Pedro I tinha a paixão da justiça; era n'elle uma mania, como em seu avô o fôra a guerra. Não prescindia de julgar todos os delictos. Os criminosos vinham á côrte, desde os remotos confins do reino. Quando algum chegava, manietado, e o rei comia, levantava-se pressuroso da meza, e trocava a vianda pela tortura. Prazia-se em ajudar e dirigir os algozes; indicava os expedientes e processos para obter a confissão dos réos. Nunca abandonava o açoute: enrolado á cinta em viagem, tomava d'elle, e por suas mãos castigava o facinora que no caminho lhe traziam. Os adulteros mereciam-lhe um odio especial: jámais lhes perdoava. D. Pedro tinha um escudeiro, Affonso Madeira, luitador e trovador de grandes ligeirices, a quem embora amasse mais que se deve aqui dizer, o rei mandou castrar, porque peccou com Catarina Tosse.—O rapaz engrossou e morreu depois da[{pg. 104}] sua natural door. Certa mulher era infiel ao marido, que nem por isso se offendia: offendeu-se o rei, e mandando-a queimar, respondeu ao esposo desolado que lhe devia alviçaras pelo ter vingado. Havia um homem casado, com filhos, mas que antes da boda forçara a mulher. Roussou? morra. Enforcou-o, entre os choros e supplicas da esposa e dos filhos. O seu odio aos peccados da carne perseguia com furor as alcouvetas; e as feiticeiras não lhe mereciam menos cuidados.

Quando o tomavam os ataques da furia justiceira, a gaguez fazia ainda mais terrivel a expressão da sua phisionomia. A fala não lhe deixava traduzir bem as cóleras; e rubro, grosso, agitando o latego, n'um delirio, mettia espanto. Os gagos, porém, teem isto de particular: tanto o defeito accrescenta ao horror na furia, como põe nas horas mansas o quer que é de bonhomia quasi ironica. Era assim D. Pedro. Caçador tenaz, descansava do officio de juiz nas corridas do monte, seguido pelos moços com os nebris e falcões, e pelas matilhas de caens. Então o seu rosto aplacava-se, e era benigno, bemfazejo, liberal, folgasão. Foi grande criador de fidalgos. Glotão, passava horas esquecidas á meza, onde a vianda era em grande abastança.

Punir os maus, enfrear os fortes, «querendo fazer graça e mercê ao nosso poboo» era o seu constante desvelo paternal. Nas côrtes que reuniu em Elvas (maio de 1361) vê-se pelas respostas aos capitulos dos povos como o seu governo era protector. Queixavam-se os conselhos de que as casas dos mestres das ordens, dos bispos e priores, dentro das villas, caíam em ruinas; e o rei decide de um modo simples: filhem as nossas justiças aos proprietarios o que for necessario para as obras.[{pg. 105}] Filhem mais, para as pôr em grangeio, as herdades e vinhas ermas. Os ricos-homens veem ao concelho e pousam em casa de mulheres honestas, perdendo-lhes a reputação; pousam nas adegas e nos celleiros de trigo, e fazem d'elles cavallariças, allega o povo—e o rei ameaça o fidalgo que assim fizer. O clero, isento como estava dos serviços militares da hoste ou do appellido, recusa-se a acudir na hora de um perigo imminente? Que os clerigos acudam com os leigos, diz o rei, quando haja fogo ou inimigos.

Mas o «nosso poboo» ás vezes exige de mais, como uma creança que se sente adorada. Modere-se: o rei é um pae, mas o pae é um juiz, sempre benigno e amoravel porém. Quando recusa, não se vê arrogancia, apenas uma reserva prudente: «mostrem e declarem aquello em que lhis vam contra seus foros, graças e mercees que ham e que, nos lhas faremos guardar.» Exigir que as meretrizes e barregans andem estremadas pelo trajo, é querer muito n'essa Edade-média prostituta e adultera, faminta e leprosa, que vive de carnalidades, violencias e feiticerias: «Tragam suas vestiduras como as poderem aver, porque perderiam muito em os pannos que teem feitos e nos adubos que em elles tragem.» Mas quando o povo se queixa do que soffre com os serviços militares, obrigado o villão a ter cavallo e armas desde que possue uma certa quantia de bens, o rei attende e ordena que não sejam quantiados a nenhum os pannos de seu vestir e de sua mulher até dois pares, nem as roupas de suas camas.

Sobre a cabeça do povo humilde pesam duas ameaças constantes: o nobre com a sua violencia, o judeu com a sua manha. O fidalgo e o onzeneiro são a desgraça da gente, a perdição das filhas[{pg. 106}] e a ruina das searas. Quem nos protegerá senão o rei? Se o judeu onzenar, responde este, «nós o mandaremos matar e lhe tomar quanto houver.» Mas ninguem se atreva com elle, a não ser a justiça, que anda sobranceira a todos, a tudo. De uma vez D. Pedro mandou matar dois escudeiros por terem roubado a um judeu; e se tambem cortou a cabeça a outro, dos bons, de Entre-Douro-e-Minho, por ter partido os arcos de uma cuba de vinho a um pobre lavrador, foi elle o proprio que mandou degolar o sobrinho do alcaide de Lisboa por depennar as barbas a um porteiro.

