Pela terceira vez assentou no rei a covardice; e sem combater, voltando as costas ao inglez logrado, assignou as pazes de Badajoz com o castelhano (1381). De novo a pequena infanta D. Beatriz torna a ser promettida a outro noivo: Fernando, de Castella, que não vem ainda, comtudo, a ser seu marido; porque, ao voltar para casa, o rei João, enviuvando, teima no antigo plano da fusão dos reinos. O casamento da filha com o valetudinario monarcha visinho, é o ultimo e o mais insensato dos actos de D. Fernando. Extinguia-se com elle a dynastia; e por herança legava, do leito da morte, a independencia em perigo ao povo que, apesar de tão dorido, ainda e sempre lhe queria.
Fôra no viveiro feminino da côrte da irman que o rei Fernando vira Leonor Telles. Era a terceira Leonor que escolhia para companheira, e foi, desastradamente, a unica que veiu a ter. A primeira, de Aragão, recusou-lh'a o perspicaz pae, por vêr quanto era defeituoso e fraco o caracter do promettido genro. A segunda, de Castella, repudiou-a, desde que viu e se namorou da terceira.
Maria Telles, irman de Leonor, era aia da infanta D. Beatriz. Leonor, casada, vivia no seu solar da Beira. Estava em Lisboa, de passagem, a visitar[{pg. 142}] a irman, quando o rei a viu. Como começaram esses amores? Os antecedentes do rei e o caracter da futura rainha deixam vêr bem que não deveu ter havido uma d'estas paixões fulminantes, communs nos homens d'armas, mas de que D. Fernando era incapaz, e Leonor Telles tambem.
A fria ambição calculadora era commum ás duas irmãs. A aia da infanta, por quem o infeliz e louco D. João se namorára com paixão, preparára-lhe cuidadosamente uma entrevista, á noute, no seu quarto. Quando o infante chega, soffrego de amor, vê um altar e um padre diante do leito. Casemo-nos primeiro, amaremos depois. O infante, coacto pela paixão, casou-se para amar; mas a aia pagou mais tarde, com a vida, o erro de brincar com um leão, como so fôra um rafeiro.
Leonor Telles tinha em si o saber sufficiente para ensinar: não carecia das lições da irman. Percebeu que o rei, nas suas ligeirices, a preferia á propria infanta; mas o papel de amante não lhe convinha: queria o de rainha. Foi-se deixando ficar, e acirrava com tentações a inclinação do monarcha sensual e passivo. «Era louçan, aposta, e de bom corpo». D. Fernando costumou-se ás denguices da sereia: nos fracos, o costume gera necessidades imperiosas, a que tudo sacrificam. Com o tempo, a idéa de que Leonor era casada, naturalmente a insistencia com que ella, séria e affectando decóro, falaria na necessidade de voltar para casa, para o marido, fizeram sentir ao rei a impossibilidade de quebrar o habito dos seus amores innocentes e molles. A indolencia é muito mais teimosa nas suas exigencias do que a força; um habito sensual tem maior tenacidade do que uma paixão. Leonor Telles devia saber isto perfeitamente. O momento decisivo approximava-se: não podia continuar[{pg. 143}] por mais tempo em Lisboa, o marido chamava-a, as más linguas podiam falar...
O rei lembrou-se então de que para alguma cousa lhe podia servir sel-o: desmancharia esse casamento, porque uma dama tão senhoril e casta não podia ser sua amante. D. Fernando não tinha, o ingenuo, nem ponta de cynismo. Falou seriamente, em particular, á irman. Mulheril como era, este caso tinha maior gravidade do que uma guerra com Castella, pelo repudio da princeza que lhe estava promettida nos tratados de Alcoutim. «Melhor fizera elrey, dizia o povo, tel-a por tempo e depois casar com outra mulher.» Bons conselhos! para quem vivia todo na atmosphera feminina e molle da côrte de D. Beatriz, onde Maria Telles reinava. Como se Maria, Leonor, não fossem excellentes senhoras, recatadas, mas seductoras na sua terna dignidade!
Maria poz por condição o casamento; Leonor Telles concordou em que muito queria ao rei, mas ainda mais ao seu nome. Combinaram tudo em segredo, e foram, ás escondidas, ao norte, casar-se (1371) a Leça do Bailio, junto ao Porto. Tinham, com effeito, medo de Lisboa. Quando regressaram á côrte e os rumores se confirmaram, as opiniões moveram-se na capital. O commum das gentes accusava o rei com odios apaixonados; mas não faltavam os experientes a observar placidamente, «que não era maravilha; já a outros acontecera cousa semelhante; todo o homem namorado tinha uma especie de sandice; o amor era como dôr que doe e não doe ao mesmo tempo». Muita gente se ria do marido infeliz que sensatamente fugira para Castella, e para prevenir os motejos mandára pôr no barrete dois cornos de ouro em fórma de plumas; muitos notavam a facilidade com que o papa fazia[{pg. 144}] e desfazia casamentos; e esta cumplicidade da religião e do amor não augmentava em nada o respeito pela Egreja. Em summa, desde que o riso entrava na questão, o odio do povo não era muito; e Lisboa esperava para ver o resultado d'essa comedia, e tomar o pulso ao caracter da rainha. Ninguem sabia ainda de quantas manhas elle era formado.
Mas nem em todos a longanimidade era tão grande; e uma parte da plebe decidiu-se a pedir contas, a reclamar garantias, e até a protestar. Esses adivinhavam a perversidade da rainha. No rei assentou a covardice, e Leonor Telles não podia ainda contar com partido proprio. Fugiram, pois, ás escondidas, para Santarem: e o povo, burlado, ficou em vão esperando o rei no atrio de S. Domingos, para onde o comicio fôra aprazado. Pelo caminho, na fuga, o rei carinhoso observava: «Olha aquelles villões traidores, como se juntavam: prendiam-me certamente, se lá vou.» E não podia esconder o susto, conchegando-se ao collo da rainha, no seio d'uma inclinação protectora. Leonor Telles sorria, calada. Era rainha, mas apupada: o plano da vingança acordava-lhe no animo, e tambem o desdem por esse pobre rei, perdido e fraco.
Este primeiro acto da nova rainha foi decerto o seu primeiro erro. Desde logo, até os mais indulgentes viram que não havia remedio; e o partido dos seus inimigos cresceu em numero e ganhou forças e atrevimento. Ella prejudicára os seus planos por um acto precipitado; e todos os esforços que empenhava em ganhar sympathias eram vãos. «Era mui grada e liberal a quaesquer que lhe pediam, mas quanto fazia tudo damnava; e a sua caridade e as suas manhas não podiam encobrir os seus deshonestos feitos.»[{pg. 145}]