O cavalleiro tinha então 24 annos; e esse rapaz, typo ingenuo e puro de virtude, é a imagem de uma nação, tambem joven, e ainda crente n'um futuro proximo. Á indignação da candidez forte junta-se a sabedoria fria e o calculo experiente de Alvaro[{pg. 149}] Paes, padrasto do futuro grão-doctor. Tudo se conspirava para matar o Andeiro, para perder a rainha.—Era verdadeiramente o juizo de Deus, cuja sentença, logo que fosse publica, seria acclamada pela nação inteira. Isto assegurava ao mestre de Aviz Alvaro Paes em Lisboa. Falava por sua bocca a cidade que Leonor Telles tanto odiava, e que tamanhos medos tinha da rainha. Pensaria já o author do plano do dia 6 de dezembro (1383) na fundação de uma nova dynastia? Queria acaso matar apenas o valido para aterrorisar a rainha; e entregal-a, assim, manietada, ao poder de uma oligarchia urbana, em que Lisboa se arrogasse o papel de defensora do reino, tendo á frente de um conselho de governo, com a regente vilipendiada e coacta, o Mestre, homem simples, por instrumento e chefe? Era um plano atrevido, mas mais de uma vez posto em pratica por diversas cidades opulentas da Hespanha. Não contava, porém, Alvaro Paes, nem com a arte que os annos desenvolveram no Mestre; nem com o generoso e nobre caracter de Nunalvares; nem com a força invencivel dos futuros textos e doutrinas do grão-doctor João das Regras.

Combinado o programma do dia 6, Alvaro Paes abraçou e beijou o Mestre. N'esse dia foi este ao paço despedir-se da rainha: partia para a sua fronteira do Alemtejo. Momentos depois voltou acompanhado por alguns fidalgos dos seus. A rainha, surprehendida, interrogou-o.—A fronteira era muito grossa, levava pouca gente, os arrolamentos estavam errados, queria examinal-os...

Leonor Telles estava então na sua camara, sentada no meio das suas damas, costurando, sobre o estrado. De joelhos, aos pés da rainha, o Andeiro, de corpo bem disposto, lustroso, viril (40 annos),[{pg. 150}] vestindo, apesar do luto, um gibão de setim cramesi e um tabardo de panno preto, sem o burel branco do estylo, falava manso com ella. Era um quadro de familia, e tudo parecia sereno, menos o tom e o aspecto do Mestre e dos seus, de pé, carrancudos e indecisos, como quem tem na mente um crime.

A rainha, inquieta, mas simulando indifferença e sangue frio, chamou o escrivão da puridade e mandou abrir o livro dos vassallos da comarca: Escolhesse o Mestre os que quizesse. O escrivão de pé, com o livro aberto, ia lendo, indifferentemente item, Dom... etc, mas o Mestre não lhe prestava grande attenção. Uns perante outros, os personagens da tragedia adivinhavam-se, mas não se confessavam. Só, porventura, o escrivão, no seu tabardo negro, com a voz monotona, era sincero. Andeiro levantou-se, saíu a outra sala, a avisar os seus sequazes: o que o Mestre vendo, receiou perder-se, ou que o ensejo lhe fugisse. Levou-o comsigo para fóra. A rainha, no meio das suas damas, sobre o estrado, costurava. O momento agudo da crise chegára: era mistér consummar o acto. O Mestre empurra então o conde para o vão de uma janella. Elle ia a fallar... «sendo, porém, mais tempo de o matar, do que de o ouvir», deu-lhe uma cutilada na cabeça, a valer. Desarmado, o infeliz não podia defender-se; e assim que inclinou a cabeça rachada pelo meio, a gente do Mestre acabou-o alli ás estocadas. Foi uma façanha arteiramente combinada, barbara e cobardemente executada. Nunalvares, quando a mesma solução lhe occorrera, pensou decerto n'um plano diverso.

Consummado o assassinato, poz-se em scena a comedia do contra-regras, Alvaro Paes. Foi mandado um pagem a gritar pelas ruas que acudissem[{pg. 151}] ao Mestre, que o matavam no paço. Entretanto, dentro d'elle, era grande o alvoroço. Uns fugiam pelas janellas, outros pelos telhados: todos corriam como doidos, cheios de susto, e se acotovellavam nos corredores e entre as portas. A rainha levantando-se, ao ouvir que lhe tinham matado o amante, rugiu de colera, como a fera a quem roubam os filhos: era a sua cruel fraqueza! Viu tambem a sua vida em perigo, e por ventura n'este momento desejou a morte[[55]]. Animosa, mandou perguntar ao Mestre, que n'um eirado do palacio, á vontade, descançava das commoções violentas, se tambem a queria matar. Elle voltou, respeitosamente, que não. Era um homem simples, costumado a vêr em Leonor Telles a mulher do rei: e por isso, além de ser muito novo (26 annos), não se atrevia a tanto. Era fogoso, brutal, e de instinctos pesados: um instrumento capaz de executar os planos manhosos do Alvaro Paes, prompto para tudo, porque não distinguia bem a linha que separa a nobreza da villania—como, de resto, succedia a quasi todos os homens d'armas da Edade-média. Foram a revolução, os companheiros e depois a mulher, quem fez d'elle na edade madura um sabio rei.

