Com effeito, a rainha nem melhorava a fraqueza do rei, nem o afastava das suas loucuras e emprezas perdidas; e por sobre isto era reconhecidamente má. Accusavam-na de ter preparado o assassinato da irman pelo infante seu marido; e era publico que, no meio da agitação da terceira guerra castelhana, tentára matar o Mestre de Aviz, forjando para tanto um falso alvará. O povo já a descrevia como uma féra sangrenta; e o povo sabia quantos odios comprimidos ella guardava contra essa Lisboa miseravel que a insultava e a apupava. Toda a gente se sentia offendida, humilhada, com a humilhação do pobre rei. Contava-se como era com elle ousada e faladora; e como el-rei, submisso e indolente, curvava a cabeça e se calava. Era uma desgraça que entrára no palacio. Depois, além de cruel, sanguinaria, e descomposta no modo, era de uma deshonestidade publica. Todos sabiam que nas barbas do marido tinha o amante no paço. E o pobre rei não desconfiava, na sua cegueira. Quando o Andeiro viera de Inglaterra, escondido, com os tratos de Lencaster, el-rei recolheu-o na torre do seu paço de Extremoz. A sala da sesta era o quarto do conde; e o rei ia-se, e a rainha vinha passar horas esquecidas a sós com o amante. O rei, como homem de são coração, não via o que escandalisava a todos. Pouco se lhe dava d'isso a ella, chegando a fazer gala dos seus desvarios. O adulterio e a crueldade, o prazer e o sangue, alliavam-se bem n'esse genio perverso, mas intelligente e altivo, tão desdenhoso como impudico. Queria firmar sobre o odio uma força que não pudera conquistar pelo amor. Repellida, accusada, escarnecida por um povo, para quem talvez quiz ser boa, decidiu impôr-se-lhe pelo desabrido do odio e pelo desplante do comportamento.[{pg. 146}] Vingava-se á maneira antiga, como uma Cleópatra.
No outomno de 1383 falleceu D. Fernando; e logo que a tampa caiu sobre o caixão do defunto, rebentou a revolução.
A revolução de 1383-5 tem um caracter de um Juizo-de-Deus. A dynastia mentira ao papel justiceiro: morra por ello! Por uma serie de extravagancias domesticas e politicas, D. Fernando levára a uma crise a obra lenta e demorada da independencia nacional, iniciada com uma espada por Affonso Henriques, assegurada com um açoite por Pedro o crú. É verdade que não deixára de fomentar a consistencia material interna do corpo da nação; mas de que valia isso, pois que a deixava outra vez a braços com o problema vital da successão, o problema da independencia?
Logo que o rei morreu, os differentes actores da tragedia começaram a tomar os seus logares na scena.
O castelhano immediatamente encarcera em Toledo o infante D. João, o mais perigoso dos seus émulos por direito de herança, mas perdido perante o povo pela nodoa do ataque de Lisboa, na esquadra inimiga.
A rainha viuva, julgando o momento opportuno para conquistar sympathias, representa uma scena de prantos. Abandonára por um instante a sua politica de vingança, agora que tudo podia perder, se a não escudassem o respeito, ou o amor dos seus. Ella não queria entregar o reino a Castella: queria que a filha fosse acclamada rainha, e ella, como regente, rei de facto. Talvez pensasse em casar-se com o Andeiro, a quem parece amava do coração:[{pg. 147}] seria esse o castigo fatal dos seus crimes, por ser a causa da sua perdição?
Como a rainha sabia a ruim opinião que havia a seu respeito, «fingia-se mui desconsolada e chorava em grandes prantos. Em uma camara escura, coberta de dó, com lagrimas e soluços—que ás mulheres não faltam quando lhes servem—se lamentava, com as visitas, do seu desamparo, queixando-se do governo que o rei déra ao reino, agora pobre e infeliz.» (Fernão Lopes) Na sua dôr, na boa vontade que tem de servir a nação (para que ella a não expulse do throno) está por tudo. Com effeito, a morte do marido punha-a á mercê da vontade do povo. «Era em tudo obedecida, assim dos povos como dos grandes; mas bem via que essa obediencia nada tinha de pessoal, porque ninguem a amava, nem a respeitava. De um momento para outro podia perder tudo. Os de Lisboa queriam que se constituisse um conselho de governo composto de dois homens-bons de cada comarca: annuiu a essa tutela. Quando fôra a acclamação da rainha D. Beatriz, mulher do castelhano, observára os tumultos geraes e os votos desencontrados das cidades. Em Lisboa, a acclamação provocára rixas e conflictos; muita gente era pelo infante D. João ou pelo infante D. Diniz, que andavam por Castella; outros gritavam: Arreal, arreal, cujo for o reino, leval-o-há! Em Santarem o infante D. João foi positivamente acclamado. Elvas, para não se decidir, no meio de tanta confusão, gritou: Arreal, arreal, por Portugal!
Esse era effectivamente o grito da nação: por Portugal! Ninguem se recommendava bastante, no animo do povo, para merecer uma corôa disponivel, para se sentar n'um throno vago. O que Portugal não queria, era que n'esse throno viesse sentar-se[{pg. 148}] o castelhano. A rainha não o queria tampouco; e era toda esforços para ganhar a si o povo, para herdar de facto o reino. Organisada a regencia, pensou desde logo na guerra; porque o rei de Castella já se preparava para vir occupar Portugal. Nomeou os fronteiros do reino, e deu ao Mestre de Aviz a zona de entre Tejo e Guadiana.
Havia porém dois homens que, no fundo, protestavam: Nunalvares e Alvaro Paes. O primeiro é a mais nobre, a mais bella figura que a Edade-média portugueza nos deixou. O typo cristallisado nos romances, o typo do cavalheirismo e da pureza, tinha encarnado na pessoa do futuro condestavel. «Usava muito de ouvir e lêr livros de historias, e especialmente usava mais lêr a historia de Galaaz, em que se continha a somma da tavola redonda.» Tinha a nobreza ideal do cavalleiro, e a castidade de um mystico. Era uma açucena na alma, e um leão na bravura e na generosidade. Resistira por muito tempo ao pae que o queria casar, porque não curava de mulheres, nem isso lhe alegrava o coração. Por tudo isto, a infamia da rainha abraçada ao amante, e as lagrimas fingidas pelo marido, córavam-lhe as faces de pejo e enchiam-no de indignação. Nunca a obra indispensavel de salvar Portugal podia levar-se a cabo com tal mulher: Deus não consente aos impuros os grandes actos, «Um dia, passeando só no paço, a cuidar no que havia de ser do reino», occorreu-lhe a idéa de que só a morte do Andeiro podia pôr termo ás desgraças publicas.