Que melhor prova podia dar-se da vitalidade da nação e da sua independencia já acabada, do que estas côrtes de 1385, em que ella exalta uma[{pg. 158}] dynastia, sem base na tradição nem na herança, unicamente enraizada no querer absoluto, commum dos portuguezes? É só n'este momento que bem de facto se póde dizer terminada a historia da independencia; porque a dynastia de Borgonha trazia comsigo o peccado original da doação primitiva, segundo o direito feodal: o reino era um senhorio, sublevado, como por tantas vezes e por tão longos tempos o tinham sido, na propria Hespanha, a Galliza e a Biscaya.[[56]] Agora as cousas mudavam; e mudavam, porque a nação, alargando-se para o sul, recebendo novas gentes em seu seio, fomentando a actividade commercial e maritima em Lisboa, ao mesmo tempo que se constituia interna ou organicamente, era já um ser diverso do antigo, e um ser dotado de vida independente e propria. A crise, que temos vindo historiando—com um vagar desculpavel pela sua significação excepcional—parece ter, para a vida nacional portugueza, a importancia que a natureza dá ás crises que determinam a passagem de uns para outros dos seus typos organicos.[[57]]

Não bastava porém uma acclamação, era necessario um baptismo, á nova monarchia. Aljubarrota respondeu com as armas á eloquencia das côrtes; e, victorioso no conselho e no campo, o throno de D. João I ficou inabalavel. Segundo o parecer dos inglezes, seus alliados e mestres na nova tactica militar com que vieram a esmagar em Azincourt a cavallaria franceza, o Mestre d'Aviz entrincheira o seu pequeno exercito. Nortberry, Hartcelle e d'Artherry, capitães, traçaram a carriagem. Cortaram-se ramos de arvores com os quaes se levantou[{pg. 159}] uma estacada para paralysar as cargas da cavallaria; ao meio d'essa estacada um carreiro estreito, internamente bordado por archeiros e bésteiros de pé, estava aberto, como uma tentação e um laço ao ardor fidalgo dos inimigos.

A desproporção do numero era grande entre os combatentes. O castelhano trazia comsigo vinte mil homens de cavallo, nos quaes entravam dois mil francezes, gascões e bearnezes: com a peonagem, o seu exercito ia a mais metade. Em volta de D. João I não havia mais de duas mil lanças, oitocentos bésteiros, e quatro mil peões: alguns elevam a dez mil o total. Evidentemente, só a força da arte podia vencer a desproporção do numero. Pelo meio dia appareceu o exercito inimigo, victoriosamente composto na galhardia das armas reluzentes com o sol, dos pendões e bandeiras blazonadas, das mesnadas dos ricos homens da Hespanha e da França meridional, montados nos seus cavallos de guerra. Os portuguezes, calados, humildes e obscuros, por detraz das suas trincheiras, esperavam o choque d'essa brilhante móle. Havia em muitos valentia e enthusiasmo, mas não faltava o temor, menos ainda a decisão firme de morrer vencidos, na desesperança de rebater um ataque tão poderoso. O condestavel e os cavalleiros excitavam o ardor bellico; os bispos, confessando, absolvendo, dando a commungar, distribuiam a paz ás consciencias, preparavam para a morte, accendendo a coragem com os odios religiosos. Havia exaltação, votos singulares, ditos agudos, mas sobradas duvidas sobre o resultado do dia. Os padres resavam no seu latim: Verbum caro factum est, e os soldados traduziam d'esta fórma o evangelho: muito caro feito é este: Havia até medo n'essas levas de gente bisonha do campo, soldados[{pg. 160}] saídos de uma população rural; mas uns trinta peões que fugiram, apavorados, foram trucidados pelos castelhanos: o que nos prestou o serviço de evitar as deserções, consolidando o proposito da defeza.

O exercito inimigo não se tinha decidido ainda sobre o modo de operar. Uns optavam pela prudencia: vinham de longe, cansados da viagem, não tinham comido ainda: esperassem, e os portuguezes, como javardos no seu covil, seriam forçados a saír por lhes faltar o mantimento. Outros achavam uma vergonha, para tão fidalgos cavalleiros, o parar deante d'uma estacada mal defendida por um punhado de soldados bisonhos. Apesar do rei vir em andas, doente com sezões, venceu a ultima opinião, e atacaram galhardamente. «Em esto os ginetes dos inimigos provavam a miude d'entrar na carriagem dos portuguezes, mas tudo achavam apercebido de guisa que lhes non podiam empecer. De fórma que os castellãos tiveram de apear e combater com armas curtas.» (F. Lopes).

Realisava-se a previsão, e a batalha acabou por um destroço completo da cavallaria orgulhosa. O rei de Castella fugiu nas suas andas. Toda a bagagem do seu exercito caiu em poder dos vencedores. Eram carretas e azemolas sem numero e dezenas de milhar de cabeças de gado.

Como para a Europa central foi depois Azincourt, assim Aljubarrota foi na Hespanha: o ultimo dia da cavallaria feodal, e o primeiro ensaio d'esses combates de pé, com que dois seculos mais tarde a infanteria castelhana de Carlos V havia de conquistar a Europa.

A Edade-média portugueza acaba no dia de Aljubarrota, com a primeira epoca da nação, com[{pg. 161}] o periodo da sua formação trabalhosa e lenta. Novos horizontes, vastas ambições, pensamentos ainda inconscientes de um largo futuro, amadurecem encobertos, no seio da nação, formada, acclamada, baptizada em sangue. Chama-a de longe um dubio tentador—o Mar![{pg. 162}]
[{pg. 163}]

[[52]] V. As raças humanas, I, pp. XXXI-III.

[[53]] Curiosa coincidencia a repetição d'esta scena em 1834 na guerra civil: (Portugal contemporaneo (2.ª ed.), II, pp. 371).

D. Pedro vae
D. Pedro vem,
Mas não entra
Em Santarem!

O estribilho do tempo de D. Fernando acabava—de Lisboa a Santarem.

[[54]] V. Portugal contemporaneo (2.ª ed.), II, pp. 291.

[[55]] V. Instit. primit., p. 157.

[[56]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) a pp. 118-21 os quadros dos estados peninsulares.

[[57]] V. Elem. de Anthropologia (3.ª ed.), pp. 13-20.

D. Pedro vae
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Mas não entra
Em Santarem!