Na rua, Alvaro Paes vinha a cavallo (por excepção rara, que era velho já e pesado) á frente da procissão de energumenos, bradando por desvairadas maneiras. A plebe, investindo com o palacio, quebrava os cancellos de ferro, trazia escadas para o assalto e montes de lenha para queimar tudo. Era uma algazarra incrivel de improperios e nomes deshonestos, dirigidos á rainha. Já de dentro havia medo de que o fogo pegasse, e que o fim da tragedia fosse um incendio justiceiro. Extenuavam-se a[{pg. 152}] gritar que o Mestre estava vivo, Andeiro morto; mas ninguem tinha ouvidos no meio do clamor da turba. Por fim, o Mestre de Aviz appareceu a uma janella e foi victoriado: «Vinde para nós, gritavam-lhe, e dáe ao démo esses paços!» Alli mesmo, ao pé do palacio, ficava a Sé; Era necessario solemnisar a festa com os repiques dos sinos, conforme a plebe o ordenava; mas os padres, recolhidos no alto da torre, não sabiam o que queriam d'elles: e por esse crime foram precipitados á rua o bispo e mais dois: e os cadaveres, arrastados ao Rocio, ahi ficaram para pasto dos caens.

Tambem o Mestre já sentia fome, depois de tamanho dia. Foi com Alvaro Paes comer socegadamente. O homem cumprira o que tinha promettido: e, á mesa, na satisfação da victoria, instruiu o rapaz sobre o que lhe restava fazer: pedir perdão á rainha, depois de jantar. Quem sabe? dir-lhe-hia elle, mastigando, mais tarde... casar com ella... E o mestre, bastardo, pobre, ambicioso e simples, via abrirem-se-lhe horisontes seductores.

Com effeito, depois de jantar, o Mestre de Aviz foi ao paço e, de joelhos, pediu perdão á rainha. Tamanha simplez encheu-a a ella de espanto. Estava calada, não sabia que responder: e como o pobre insistia, ella, afinal com desdem, voltou-lhe: Falemos de outras cousas... O Mestre saía desorientado e corrido, atraz d'elle as suas guardas, quando a rainha, seguindo-os, deu de chofre com o cadaver do conde empoçado em sangue e coberto com um tapete velho. Não pôde mais conter-se; e o seu animo, perdido, rebentou em duras queixa: «Enterrae-o ao menos, já que o mataste tão deshonradamente!» Elles não curaram d'isso, nem se doeram do adverbio da rainha, e foram para suas pousadas. Era tempo perdido.[{pg. 153}]

Ao outro dia a rainha partiu para Alemquer—suffocada em odios contra Lisboa: queria vel-a arrazada e queimada de mau fogo, queria uma tonelada de linguas das suas mulheres. Queria uma vingança, uma desforra que désse brado ao mundo. Que lhe importavam, á sua alma desvairada, a nação e a independencia? No egoismo absoluto de uma paixão, esquecia tudo; e por isso mudou de rumo á sua politica, e convidou o rei de Castella a vir tomar posse de Portugal. Perdia-se irremediavelmente.

Entretanto a maxima parte da nobreza acompanhava-a, e a fidalguia era então o exercito. Uns não queriam pactuar com a revolta da plebe de Lisboa, nem curvar a cerviz ao imperio de Alvaro Paes. Outros eram fieis á legitimidade da regencia. O resto dos que não acompanhavam a rainha e grande parte das classes médias eram pelo infante D. João, preso em Toledo. O plano de Alvaro Paes e o partido do mestre de Aviz caiam tanto, que, desanimado, o ultimo decide-se a abandonar a empreza e a fugir para Inglaterra—como fez depois o seu successor na historia, o Prior do Crato. Poderam, porém, contel-o. Para que? Para o decidirem a uma segunda vergonha. Eram incapazes de nenhuma grande audacia, de nenhum plano temerario; e só um d'esses poderia dar a victoria. Não sentiam o palpitar violento de uma nação forte que aspirava á vida. Os seus meios eram mesquinhos, soezes e crueis. Conquistaram o castello em Lisboa, levando á frente de si as mulheres e os filhos dos que o defendiam pelo infante D. João. Angariavam sequazes, comprando-os a dinheiro, segundo a regra de Alvaro Paes: dae o que não é vosso, promettei o que não tendes, e perdoae a quem vos errou. A rapina e a impunidade[{pg. 154}] eram o alicerce da força do partido, já ridiculamente alcunhado do Mexias de Lisboa. O segundo plano proposto, para evitar a fuga do Mexias, era a antiga idéa commum e soez de Alvaro Paes: casal-o com Leonor Telles. O Mestre accedeu; e propoz o caso á rainha, que respondeu com uma gargalhada. Podia-se acaso descer mais? Não podia.