[LIVRO TERCEIRO
A CONQUISTA DO MAR TENEBROSO]

(DYNASTIA DE AVIZ: 1385-1500)

... quantas vezes estive mettido de baxo das bravas ondas por saber o fundo das barras e para que parte endereçavam os canais, e entrada dos rios até então nunqua lavrados cubertos de bravo mato; e asi mesmo que para alcansar a verdade das rotas, fluxos do mar, voltas e remansos de rios, surgidouros de portos, abriguo de enseadas, deferença das agulhas, altura das cidades, e fazer tavoas de cada lugar e rio em que se contem a mostra da terra, baxos, restingas, rotas, e como se devem de entrar, perdi muita parte da saude e disposição natural.

DOM JOHAM DE CASTRO, Primeiro roteiro da costa da India.


[I
O Infante D. Henrique]

Desde o miado do XII seculo que se propagára na Europa a noticia da existencia de um imperio christão no extremo Oriente. O nuncio da Egreja da Armenia falára ao papa (Eugenio III) em um principe, chamado João, cujos dominios estavam situados para além da Armenia e da Persia, e que reunia ao Imperio o sacerdocio: era um papa do extremo Oriente, e fizera numerosas conquistas, o Preste-Joham.[[58]] Esta lenda, espalhada na Europa,[{pg. 164}] excitava tanto mais a pia curiosidade dos christãos, quanto essas distantes regiões se pintavam como paraizos carregados de ouro e encantos.

Durante a Edade-média, vogavam tambem extravagantes lendas ácerca do Atlantico.[[59]] As tradições obliteradas pela ignorancia davam caracteres phantasticos ás antigas viagens dos carthaginezes ao longo das costas d'Africa, e ás ilhas do mar atlantico.[[60]] Esse infinito de aguas, onde mergulhavam todas as costas conhecidas, povoava-se de monstros e sombras extravagantes; era o Mar Tenebroso! Os homens do norte, que nas suas barcas tinham descido desde os mares gelados do pólo a piratear nas costas da França, foram caindo para o sul; e já no XV seculo tinham chegado ás Canarias, já commerciavam ao longo da costa africana, para cima do cabo Bojador, onde tambem, por terra, chegavam os berberes de Marrocos.[[61]]

As tradições dos geographos antigos, idealisadas pela imaginação bretan, tinham dado logar á formação de lendas maravilhosas. O mar tenebroso era um oceano de luz, semeado de ilhas verdes onde havia cidades com muralhas de ouro resplendente: ao cabo das longas e perigosas viagens estava o paraizo terreal. Para os geographos arabes, menos fecundos em phantasias, o mar tenebroso era uma vasta e infinita campina, a acabar n'um cahos de nevoeiros e vapores aquosos; e, «ainda que os mareantes, diz Ibn-Khaldún, conheçam os rumos dos ventos, não havendo, para além, paiz algum habitado, perder-se-hão irremediavelmente,[{pg. 165}] porque o limite do oceano não é outro, senão o proprio oceano».

Além d'estas tentações maritimas, havia a ambição do Oriente e do seu commercio, accendida em toda a Europa pelas Cruzadas; e mais particularmente na Hespanha, pelo contacto intimo em que a occupação arabe a puzera com os monopolisadores d'esse commercio, durante a Edade-média. Hormuz[[62]] era o emporio mercantil de todos os mercadas do oceano indico. D'ahi as carregações se dirigiam para a Europa e para a Asia do norte, seguindo derrotas diversas. As da Asia iam em cáfilas, caminho da Armenia, por Trebizonda, engolphar-se na Tartaria; as da Europa, ou vinham por mar a Suês, e d'ahi em caravanas, pelo Cairo, a Alexandria, ou seguiam por terra o valle do Euphrates a Bagdad, passando em Damasco, no seu caminho de Beirut, sobre o Mediterraneo.

Tinha, porém, no começo do XV seculo, a empreza encetada com tamanho vigor e tino pelo infante D. Henrique, o pensamento determinado de chegar por mar—como veiu a chegar-se—ao imperio do Preste-Joham das Indias? Parece-nos que não. Devassar o mar tenebroso em demanda das ilhas de que havia uma noticia mais ou menos vaga; reconhecer e ir occupando gradualmente a costa occidental da Africa—parecem ter sido emprezas ainda não ligadas n'esse tempo com a da viagem aos reinos do Preste-Joham. Esta viagem, comtudo, não occupava menos o espirito do principe, que pensava leval-a a cabo por um caminho differente: por terra. A conquista de Ceuta prende-se[{pg. 166}] directa e principalmente a este pensamento. Architectos arabes da Hespanha tinham ido pelo interior da Africa até Timboktu, cujos palacios rivalizavam com os de Cordova ou de Granada. Ceuta era a chave maritima do imperio de Marrocos; e, porventura, atravez da Africa se poderia chegar ao dourado Oriente. Em todo o caso a terra offerecia um campo de exploração mais definido do que esse mar incognito, infinito, cheio de trevas.