A velha tragedia dos seus amores e da sua rebellião augmentava-lhe ainda as sympathias. O tyranno apparecia, justiceiro e bondoso, sobre o fundo de um azul de amores infelizes que encantavam a alma popular. Ignez de Castro, a sombra de um anjo, coroava-o de além do tumulo. Mas esta piedosa recordação era, na alma do rei, um espinho que o mordia sem cessar. O seu genio cruel pedia vinganças. Entendeu-se com o visinho de Castella, e pôde haver ás mãos dois dos assassinos. O povo não approvou o escambo; e o rei muito perdeu de sua fama, diz o chronista. O castigo dos assassinos foi duro: D. Pedro estava fóra de si, as palavras atropellavam-se-lhe na garganta, e não podendo satisfazel-o as muitas injurias, deshonestas e feias, vingou-se a chicotear os infelizes na cara. A sua colera attingia a ironia soez. Queria cebola e vinagre, para comer o Coelho em molho-de-villão. Por fim mandou que lhes arrancassem, vivos, os corações, a um pelo peito, a outro pelas costas. Gozou-lhes a morte, e acabou vingado.

Pedro I é a viva imagem da Edade-média, politica e domestica. Todos os vicios e todas as virtudes, a fereza e a ingenuidade, os odios terriveis e as amisades espontaneas, sommadas n'um caracter primitivo onde acaso alguma lepra dos vicios civilisados antigos punha nodoas novas, formavam[{pg. 110}] o caracter d'esse rei que é verdadeiramente um symbolo. Por isso o povo, vendo-se n'elle retratado, o adorou.


A politica da independencia puzera no seio da familia portugueza um membro, cujas arrogancias e pretenções ameaçavam desnortear o fiel da justiça social. O clero aspirava a usurpar a authoridade á monarchia. Além da força que as tradições juridicas lhe davam; além da authoridade espiritual e do espectro das bullas de excommunhão, pavor das almas ingenuamente crentes; além do poderio fundado n'uma riqueza excessiva e na machina absorvente da mão-morta, poço onde caíam as heranças e legados dos rudes batalhadores arrependidos; além de todas as causas geraes, o clero invocava em Portugal um argumento particular: o rei era vassallo, o papa suzerano. Por tal preço obtivera Affonso Henriques um simulacro de sancção juridica para a sua rebellião.

A situação do clero catholico no seio da primitiva sociedade portugueza—e das coevas em geral—resulta de um tal concurso de elementos heterogeneos, que nenhuma das faces do systema dos costumes retrata, melhor do que esta, a confusão cahotica d'esse novo mundo que se formava sobre as ruinas e destroços do antigo. Politicamente, o facto de um poder, superior por ter um fundamento transcendente, estranho ao poder civil, é a primeira causa de conflictos.[[47]] Perante a Egreja, todos são egualmente subditos, desde o rei até ao infimo dos viliores. A base religiosa d'esse poder[{pg. 111}] consolida-se com a força que dá a riqueza. Os barões, crendo de facto na verdade da revelação, e n'uma outra vida onde hão de ser julgados, teem uma religião feita de medo; e como no fundo são barbaros, vivem na terra á lei da força, remindo com esmolas e legados, á hora da morte, os longos rosarios de crimes. Julgando-se proximos a apparecer perante o supremo juiz, reconhecendo á hora da morte a inutilidade da força e da perfidia perante quem tudo póde e tudo vê, compram o perdão com o fructo das rapinas e dos crimes; e assim formam o alicerce de um poder real, verdadeiro e mundano. Salvos os mortos, os que ficam teem de entender-se com o clero herdeiro; teem de debater por todos os meios a influencia e o poder, para outra vez, á hora da morte, repetirem os actos causadores das luctas que lhes encheram a vida. Por tal fórma se encerra um circulo vicioso que a politica não póde romper, porque a religião o não consente. Desde que as raças germanicas, avassallando o imperio antigo, não tinham podido desenvolver a sua independencia religiosa e acceitaram o christianismo, força era que assim fosse, emquanto os dogmas christãos governassem as consciencias.