A justiça havia de ser tremenda quando os costumes eram barbaros, corruptos e ingenuos ao mesmo tempo; quando o incesto, o adulterio, o assassinato, o estupro, o roubo, e essa offensa extravagante da merdinbuca (stercum in ore), tão frequente nos foraes, acompanham as linhagens das familias e enchem as paginas das cartas dos concelhos.[[46]] O juiz não será um algoz, mas é mistér que seja um tyranno; e o symbolo da justiça não está na balança com o seu fiel sensivel, mas antes na espada e no latego, na furia e no amor, no capricho benevolente e na sanha vingadora de um rei temido como foi D. Pedro.

Assim como a sua justiça era, pois, destituida de magestade, assim o eram as suas folganças. Dir-se-hia um rustico feito rei; e acaso por isso o povo o amava tanto. Não tinha distincções, nem delicadezas, no sentimento, nem no trato. Em tudo era brutal. Se confundia em si o juiz e o algoz, as suas festas eram kermesses extravagantes e plebeias.[{pg. 107}] Os instinctos aristocraticos e as fórmas da cortezia nobre, os torneios, as lanças, não tinham n'elle um amador. Era um democrata, um tyranno á moda antiga, em cujo espirito encarnara toda a brutalidade popular: por isso mesmo era adorado! Os seus castigos terriveis, passando de bocca em bocca, faziam-lhe um pedestal de força; e as suas continuas folganças populares cimentavam essa força com o amor intimo que nos merece quem tem comnosco a irmandade de gostos. O povo via-se rei na pessoa de D. Pedro.

Quando voltava em bateis de Almada para Lisboa, a plebe lisboeta saía a recebel-o com danças e trebelhos. Desembarcava, e ia á frente da turba, dançando ao som das longas (trombetas) como um rei David. Estas folias apaixonavam-no quasi tanto, como o seu cargo de juiz. Por ellas chegava a fazer loucuras. Certas noites, no paço, a insomnia perseguia-o: levantava-se, chamava os trombeteiros, mandava accender tochas; e eil-o pelas ruas, dançando e atroando tudo com os berros das longas. As gentes, que dormiam, saíam com espanto ás janellas, a vêr o que era. Era o rei. Ainda bem! ainda bem! que prazer vel-o assim tão ledo!—Vestiam-se todos á pressa, desciam ainda tontos de somno; e as ruas, um momento antes silenciosas e negras, brilhavam com as luzes, e tinham o clamor da multidão em vivas e o movimento das danças universaes.

Era uma loucura? Seria. A Edade-média é uma vertigem. O povo, afflicto pelas miserias do mundo e pelos terrores do céo, vivia n'um sonho feito de dôres positivas e de medos transcendentes: rodopiava n'um sabbath. Deus abençoe o rei que nos defende por sua mão! que vem comnosco bailar ás noites por essas ruas lugubres! que persegue[{pg. 108}] os incantadores e feiticeiras! É o nosso justo juiz, o nosso bom pae, o nosso amigo e irmão: adoremol-o!

Não eram só justiça e festas que o rei lhes dava: era pão. Sabio administrador, juntava grandes thesouros; e esta noticia augmentava, ao medo e ao amor, o respeito por um rei tão bom. A brutalidade e o egoismo dos costumes medievaes traduzia-se a miude n'um flagello terrivel—a fome, de que o pobre povo soffria sempre mais ou menos. A fome e as guerras geravam pestes. A primeira metade do seculo XIV fôra uma cadeia de desgraças. «No anno do Senhor, de 1830, diz o livro de Ceiça, foi a pestilencia grande e morreram então em dois mezes cento e cincoenta religiosos. Os lazaros eram tantos e tão antigos que D. Diniz deixara-lhes em testamento duas mil libras. Em 1333 houve fome, e os mortos já não cabiam nos adros das egrejas, enterrados aos seis em cada cova. No dia de S. Bartholomeu do anno de 1346, tremera a terra a ponto de os sinos tocarem nas torres, pavorosamente, um dobre de finados, annunciando o acabar do mundo. Depois veiu a peste de 48; e em 55, dois annos antes da morte de Affonso IV, foi a secca, havendo outra fome medonha. Da gafaria para a cova, ameaçado por todos, na terra e no céo, o povo infeliz e faminto congregava-se em volta do throno protector, adorando o rei justiceiro e providente, inimigo das pestes, das guerras, das fomes, e sentia-se rico dos thesouros guardados nas torres do castello. Além d'isso, D. Pedro fartava-o. As suas folias não eram só danças e musicas. Quando Affonso Tello foi armado cavalleiro houve uma kermesse monumental. Durante a vigilia d'armas, cinco mil tochas illuminavam as ruas, desde S. Domingos até ao[{pg. 109}] paço; e o rei, entre as alas de lumes, radioso e bom, na sua gaguez, dançou com o povo a noite inteira. Ao outro dia o Rocio estava coalhado de tendas e montanhas de pão e grandes tinas cheias de vinho. Nas fogueiras, em espetos collossaes, assavam-se vaccas inteiras. Havia de comer para toda Lisboa. O povo exultava, n'esses ágapes da monarchia.