Mesteres ainda, são os desaggravos do thalamo tão a miude violado. Houve um Dom Rodrigo Gonsalves casado com Dona Ignez Sanchez; ella, estando no Castello de Lanhoso, fez maldade com um frade de Boiro, e o marido, certo d'isto, chegou ahi, cercou as portas do castello, e queimou-a a ella e ao frade e homens e mulheres e bestas e caens e gatos e gallinhas e todas as cousas vivas, e queimou a camara e pannos de vestir e cama, e não deixou cousa movel.

Nos mesteres amorosos tambem essa gente barbara se «provava pellos corpos» mas sem necessidade de ir a Castella. Quando em tão pouco se tinha a vida alheia, como se teria em muito a honra?[{pg. 122}] De Affonso Henriques, o rei «muito bravo e esquivo em mancebo», conta a historia que foi um dia hospedar-se em Unhão, a casa de um homem-bom que havia nome Gonçalo de Sousa, e emquanto elle ia adubando o comer, foi elrey vêr-lhe a mulher que tinha por nome Dona Sancha Alvares e começou-lh'a... E Dom Gonçalo de Sousa entrou pela porta e viu assim ser e pesou-lhe d'ahi muito e disse-lhe: Senhor, levantae-vos, ca adubado o tendes. E o rei foi sentar-se, e comeu e partiu; e o marido pegou da esposa, montou-a n'um jumento com a cara para a cauda, e mandou-a assim á côrte entregar ao rei.

Estes escrupulos do fidalgo não eram, porém, geraes, e fazem-lhe honra. A promiscuidade repugnante, o incesto, o sacrilegio são casos communs. Um fez um filho em Tereja Mendes, abbadessa de Lorvão e levou-o para a côrte, onde D. Diniz lhe deu muito bem e muita mercê. Outro «ouve um filho, Ruy, que foi privado d'elrey D. Diniz e ouvidor de sua caza.» Os reis, os nobres teem barregans publicas e legiões de bastardos. Quando D. Maria Paes, amazia de Sancho I, vinha do enterro do rei em Coimbra, encontrou em Avelans Gomes Lourenço, que lhe saíu ao caminho e a filhou por força, roussando-a. Elvira Annes roussou-a Ruy Gomes de Briteiros. E D. Fernão Mendes, o bravo, «foi o que matou sua madre na pelle da ussa e pose-lhe os caens, porque lhe baralhara com a barregan.» A bestialidade nem respeita o sangue, nem um incesto impede o casamento das nobres damas. «Dona Thereza Gil foi de mau preço e ouve filhos de seu primo co-irmão»; Dom Pedro Garcia jouve com sua irman e «fez em ella semel.» Dona Mor Garcia não foi casada, mas roussou a seu irmão Pedro e «fez em ella Martim[{pg. 123}] Tavaya.» Outrotanto succedeu a uma Maria Mendes, que depois casou com Lourenço Soares de Valladares. É longa a lista das torpezas das Linhagens da fidalguia. Taes são os poeticos amores da Edade-média, cujo brio é perfidia, cuja bravura é crueldade, cuja nobreza é astucia. A carne, o sangue e o ouro, a orgia bestial, a carniceria e o roubo são os elementos d'essas historias, em que a rudeza barbara apparece manchada de podridões asquerosas.

O roubo e o assassinato compõem essa epopêa aristocratica, cujos amores são roussos, estupros, adulterios, cujo espirito é a avareza e a perfidia.[[50]] Filhar as terras do rei, é a primeira das emprezas da cavallaria em Portugal. E o rei não vale mais do que os cavalleiros. Quantas vezes, com effeito, não seria usurpadora a sua intervenção? quantas vezes a ira brutal do fidalgo não teria um fundamento justo? Affonso II leva metade do seu reinado a espoliar da herança os irmãos, e todo elle a inquirir o fundamento legal da posse dos dominios aristocraticos: faz-se idéa da regularidade do segundo processo, depois de observada a primeira façanha. A confusão é tão grande, que D. Diniz (1309) decide abolir todas as honras posteriores a 1290.

