Cevados, partiram logo. Sancho pedia-lhes que acabassem a empreza, tomando Hayrun. Recusaram; não queriam arriscar os lucros, e estavam turgidos de goso. Só ambicionavam tornar á patria, para contar os seus feitos, e depôr aos pés das louras e ingenuas donzellas do norte, de suas noivas e de suas filhas, os collares, os brincos, as manilhas de ouro arrendado, que tinham roubado nos leitos, com a honra e a vida, ás filhas de Mafoma.
Sancho I, não podendo seduzil-os, nem convencel-os, desistiu da empreza; e deixando Silves guarnecida, e occupado o oeste do Algarve, retirou para o norte. Afim de consolidar a conquista, tomou Beja. Mas, emquanto o velho Faro se conservava em poder do sarraceno, não devia o rei portuguez considerar seu o Al-faghar.
Effectivamente durou pouco o primeiro dominio portuguez no extremo sul do reino. Quando o filho de Jussuf, Jacub, chegou a soccorrer Chelb, já a cidade estava perdida; e elle não soube ou não pôde retomal-a. Vingou-se irrompendo pelo reino; e, galgando o Tejo, assolou a Estremadura toda, pondo cerco a Thomar. Tampouco soube ou pôde vencer, e retirou-se; mas para voltar no anno seguinte. Então Silves caíu de novo em poder do sarraceno (1191) que, victorioso, tomou Beja, e na sua gaswat fulminante, veiu ameaçar Lisboa, desde os muros de Almada, conquistada.
Portugal recuava outra vez aos limites do Tejo; porém Silves, embora perdida, indicava o futuro[{pg. 98}] inevitavel d'este longo e mortifero duello. O rei occupava-se em consolidar os seus Estados, povoando, e organisando a administração. Na impossibilidade de levar a cabo a conquista do Al-faghar, enfraquecido militarmente o reino pelas correrias, desilludido sobre a efficacia do auxilio dos Cruzados, abandonou com razão o systema das álgaras e surprezas, com que, sem conseguir manter-se um dominio estavel, se extenuavam as forças vivas da nação. O seu governo sabio preparou as decisivas emprezas posteriores.
A primeira d'essas foi a tomada de Alcacer em 1217. No tempo de Affonso II já os portuguezes se tinham achado na batalha das Navas de Tolosa (1212), em que os principes christãos da Peninsula, tomando uma cruel desforra do desastre de Alarcos, deram o ultimo golpe no dominio sarraceno. Affonso II não tinha amor pela guerra. O lado organisador e administrativo do governo de seu pae imprimira-lhe paixões pacificas. Instigava-o ainda mais a sua avareza natural, e a condição dura em que a fraqueza dos ultimos annos de Sancho I o collocara, por ter doado o reino inteiro, thesouros e castellos, aos nobres e ao clero. Affonso II não quiz tomar parte da empreza de Alcacer, porque andava occupado a reivindicar para si o reino.
Kassr-al-Fetah, Castello-da-porta ou da entrada, se dizia essa chave do Alemtejo; e sem a posse de um tal ponto estrategico, eram vans as tentativas de consolidação do dominio portuguez ao sul do Tejo. Castello sobre todos nocivo, chamam-lhe as memorias coevas, (Castrum super omnia castra nocivum, GUSUINI CARMEN) porque d'ahi iam annualmente para Marrocos cem prisioneiros christãos, arrebatados aos territorios fronteiros até Lisboa, nas álgaras de todos os annos.[{pg. 99}]
Com o auxilio de uma forte esquadra de Cruzados, Alcacer ficou definitivamente em poder dos christãos no meiado de 1217. Nove annos depois, Sancho II, em quem renascia o espirito guerreiro dos avós, recomeçou a conquista do Algarve, caminhando ao longo da fronteira de leste, valle do Guadiana abaixo, e tomando successivamente Elvas, Serpa, Moura, Mertola, Ayamonte, Tavira e Cacella, que os arabes denominavam Hisn-Kastala (1226). As deploraveis pendencias que lhe roubaram a corôa não deixaram a Sancho II consummar a conquista do Algarve, que no meiado do XIII seculo cáe por fim (1249), obscuramente, em poder do usurpador da corôa fraterna, Affonso III.
Consolidada a separação, constituido geographicamente o paiz, resta-nos agora observar os movimentos internos da nação; para vêrmos como dentro d'ella se affirma a independencia, só plena e cabalmente definida, porém, na crise que poz termo á dynastia de Borgonha.[{pg. 100}]
[[40]] V. nas Taboas de chronologia, a das Cruzadas, a p. 219.
[[41]] V. na Hist. da repub. romana, I, pp. 251-5, a descripção das machinas de guerra dos antigos, que eram as da Edade-média.
[[42]] Taboas de chronologia, pp. 43 e 271.