Procedia summariamente: e a sua politica, toda pessoal, acclamada com enthusiasmo por um povo que o adorava, era a voz indomavel da nação que falava por sua bocca. A sua loucura era a synthese do pensamento collectivo. Quando o bispo do Porto reagiu, o rei foi lá em pessoa, diz a chronica, fechou-se com elle n'uma sala, despiu o gibão para ficar mais á vontade: trazia por baixo uma saia de escarlata. O bispo, transido de susto, esperava, sem ousar pedir soccorro. D. Pedro chegou-se e, placidamente, tirou-lhe a capa; desenrolou o latego, e correu-o a açoites, dizendo-lhe a rir, gaguejando: vae! anda! toma!
Não podia conceber leis, a cuja sombra os criminosos ficassem impunes; e por isso dava-se-lhe pouco de enforcar os padres.—E as regalias da[{pg. 119}] Egreja?—«Vam-no enforcando, respondia com bom humor e pausa, porque não podia falar depressa. Vam-no enforcando: por esse caminho lá vae para Jesus Christo, seu vigario, que no outro-mundo o julgará!»
E ficava-se a rir, vendo o tonsurado espernear na forca.
Tudo mudára. Os tempos eram diversos; as excommunhões, papeis rabiscados; as regalias da Egreja, uma tradição apenas. O rei parado, com os olhos na forca, ria!
«E diziam as gentes que taes dez annos nunca ouve em Portugal como estes que reinara el-rei dom Pedro.(Fernão Lopes.)
A fidalguia não tem uma historia tão grave como a do clero. As condições peculiares da constituição do reino portuguez augmentavam ainda os embaraços que em toda a Hespanha houve para a formação acabada de um feudalismo.[[48]] Todos os conflictos da nobreza com a Corôa proveem, não de uma questão de ambição politica, não de um pensamento definido de emancipação revolucionaria, como a do clero; mas da avareza, da cubiça, da brutalidade pessoal dos homens, nos quaes é mistér incluir tambem os reis.
A não serem, por outro lado, as revoltas do Porto, e as guerras entre Bragança e outros concelhos transmontanos, por causa do senhorio de Lamas, nada se encontra em Portugal que dê idéa de uma descentralisação de dominio politico, similhante[{pg. 120}] á que lavra para além das nossas fronteiras[[49]].
Poucos são os conflictos entre o rei e os barões que não tenham por origem a pilhagem dos realengos. Distante, e por isso mais fraca a acção da Corôa, o fidalgo do logar não receava chamar seu e apossar-se violentamente do terreno visinho, pertencente ao rei. Além d'isto, os nobres forjavam titulos, inventavam doações, para honrarem territorios sujeitos á acção das justiças reaes. D'estas causas provinham confusões inextricaveis, que a força apenas decidia. Quando o mordomo do rei, ou o seu aguazil, appareciam a cobrar um tributo ou reclamar um preso, o fidalgo usurpador, ou, do terreno, ou do privilegio apenas, saía com os seus homens: «Ca por aqui é honra!» E enforcava-os. Enforcava-os, ou matava-os mais barbaramente ainda. Um porteiro, que ia fazer uma penhora, teve as mãos cortadas, e foi depois assassinado. Outro, atado á cauda de um cavallo, foi de rastos, levado a galope em volta de toda a honra. Um foi pendurado pelos braços. Outra vez o fidalgo prendidit eos per gargantas: os processos eram tão barbaros como o latim.
Entretanto, embora destituidas de um alcance ou significação politico-feudal, não faltam nas primeiras epochas portuguezas revoltas e desordens oriundas das necessidades bulhentas da fidalguia. Batalhar era o unico meio de passar o tempo, ganhando fama e dinheiro ou terras. Mais pacifico o reino occidental da Peninsula, «em aquell tempo os fidallgos portuguezes hiam a Castella muitas vezes por se provarem pellos corpos quando em Portugall mesteres nom avia.» Mesteres eram desordens,[{pg. 121}] como a que assolou o paiz no tempo de Sancho II e levou á deposição do rei. Eis aqui um episodio do livro das Linhagens: «E este Raymão Viegas de Portocarrero, sendo vassallo d'elrey D. Sancho de Portugal, veio uma noute a Coimbra com a companha de Martim Gil Soverosa, onde el-rey jazia dormindo na sua cama; e roubaram-lhe a rainha D. Mecia sua mulher de apar d'elle e levaram-na para Ourem. O rei lançou-se apoz d'elles e só os pôde alcançar em Ourem que era então muy forte. Disse-lhes que abrissem as portas, pois era elrey D. Sancho, e levava seu preponto vestido de seus signaes e seu escudo e seu pendão ante si, e deram-lhe muy grandes sétadas e muy grandes pedradas no seu escudo e no seu pendão e assim se houve ende (d'alli) a tornar.» Mesteres eram estas guerras civis frequentes; mesteres, porém, menos nobres, eram as vinganças crueis exercidas sobre o povo inerme, como a de um tal Martim Esteves, que matou os doze melhores homens de Alter-do-Chão «por deshonra que lhe ahi fizeram.»