A sua chimera só, porém, o deixou quieto por tres annos.

D. Pedro tinha morrido em Montiel, assassinado ás mãos de Trastamara (1369); a filha mais velha do defunto era casada com o duque João de Lencastre, da casa de Inglaterra: d'ahi vinham as pretenções d'este á corôa castelhana e o bravo duello que a Inglaterra e a França debateram na Hespanha por muitos annos. A influencia franceza era dominante em Castella; e para logo, nas successivas e ulteriores convulsões, a alliança ingleza venceu em Portugal. D. Fernando, ou movido pelo desejo de desforra, ou pensando ainda nas suas velhas ambições, e esperando ludibriar o alliado, assigna em Braga (1372) o tratado de alliança com o inglez, contra o castelhano. Henrique de Trastamara, em cuja côrte andavam diversos fidalgos portuguezes, como os gallegos da invasão anterior andavam com D. Fernando, manda Pacheco (o terceiro assassino de D. Ignez de Castro) vêr se effectivamente o rei se dispunha á guerra. Era tão voluvel o seu caracter, que o castellão não acreditava ainda. Voltou Pacheco: sem duvida o rei estava disposto a entrar em campanha. Então D. Henrique, com bondade, lhe pede que abandone essa chimera, e insta pela paz. Elle, excitado pelas hespanholadas de Affonso Tello, suppõe que a fraqueza era o motivo da insistencia. Inuteis as observações, o rei de Castella prefere invadir a ser invadido; e rapidamente entra pela Beira (1372),[{pg. 137}] cáe sobre Lisboa, cujo cêrco uma esquadra, ao mesmo tempo partida de Sevilha, encerra por mar (1373).

Que fazia D. Fernando? Do alto dos muros de Santarem, onde se fechára, via passar o exercito inimigo, sem ousar mover-se. Dois motivos lh'o impediam. Esperava a toda a hora o soccorro do inglez; e se o fructo d'essa guerra lhe era destinado a elle, bom seria que em pessoa o disputasse. Deixar, porém, invadir assim o reino, pôr cêrco á capital, abandonar o povo, abandonar Lisboa, era vergonhoso, decerto. Mas se n'esses dias Leonor Telles, enferma, estava de cama, com as dôres do parto? Como havia de o pobre rei acudir aos dois deveres? A quem obedecer primeiro: ao tyranno politico, a corôa, ou ao domestico, a rainha? Como todos os fracos, decidiu-se pelo mais proximo; tapou os ouvidos aos clamores da nação, para attender só aos ais da enferma. Não era por paixão que o fazia, era por indolencia: sempre esperava que Lisboa afinal havia de resistir, e saberia defender-se!

Com effeito, não se enganava. A cidade valia muito mais do que o rei. Quando viu approximar-se o castelhano, chegou a ser temeraria; porque pretendeu defender com barricadas os arrabaldes, fóra dos muros. Lisboa tinha a homogeneidade na resistencia; e em vão D. Diniz (o infante que por condemnar o casamento de Leonor Telles fugira para Castella), em vão Pacheco e os mais portuguezes de D. Henrique buscavam convencer os lisbonenses da vantagem da rendição. Não estamos agora no norte, meio gallego, onde a idéa de nacionalidade vogava indecisa nos dois lados do Minho: estamos no coração do paiz, e n'uma terra sem tradições leonezas, que não foi separada, que[{pg. 138}] nunca obedeceu a outro rei mais do que ao portuguez, a quem deve o que é. Inuteis as tentativas de D. Diniz, de Pacheco, e dos mais, o exercito approximou-se. Viu-se então a temeridade de defender os arrabaldes; e á pressa, recolheram-se todos para dentro dos muros. O enxame acudia ás portas, correndo curvado com o peso das trouxas, das arcas, onde salvára o que tinha mais precioso. Vinham as familias em grupos, as mães, carpindo, arrastando os cordões de creanças, espantadas de tudo aquillo. Já os castelhanos entravam pelos casaes e quintas dos arredores: o lume ardia ainda na lareira, a porta estava aberta, os quartos vasios. Arrazaram e queimaram tudo, desde as hervas até aos telhados.

No rei assentára outra vez a covardice: e, como o inglez não acudia, acceitou a paz, e foi de Santarem a Vallada assignal-a (1373). «Quanto eu haarricado venho!» dizia a rir, na volta. Effectivamente não queria mal algum a D. Henrique; e, se a empreza falhára, o melhor era fazer cara alegre, e acabar por uma vez com o muito que, do cêrco, padecia Lisboa. Além d'isso, agradára-lhe o trato do inimigo: agradára-lhe tanto, que lhe concedeu a irman, D. Beatriz, para casar com o irmão do castelhano, Sancho. Triste destino o d'esta princeza, que era, nas mãos do rei, como os joguetes que as creanças dão, tiram, voltam a dar, ao sabor do seu capricho infantil!