É tambem no seu tempo que um outro acto de grande alcance vem diminuir o poder da nobreza, de um modo analogo ao que succedera ao clero. Assim como, fóra da nação, o clero tinha em Roma o seu chefe supremo; assim tambem as Ordens militares, estabelecidas em Portugal, tinham fóra do reino os seus mestrados. Nacionalisar as Ordens militares (1310) equivalia ao que se conseguira[{pg. 124}] com as assembléas do clero. O Templo, poderosa machina destruida por Clemente V, legava os seus bens ao Hospital, mas os tres reis de Castella, Aragão e Portugal, como todos tres fuessemos uno a catar nuestro drecho, conseguem nacionalisar os bens dos templarios. É com elles que D. Diniz funda a ordem portugueza de Christo.


Os monges militares[[51]] tinham representado um papel importante no movimento da reconstituição economica dos territorios portuguezes. Desde os primeiros tempos que ás Ordens jerosalemitanas fôra confiada a guarda de numerosas povoações. O Templo, o Hospital e o Sepulcro fruiam de abundantes doações; e Affonso Henriques concedera á primeira a terça parte de todas as conquistas ao sul do Tejo. Á inopia de forças para levar a cabo as grandes emprezas de Lisboa, Alcacer e Silves, pontos decisivos da conquista do sul do reino, remediavam os Cruzados; mas as esquadras partiam com o saque, e sósinhos os portuguezes não podiam conservar o adquirido. N'este motivo se fundára a concessão permanente de terras ás Ordens militares. Como vimos, Sancho II estendeu as fronteiras do reino pelo alto-Alemtejo; e sem recursos para conservar as conquistas, chamou para o reino os cavalleiros de Santiago e Calatrava, cujo mestrado era castelhano.

Tal era o unico meio de guarnecer os castellos dispersos pelas vastas campinas assoladas do sul do reino. A instabilidade do dominio e a escassez da população—ainda hoje sentimos as consequencias[{pg. 125}] d'essas prolongadas guerras—não permittiam que a cultura se estendesse; e á falta de productos da terra, christãos e sarracenos tinham de soccorrer-se ao systema de correrias e algaras permanentes. Como em nossos tempos na Servia, o lavrador trabalhava armado, na limitada área aproveitada em torno dos lugares fortificados. Além da occupação constante de alancear mouros, havia os grandes fossados annuaes, no tempo em que as searas estavam maduras; e isto fazia precaria e transitoria a agricultura. Todas estas causas reunidas produziam em resultado a devastação universal, já consummada na edade de que nos occupamos. Nos foraes dos primeiros seculos da monarchia, o alfoz dos concelhos é demarcado por uma certa penedia no alto da serra, pelo carvalho insulado, pela velha estrada mourisca, por certa pedra de côr diversa; jámais por casas, villares ou granjas.

O norte do reino, abrigado das invasões, defendido pelas linhas estrategicas do Tejo e do Mondego, não era, desde seculos, theatro da guerra santa. As depredações, menos geraes e menos frequentes, provinham ahi apenas das rixas dos senhores e das guerras civis. Affonso II mandou arrasar as propriedades do arcebispo de Braga. As guerras entre os filhos de Sancho I, as commoções que acompanharam a queda de Sancho II, a rebellião armada de Affonso (depois IV) contra seu pae, a do viuvo de Ignez de Castro, entre outras, trouxeram decerto ruinas e desastres, mas não para comparar com as assolações do sul, nem sequer com os males dos primeiros tempos, quando a ambição de conquistar a Galliza fazia do Minho o theatro das luctas quasi constantes com Leão.

As guerras castelhanas do tempo de D. Fernando[{pg. 126}] teem um novo theatro, porque o antigo condado portucalense descera já á condição de provincia portuguesa. O coração do reino está em Lisboa, a terra querida d'elrey Diniz, ca hy nascera, hy fora criado y bautizado, e hy fora rey. Nem o norte do Mondego, rico e populoso, nem o sul do Sado, demasiado bravio e inhospito, chamam a attenção administrativa dos governos. Toda ella se applica para o centro do reino, a renovar e agricultar, e para o desenvolvimento da navegação e do commercio pelo magnifico porto onde todos os navios, em viagem dos mares do norte para o Mediterraneo, vinham refrescar, desde que Lisboa era christan. D. Diniz lavrou o primeiro tratado mercantil com a Inglaterra (1308). Os armadores da Normandia, da Flandres e da Inglaterra, já no fim do XIII seculo demandavam o Tejo, para mercadejar; e os cuidados dos reis não se limitavam apenas a favorecer esse commercio, porque as plantações de vastos pinhaes nas costas teem como motivo proporcionar madeiras ás construcções navaes, e ao mesmo tempo defender as terras da invasão das dunas, no litoral de entre o Tejo e Mondego.