O ultimo d'esta serie de phenomenos que demonstram a formação crescente de um organismo nacional, é o apparecimento de Lisboa, a cidade querida, como um centro de actividade maritima e commercial. Definitivamente separado de Leão, obliteradas as ambições da absorpção da Galliza, geographicamente completo até ao mar do Algarve, rota a dependencia feudal de Roma, nacionalisado o clero e as Ordens militares, fortalecido o poder dos reis, iniciada a organisação da justiça, da administração, do ensino—o corpo da nação portugueza, até ahi acephalo, achava em Lisboa a[{pg. 127}] capital. A cidade do Tejo dava mais do que um centro de vida organica, dava um destino definido—o maritimo—a uma nação que na terra da Hespanha não tinha individualidade, nem por uma indole homogenea e particular dos habitantes, nem por uma conformação especial e autónoma do territorio.
Corintho ou Veneza do occidente, Lisboa grande cidade de muytas e desvairadas gentes era mais do que a capital do reino: era a razão de ser da sua independencia.[{pg. 128}]
[[43]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) liv. III, 4.
[[44]] V. Instit. primit., pp. 233 e segg.
[[45]] V. Instit. primitivas, pp. 137-47.
[[46]] V. para os usos judiciaes, etc., na Edade-média portuguesa, o Quadro das Instit. primit., pp. 17-18, 154, 163-4, 170-1, 175-8 e 181-205; e Regime das Riquezas, pp. 172-4.
[[47]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 158 e segg.
[[48]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 127-32 e 143-9.
[[49]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 135-43
[[50]] V. Instit. primit., pp. 98 e 157.
[[51]] V. Instit. primit., p. 263.
[IV
A crise]
Quando Portugal se encaminhava, por fim, no sentido de uma rapida e definitiva constituição, quiz o acaso que o throno coubesse por herança a um principe de fracas, mas sympathicas qualidades.
Do justo e duro Pedro nasce o brando
(Vede da natureza o desconcerto!)
Remisso e sem cuidado algum Fernando.
O filho de Pedro I era uma infeliz creatura, mal equilibrada nas suas qualidades e defeitos. Não era, decerto, aquelle homem de que a nação carecia para consolidar de um modo seguro a sua independencia; e n'um sentido póde dizer-se que as condições em que se achou foram a causa dos males de que muito soffreu. Faltava-lhe a firmeza necessaria para realisar os planos concebidos por uma intelligencia perspicaz. Era inventivo, mas era chimerico. Media o alcance dos actos e pensamentos, mas não sabia pesar o valor dos meios. O corpo de leis que promulgou para fomentar a navegação e o commercio, honrarão eternamente a sua intelligencia e a fina percepção com que via no desenvolvimento maritimo o futuro da patria. A obra consideravel das fortificações da capital (1377) concorre tambem a mostrar que reconhecia[{pg. 129}] a verdade—cruamente por elle aprendida—de que Portugal era já, e seria sempre Lisboa. Accusam-no modernos sabios de ter defraudado a moeda: mas que outro remedio havia então contra a penuria do thesouro? que outros exemplos davam os demais principes? que outro exemplo damos nós ainda hoje, quando, para não cercear o peso ou diminuir o toque do ouro, cunhamos papel?—Accusam-no porque hordenou almotaçaria em todallas cousas (1375): e que outro remedio havia, na curta sciencia do tempo, contra os monopolios e agiotagens, mais funestos na paz do que as batalhas dos tempos de guerra? Tarifar os generos e os salarios foi medida applaudida quasi até nossos dias; obrigar os detentores á venda dos cereaes, determinar a partilha dos grãos, foram actos de salvação publica repetidos ainda depois de D. Fernando, e sempre que uma crise obriga a suspender as garantias, ou justiça civil. Mas o rei que cerceava as moedas e ordenava a almotaçaria em todas as cousas, era o que fundava a marinha mercante nacional: era o que, olhando para o mar, não se esquecia da terra, obrigando os proprietarios dos maninhos alemtejanos a cultival-os, ou a aforal-os. A administração de D. Fernando é um cesarismo. O desenvolvimento politico e economico da nação chegava a um momento de crise organica traduzida por uma crise militar e dynastica. A população e a riqueza tinham crescido de um modo notavel desde que, havia mais de um seculo, terminára a reconquista do territorio aos musulmanos. O censo que annos depois se fez (1417) dá ao reino 4:800 besteiros de conto, ao Porto 8:500 habitantes, e a Lisboa 63:750. Pullulavam enxames de aldeias e casaes pelos campos agricultados, e muitas villas que depois definharam eram ainda importantes:[{pg. 130}] Sines, Cezimbra e Mertola. Algumas cidades eram muito maiores do que são hoje: Evora e Beja, Santarem, Thomar, Leiria. D. Fernando herdou o reino robusto e forte.
Mas o pobre rei, tão bom e tão sagaz, tinha porém um fraco, que estragava tudo: era doido por mulheres. Singular na edade-média, a pessoa de D. Fernando parece estar no fim de uma epocha historica, como um indicio e um typo mal esboçado de futuros personagens. Superior na intelligencia, acaso por isso mesmo era desmandado no modo de proceder. Talvez lhe conviesse o nome de sceptico, especie moral que o desenvolvimento da inteligencia, sem o desenvolvimento parallelo da vontade, ou do caracter, faz tão commum em nossos dias. Para Cesar, D. Fernando era, porém, bondoso de mais: tinha um fundo de sinceridade que o perdia, porque á indifferença não reunia o cynismo. Era, no fundo, um pobre homem de talento. Este genero de individuos é sempre sympathico; e por isso o povo, embora chegasse a mofar, nunca o odiou. As suas fraquezas, prazeres e amores sempre foram criticados com benevolencia. O povo sabia que no fundo o caracter do rei não era perverso. Não o podia respeitar nem temer, mas sorria-se amigavelmente das suas extravagancias. Era o filho prodigo da nação.
Ás suas qualidades e vicios sympathicos reunia o ser formoso, agil, cavalleiro como os bons, caridoso, affavel, «gran criador de fidalgos e muito companheiro com elles, cavalgante, torneador, grande justador e lançador atavolado»—o jogo era uma das basofias do fidalgo medieval—dadivoso para com todos, e grande agasalhador de estrangeiros. A toda a gente queria bem, mas de um modo familiar e singelo, que não infundia respeito.[{pg. 131}] Os reis de fóra, sabendo-o tão singularmente bom e simples, riam-se d'elle.