Este mesmo modo de que usava com a irman, estava reservado á filha: a outra Beatriz nascida em Santarem durante a invasão precedente. Henrique de Trastamara tinha morrido; e o herdeiro, João I, na idéa de reunir as duas corôas de Castella e Portugal, pedira a D. Fernando (que não tinha outro filho) a mão da pequena D. Beatriz;[{pg. 139}] ao que este annuira, celebrando-se tratados, porque para casamento era cedo ainda: a pequena teria oito annos, se tanto.

Mas o rei, diz o chronista, trazia sempre sua fala com os inglezes, o mais encobertamente que podia. Que falas eram essas? Era a alliança de Lencaster, na qual D. Fernando via talvez ainda luzir a possibilidade de realisar a sua chimera. O conde Andeiro, que na primeira guerra abrira a Galliza ao portuguez, fôra desterrado para Inglaterra, na occasião de Alcoutim, por exigencia do castelhano. Era Andeiro o confidente do rei, e o seu agente para com Lencaster. Veiu de Inglaterra, escondido, a Extremoz, onde o rei, ao tempo, assistia: trazia novos tratos e combinações, com a promessa de uma esquadra. O rei acceitou com facilidade, e afiançou ao duque inglez a mão da filha promettida ao de Castella.

D'esta vez decidiu-se a proceder com energia. O castelhano, porém, já conhecedor de tudo, mandára começar as escaramuças pelas fronteiras de entre Tejo e Guadiana, theatro das façanhas de Nunalvares (o futuro condestavel, que agora começa a sua epopêa) em quanto dispunha o grosso das forças para a campanha de Lisboa. A energia do portuguez consistiu em enviar a esquadra a Sevilha destruir a inimiga. Com effeito, em quanto mandasse no Tejo, Lisboa não podia ser efficazmente cercada. Mas a sandia presumpção de Affonso Tello perdeu a esquadra em Saltes (1381). A armada castelhana, victoriosa, entrou no Tejo, trazendo a bordo o infante D. João, irmão do rei, filho de D. Pedro o crú, que se homisiára de cá por ter assassinado a mulher, Maria Telles, irman de Leonor. Tambem lhe tinham acenado com a mão da pequena D. Beatriz, e a ambição perdera-o! D. João[{pg. 140}] repete as palavras de D. Diniz na campanha precedente; mas é recebido a tiro, o infeliz. As surriadas de trons e virotões exprimiram a eloquencia independente de Lisboa; e o infante, humilhado, levou para Castella o desmentido formal a todas as sedições que annunciára e promettera.

Chegou, afinal, por mar o Lencaster com os seus, trazendo novo alimento á guerra, já accesa por todo o Alemtejo. Castella declarára-se pelo papa de Avinhão, Clemente VII: os inglezes e o rei D. Fernando pronunciam-se pelo papa de Roma. Urbano VI. A religião vinha azedar ainda mais os odios dos combatentes. E os inglezes do duque, mercenarios o barbaros do Norte duro, lançaram-se a este pedaço do Meio-dia, como lebreus famintos a um regabofe. Estas gentes dos inglezes, refere o chronista, não vinham como a defender a terra, mas para a destruir e buscar todo o mal, matando, roubando e forçando mulheres. Nem se limitavam a tão pouco. De uma guerra que lhes era indifferente, nas causas e motivos, entre povos inimigos que não distinguiam, inimigos eram para elles todos, e cevar-se o seu constante proposito. Guerreavam por conta propria, para saquearem. Tomam aos portuguezes Monsarás, o Redondo e Evora; e as populações, por fim desesperadas, acodem-se ao processo classicamente peninsular das surprezas e assassinatos. «As gentes começaram a matar muitos d'elles escusamente», a ponto de que mais de um terço ficou enterrado pelos campos e aldeias do Alemtejo. Na extraordinaria confusão em que a indolencia e as chimeras do rei punham o paiz, já cada um combatia por si proprio, com o proposito unico da defeza nacional.

Se os inglezes deixaram em volta do Tejo alguma cousa a roubar, ou algum campo a queimar, os[{pg. 141}] castelhanos da esquadra, desembarcando, quando o exercito anglo-luso tinha subido para Evora a encontrar o inimigo, acabaram a obra destruidora n'uma razzia monumental, a que não escapou eira nem beira, nem arvore, nem cousa viva. Em volta das muralhas de Lisboa ficou tudo um deserto morno e secco.