde foi batido (1165). Invadindo em pessoa a Galliza, o rei apossára-se facilmente de Tuy e do districto de Toronho até ao Lerez, seguindo d'ahi para leste (1166). Essa nova occupação portugueza da Galliza dura até ao desastre de Badajoz (1169).
Correndo então ao sul, Affonso Henriques decide-se a consolidar as suas possessões do Alemtejo, conquistando Badajoz aos sarracenos. Este acto, porém, era simultaneamente um episodio da guerra com Leão, porque o wali de Badajoz se collocára sob a suzerania de Fernando II, e porque a praça ficava para fóra dos limites de leste, marcados em Zamora ás futuras conquistas do rei de Portugal sobre os musulmanos.
A cidade caiu sobre o ataque do portuguez. Colhidos por surpreza, os defensores encerraram-se na alcaçova, resistindo. Poz-se o cerco, mas entretanto o rei de Leão, avisado, correu a defender o que era seu; e Affonso Henriques foi colhido entre dois inimigos. De sitiante viu-se cercado.
Afinal o temerario capitão caía em poder do adversario, afinal o caçador colhia-o fóra do refoio. Debate-se, estrebuxa e, ainda vencido, lucta desesperado; mas está pesado, velho e gasto. Faltam-lhe as forças para arremetter como d'antes, com a cabeça baixa e as presas activas, contra a matilha dos lebreus. Tropeça e cáe. É colhido. Cumpria-se o anathema: Deus castigava o filho que prendera sua mãe! Prisioneiro, curva-se submisso, recolhendo a colera e os dentes açulados, perante o seu nobre vencedor. Tal nome convem de facto a Fernando II, cuja magnanimidade perdoou as perfidias e ataques do visinho e sogro. «Restitua o que roubou, guarde o que é seu, e vá em paz!» Cabisbaixo, com o joelho ferido, a coxear, Affonso Henriques[{pg. 78}] parte d'alli a Santarem, concluir o que lhe resta de vida. Não tem coleras, nem fundas magoas pela afronta que soffreu: só lamenta a virente Galliza, perdida para todo o sempre.
Como o avarento, em cuja alma a paixão exclusiva absorveu todos os sentimentos e paixões humanas, assim na alma de Affonso Henriques a monomania da conquista, doença vulgar nos principes da Edade-média, atrophiára o desenvolvimento de tudo o mais. Mas, se entre os consocios de uma patria irman, se entre os herdeiros de uma historia commum, ha o amor por essa patria e a veneração pelos antepassados, nenhum merece na alma dos portuguezes respeito maior, do que o primeiro de todos aquelles a cujo braço esforçado se deve a obra da constituição politica da nação. N'este sentido as manias chegam a ser sublimes. Um salteador é, não raro, um verdadeiro heroe; a perfidia é uma virtude, a crueldade é um titulo de gloria, porque o espirito collectivo substitue o criterio moral e abstracto pelo criterio historico, o qual tem como base a consagração dos factos consummados.
A separação de Portugal foi um facto consummado, graças ao valente mediocre, tenaz, brutal e perfido caracter de Affonso Henriques.[{pg. 79}]