Era um infeliz, no sentido que a expressão tem popularmente em castelhano. Dava tudo pela caça: uma paixão desenfreada. Só falcoeiros de besta contava quarenta e cinco, e não estava satisfeito: queria povoar com elles uma rua inteira em Santarem. Quando mandava por aves, nunca lhe trouxessem para menos de cincoenta, entre açores e falcões, gerifaltes e negris, todas primas. Tinha um regimento de mouros para apresarem as garças e outras aves, que iam buscar a caça nas lagôas. Não perdoava sequer os innocentes pombos. Eram ás legiões as matilhas de cães para coelhos, rapozas e lebres. Correr lebres ou atirar aos pombos era o seu grande sabor e desenfadamento. O do seu avô Henriques fôra correr mouros e atirar ás ameias dos castellos: os tempos, os temperamentos, eram já inteiramente diversos.
Ainda assim, não era a caça que perdia o rei. Namorado sempre e mulherengo, «amador de mulheres o achegador a ellas,» diz F. Lopes, tinha um feitio terno, amavioso. A carnalidade arrastava-o aos maiores excessos, e é provavel que tivesse vicios ingenuos. Sua irman solteira, a infanta D. Beatriz, fôra cinco vezes offerecida, outras tantas recusada, a diversos principes, nas varias combinações politicas que a sua fertil imaginação creava, e que a sua indolencia invencivel punha logo de parte. A côrte d'essa irman era um viveiro de donas, onde o rei permanentemente satisfazia os seus gostos mulherengos. Foi n'essa côrte que viu e se perdeu de amores por Leonor Telles. Parece, comtudo, que antes d'isso não amava; porque é proprio dos temperamentos, como era o do rei, não ter paixões. A sua delicia era o gozar indolente[{pg. 132}] dos carinhos e meiguices das mulheres, não era amar. Não é provavel, pois, «a suspeita deshonesta que alguns tinham da virgindade da infanta ser por elle minguada.» Bastavam ao rei «os jogos e fallas tão a meude misturadas com beijos e abraços e outros desenfados de similhante preço.» Só aos fortes corações é dado amar e enlouquecer. D. Fernando não tinha essa virilidade de caracter. Distincto, perspicaz, engenhoso de espirito, bom, affavel de genio, faltavam-lhe o valor que faz os homens, e a vontade que faz os reis. Era uma indolencia formada de espirito e sensualidade; uma creatura romantica e sympathica; uma mulher, fraca e intelligente, sentada no throno. Leonor Telles conquistou-o, porque tinha o genio de um Homem; e o segredo d'essa alliança tenaz não está n'uma paixão do rei, está na inversão das pessoas e dos sexos. Ella fez-se rei; elle tornou-se a amante, passiva, indolente, sensual.
O tempo de D. Fernando foi uma serie de guerras com o visinho reino de Castella. As muitas desgraças d'essas emprezas loucas tiveram de bom o affirmar de um modo terminante a independencia formal e positiva da nação, como sáe da batalha de Aljubarrota. Á maneira de certas enfermidades agudas, quando atacam o homem de temperamento indeciso e constituição debil, na edade em que attinge a virilidade, e determinam uma revolução organica, fixando e consolidando a saude—assim as guerras castelhanas de D. Fernando. são, para Portugal, uma crise. O seu destino vacillante, os seus orgãos esboçados apenas, soffrem a prova de uma commoção violenta. Acordam outra[{pg. 133}] vez as tentações antigas, já anachronicas, da conquista da Galliza; o reino é mais de uma vez invadido; a miseria, a ruina, as devastações e a penuria affligem, como uma febre ardente, o corpo da nação. Falta decerto um rei que a dirija, um homem forte que a represente e guie; mas isso mesmo concorre para caracterisar a crise, demonstrando que a vitalidade collectiva existia já, e não provinha apenas da imposição forte de um braço guerreiro. Em dois seculos Portugal tornara-se de um amalgama de populações ruraes, cuja unidade estava apenas no genio dos seus barões, em um organismo, cuja consciencia de uma vida collectiva era real e definida. Tal é, a nosso vêr, o merecimento d'essa revolução nacional, cujo supposto chefe, o Mestre de Aviz, é mais o instrumento do que o heroe.
