Quem faz, porém, os Messias é o povo. Valham pouco, valham nada, pouco importa. São um lábaro, onde a turba escreve um moto. Vão, mas não guiam. Portugal com effeito gerava uma revolução messianica; pedia em altos brados que o salvassem; tinha a consciencia de que podia e havia de ser salvo. Esta força latente e invencivel, era, porém, ignota para a simplez do Mestre e para o lerdo instincto de Alvaro Paes. Andavam ambos como cégos em torno de um pharol, sem o verem. Eram ambos como certos animaes das trevas, a quem a desnecessidade priva de olhos.

Para vêr e para sentir a gravidade do momento, para conceber a audacia da revolução, era mistér, ou a ingenua candura dos fortes, ou a refinada sabedoria dos mestres. O de Aviz teve a fortuna de encontrar dois homens que o fizeram rei, e tornaram o seu titulo ridiculo de Mexias, no titulo verdadeiro e forte de Defensor-do-reino, positivo messias da nação (1384).

Termina o reinado de Alvaro Paes, desde que o futuro condestavel e o grão-doctor tomam conta, um da guerra, outro da politica. Temerarias, audazes, quasi loucas ambas, exprimem ambas a suprema sabedoria; porque traduzem o até ahi indefinido querer do povo, e empregam os meios unicos de salvação. Nunalvares faz de toda a fronteira o[{pg. 155}] theatro de incessantes campanhas, pouco ou nada attende ás ordens do Defensor-do-reino, por vezes desobedece formalmente. Á medida que o Mestre via o resultado das armas do nobre capitão, ia reconhecendo a propria inferioridade; e a simplez natural do seu genio tinha de bom o abrir-lhe os olhos á verdade. Nos actos alheios, aprendia a pesar os seus, ganhando com isso a attitude de um moderador prudente. Era sábia a arte com que ponderava os conflictos inevitaveis de Nunalvares com João das Regras: do cavalleiro idealista e heroico, e do habil, consummado politico: do representante ingenuo de douradas phantasias, com o frio calculador das cousas positivas; do ultimo homem da Edade-média, com o primeiro do novo Portugal monarchico. Entre ambos, o Mestre de Aviz era um pendulo regulador das duas forças em opposição.

A politica ia buscar outra vez as allianças inglezas, acordando a antiga ambição castelhana da casa de Lencaster; e a guerra, ora terrivel em batalhas, ora fidalga em reptos e duellos, ia acordar por todo o paiz a revolução. Os grandes, os alcaides das terras, eram por Castella ou pelo infante D. João; mas o povo era pelo Messias: cria e esperava o milagre. Formavam-se uniões espontaneas; e as levas de populares conquistavam para o Mestre os castellos e villas fortificados aos senhores e aos alcaides dos concelhos.

Uma grande parte do reino obedecia ao governo de Lisboa; mas a rainha, o rei de Castella e o exercito invasor, na sua marcha sobre a capital, occupavam Coimbra. Leonor Telles acabou ahi. Arrependida de ter chamado o castelhano que a desprezava; reconhecendo que erradamente, por uma precipitação, forjára por suas proprias mãos[{pg. 156}] as cadeias do seu captiveiro, vendo agora quanto se illudira, e que erro fôra o seu em não avaliar a justa vitalidade do paiz, tentou ainda urdir uma trama para se libertar, perdendo o genro e a filha. Os seus planos falharam; e anojada e cheia de desespero, seguiu a ordem do genro, que de Coimbra a mandou enterrar no mosteiro de Tordesillas. Como acabaria a sua vida? Quem sabe? talvez arrependida, santamente amortalhada no burel monastico? acaso roída de desespero, impenitente?

O exercito castelhano desceu sobre Lisboa, e este segundo cêrco da capital (1384) foi mais cruel ainda do que o primeiro, no tempo de D. Fernando. Veiu a fome perseguir os heroicos lisbonenses, que andavam já doentes das cousas que comiam. Por fóra a peste alastrava, porém, de cadaveres os arrayaes castelhanos; e quando, um dia, a rainha de Castella, pretendente de Portugal, adoeceu tambem, os inimigos levantaram o cêrco. O povo encontrava n'isto motivos para crer n'uma protecção do céu.

Por mais de um anno se prolongaram ainda as guerras pelas provincias afastadas; mas Lisboa, Coimbra e todo o centro do paiz era, já em 1385, pelo Mestre. Os ultimos actos da revolução iam consummar-se: as côrtes de Coimbra e a batalha de Aljubarrota.

Em Coimbra o grão-doctor é o general e o chefe. Essa batalha de discursos era diversa, mas não menos brava de pelejar; porque uma grande parte da nobreza, decidida a defender o reino do castelhano, não o estava a acclamar rei o Mestre de Aviz. Legitimista, considerava-se ligada ao infante D. João; e a união dos fidalgos, completa para a defeza, não existia, agora que se tratava[{pg. 157}] de consolidar, com uma nova dynastia, a independencia e a constituição definitiva do reino.

O rei de Castella era schismatico e excommungado por apoiar Clemente VII contra Urbano VI; e além d'isso os maus costumes de Leonor Telles não deixavam ter certeza sobre a legitimidade de D. Beatriz.—Todos apoiavam João das Regras, porque ninguem queria o castelhano.—D. João, continuava o doutor (e aqui principiavam os murmurios) é bastardo, porque el-rei D. Pedro jámais se casou com D. Ignez de Castro.—Um momento houve em que Nunalvares esteve a ponto de brigar com o roncador Martim Vasques, o chefe dos leaes; e as côrtes por um triz se tornavam n'uma batalha. Interveiu o Mestre de Aviz, apasiguando o exaltado capitão, melhor no campo do que no conselho.

Ahi reinava o grão-doctor. Além de illegitimos, continuava sem se perturbar, os filhos de D. Ignez de Castro tinham tomado armas contra a patria; e este argumento, proprio a impressionar os leaes, pesou, mas não os decidiu. Então o doutor lançou mão das reservas e venceu. Apresentou as bullas, nas quaes o papa recusára acceder aos pedidos do rei D. Pedro para a legitimação dos filhos. Podia haver prova mais solemne? Ousaria ainda alguem conservar duvidas? E apoz isto desenrolava todas as consequencias: a divisão das forças do reino perante o castelhano, inimigo commum; a impossibilidade de acclamar rei um principe preso em Castella, etc. O ataque era irresistivel; e tudo cedeu, declarando-se vago o throno, e elegendo-se para o occupar o Mestre de Aviz, D. João I.