N'este sentido é perfeitamente legitima a influencia do clero; e não o é menos por virtude da authoridade que lhe dá o saber, com effeito já pervertido, mas ainda preponderante sobre reis e principes analphabetos. Legitima a sua influencia, historicamente legitima a sua força, o clero, porém, recebia por seu turno a acção reflexa do meio ambiente em que vivia. Era tão aváro, tão feroz, tão barbaro, tão vicioso, como os seculares; e a sua cultura accrescentava ainda, aos defeitos da brutalidade, os da civilisação. As perversidades requintadas,[{pg. 112}] as perfidias subtís tinham n'elle os melhores mestres; e por sua via entravam no corpo de uma sociedade barbara. Os sacerdotes eram os educadores politicos dos principes, quando não eram os seus declarados adversarios. Ensinavam as manhas, a quem apenas sabia commetter os actos brutaes. Aos vicios do instincto sabiam juntar as perversidades da intelligencia.

Se os principes da Egreja influiam de tal modo, a plebe ecclesiastica acompanhava as massas no rodopio lugubre e sanguinario da dança infernal da Edade-média. Os homens da Egreja commettiam todos os crimes. Sacerdotes, habitando os templos e os mosteiros, os seus erros eram outros tantos sacrilegios, pela qualidade dos delinquentes e pela condição do lugar. Roubavam, feriam, matavam, mentiam. Os casados andavam bigamos; os solteiros, publicamente amancebados. Davam o braço ás prostitutas, viviam com ellas, e desfloravam donzellas. Engeitavam os filhos, repudiavam as esposas. Além de criminosos, eram indignos. Faziam-se carniceiros em praça publica, matando e degollando as rezes, vendendo carnes. Eram jograes, tafues, bufões. Escondiam a corôa, deixavam crescer o cabello, e abandonavam o trajo ecclesiastico, para mais á solta poderem abandonar-se aos seus desvarios.

E, obrando taes crimes, desvirtuando por tal modo os legitimos privilegios do sacerdocio e da illustração, não deixavam de reclamar o fôro de uma justiça especial. D'ahi resultava que o rei podia enforcar um réo, por ser secular, e o cumplice ecclesiastico ficava impune. Testemunhas seculares não valiam contra elles, e ecclesiasticas não appareciam, porque o vedava a solidariedade da classe. O desvario era tamanho, que havia quem[{pg. 113}] chegasse a ordenar-se, unicamente para commetter crimes impunemente.

Juntem-se estes costumes aos costumes bravios da epocha; junte-se mais a serie de conflictos politicos e economicos, levantados pela condição particular da Egreja; addicione-se a situação especial de vassallo em que Affonso Henriques collocára o throno portuguez—e desde logo se comprehenderão os motivos dos longos e pittorescos conflictos da primeira época da historia nacional.

A erudição lançou para o campo das lendas os episodios tradicionaes do tempo de Affonso Henriques; mas a historia não póde desprezar esses traços pittorescos com que o povo retrata, infiel mas typicamente, as tendencias e os costumes. Sabe-se a historia do bispo negro de S. Cruz de Coimbra; e os monumentos remotos contam o que Affonso Henriques, se não fez, poderia ter feito ao legado que veiu de Roma excommungal-o por se ter levantado contra a mãe, pela ter mettido a ferros e não a querer soltar—segundo resa a chronica. Era homem «muy bravo de grande coraçom» o principe a quem a rebeldia do clero irritava. Foi esperar o legado ao Vimieiro, chegou-se a elle, travou-lhe do cabeção, sacou da espada e quizera cortar-lhe a cabeça. Os cavalleiros do rei acudiram: «Dirão em Roma que sois herege!» O cardeal tremia de medo, o rei de colera, mas baixou a espada e voltou: «Pois quero que Portugal não seja excommungado em todos os meus dias e que não leveis d'aqui ouro, nem prata, nem bestas, senão tres!» E proseguia exigindo uma carta de Roma garantindo a posse «d'isto (Portugal) ca eu o ganhei com esta minha espada.» O sobrinho do cardeal ficaria em refens: teria a cabeça cortada se a carta não viesse em quatro mezes. O cardeal,[{pg. 114}] diz-se, prometteu, annuindo a tudo; e o leitor sabe, pelo modo como lhe contámos os pactos de Zamora, qual é a verdade que esta scena pittoresca exprime. O rei que «em sua mancebia foi muito bravo e esquivo,» prosegue a lenda, feitas as pazes, disse ao cardeal: «Agora vede como sou herege!» E despindo-se, mostrou-lhe as feridas de todo o corpo, contando-lhe as batalhas em que as tinha havido. Resolvida a contenda, satisfeita a cubiça, aplacada a colera, apparecia depois do guerreiro violento o homem timido e crente, com a visão do inferno e o terror da excommunhão.