Não precipitemos, porém, a narrativa.
D. Fernando julgára convir-lhe apoiar a usurpação do throno de Castella por Henrique de Trastamara, quando o poder do rei D. Pedro ainda chegava para bater o rival em Najera. Depois que o usurpador, voltando de França com o auxilio de Duguesclin, consegue desthronar o rei perdido, D. Fernando julga conveniente alliar-se ao do Aragão e ao mouro de Granada, contra o Trastamara victorioso. Formára o chimerico plano de bater o vencedor com o partido vencido que o invocava; esperando sentar-se no bello throno de Castella, de que promettia um retalho ao aragonez, outro ao granadino. A empreza não destoava dos antecedentes historicos; porque o regime politico da Hespanha, retalhada em varias monarchias, era um systema de conquistas successivas de reinos. Era, porém, chimerica por dous motivos, um ignorado então, outro evidente: a incapacidade do rei, e o[{pg. 134}] destino que marcava á Hespanha a solução unitária. Se Portugal pôde escapar aos preceitos d'esse fado, deveu-o ao movimento que, por lhe dar Lisboa, fazia d'elle uma nação cosmopolita, commercial e maritima, e não propriamente hespanhola: outra Hollanda, no corpo de outra Allemanha[[52]].
A politica de D. Fernando era, pois, historicamente insensata, falta que seria absurdo irrogar ao rei; mas era tambem pessoalmente absurda, porque os seus planos eram chimeras, tão breve nascidas como abandonadas. Haveria no espirito do rei o pensamento, mais ou menos definido, de se substituir ao castelhano na obra da unificação politica dos Estados peninsulares? Nada authorisa a suppol-o; e até porque tal pensamento não estava ainda cabalmente definido para os monarchas de Castella.
O facto é que D. Fernando declarou a guerra e abriu a campanha, invadindo a Galliza (1369); «mas sua ida foi de tal guisa que mais sua honra fora não ir alla dessa vegada.» Muitos barões gallegos correram a recebel-o, a acclamal-o. Tradições de outras eras? Ambições, ainda vivas, de uma independencia, que mais de uma vez tinham considerado solidaria com a soberania de Portugal? É provavel; mas é tambem certo que a rapina era o motivo immediato da adhesão, porque «muytos vinham-se a ele e pediam-lhe os bees dos que se iam para D. Henrique, o que era dado ledamente.» O inimigo, de Castella, fazia outro tanto. O conde Andeiro foi o mais caloroso dos partidarios gallegos de D. Fernando. Saíu ao encontro do rei, alvoroçado, a gritar: «Hu vem aqui meu senhor Elrey D. Fernando?» E o rei, esporeando[{pg. 135}] o cavallo, radioso e feliz por uma tão facil conquista, vendo-se já sentado no throno de Castella, avançou, respondendo: «Eu som! eu som!» A invasão tornava-se um passeio até á Corunha; mas pouco adivinhavam ambos, o conde e o rei, quanto haviam de pagar caro os prazeres desses dias breves.
O castelhano corre sobre a Galliza, e D. Fernando foge a esconder-se em Coimbra. A resaca assoladora vem até Braga e Guimarães, atravez de todo o Minho. A provincia inteira gritava por soccorro: Aqui d'el-rei, contra o castelhano!—O rei, indeciso, indolente, esperava a realisação da sua chimera:—não é mister batalhar; Castella inteira vem entregar-se, como se entregára, de braços abertos, a Galliza!—Passeava-se, entretanto, com o exercito, entre Santarem e Lisboa. Ia, vinha, avançava e retrocedia, tão tonto que já o povo da capital ria d'esses passeios: exvollo vae, exvollo vem![[53]]
Afinal em Coimbra—cidade funesta aos dois Fernandos[[54]]—decidiu-se a acudir ao Minho, quando o rei de Castella, depois de assolar tudo, tinha já partido para além da fronteira. Pela raia, porém, o batalhar continuava, e tambem na costa[{pg. 136}] andaluza o bloqueio maritimo: já Portugal tinha armadas. Mas a guerra dilatava-se; e Castella, decididamente, não o chamava para seu rei. Começou a assentar-se del a covardice, abandonou os alliados; e aborrecido e desilludido por esta vez, assignou as pazes de Alcoutim.