No ambicioso espirito do infante, cabiam as duas emprezas: conquistar o imperio marroquino, ou pelo menos o seu litoral, para garantir o monopolio do commercio do Sudão;[[63]] e ao mesmo tempo conquistar ás trevas as ilhas d'esse mar desconhecido, seguindo tambem o longo das costas occidentaes para as visitar e explorar. Tenaz e até duro de caracter, D. Henrique sacrifica tudo aos progressos da sua empreza: nem o dobram as lagrimas do irmão infeliz sacrificado em Tanger, nem as supplicas do outro irmão, o nobre D. Pedro, talvez por sua culpa morto em Alfarrobeira. Ás conquistas da Africa immola os dois principes; ás navegações os seus ocios, as rendas da Ordem de Christo, e as vidas obscuras dos muitos que morreram ao longo das costas, ou na vasta amplidão dos mares terriveis. Dominado por um grande pensamento, é deshumano, como quasi todos os grandes-homens; mas, no limitado numero dos nossos nomes celebres, o de D. Henrique está ao lado do primeiro Affonso e de João II. Um fundou o reino, outro fundou o imperio ephemero do Oriente: entre ambos, D. Henrique foi o heroe[{pg. 167}] pertinaz e duro, a cuja força Portugal deveu a honra de preceder as nações da Europa na obra do reconhecimento e vassallagem de todo o globo.
A candida nobreza de Nunalvares, a sabedoria do grão-doctor João das Regras, a explosão da força nacional, tinham feito de D. João I quasi um heroe: os seus illustres filhos fazem d'elle o mais feliz dos paes. Ditoso homem mediocre a quem tudo favorece, deu-lhe a sorte uma esposa virtuosa e nobre na princeza, cuja lição e cujo exemplo põem a semente das suas grandes acções no coração dos infantes—D. Pedro, acaso o typo mais digno de toda a historia nacional; D. Fernando, cujos meritos desapparecem perante o do martyrio que o santificou; D. Duarte, o rei sabio e feliz: D. Henrique, finalmente, em cujo cerebro ferviam os destinos futuros de Portugal. É uma pleiade de homens celebres, presidindo a uma nação constituida e robusta. Com taes elementos consegue-se tudo no mundo. Bons guerreiros, á antiga, os infantes não se parecem, comtudo, já com os antigos personagens. A côrte apresenta uma phisionomia diversa: dir-se-hia uma Academia. D. Duarte occupa-se em cousas sábias, escreve o seu Leal conselheiro. D. Pedro, cujas dilatadas viagens chegaram a formar lenda, traz comsigo vasta lição, muitos livros, cartas, conhecimentos; a litteratura e a geographia occupam-no por egual, e tambem escreve: dedica ao irmão primogenito o seu tratado da Virtuosa benfeitoria. Á noute, nos serões, lêem-se, pouco, passo, e bem apontado, como D. Duarte manda na sua obra, as historias seductoras de Galaaz, de Merlim, de Tristão. Não é[{pg. 168}] uma côrte da Edade-média, é já uma côrte da Renascença, cheia de idéas novas e de uma cultura eminente. A educação transforma a politica, e as theorias monarchicas da Italia são applaudidas e adoptadas. Bole-se na legislação, limitam-se os privilegios aristocraticos e burguezes, adianta-se a obra da unidade organica do corpo nacional. Os principes, valentes e sabios, são estadistas, no moderno sentido da palavra; e o rei, que na mocidade obedecera aos impulsos de Nunalvares, ás lições de João das Regras, obedece agora aos incitamentos dos filhos, que lhe mostram, com os livros e os mappas, a conveniencia de ir tomar Ceuta—primeiro acto de uma longa e ambiciosa historia que desenrolavam perante os ouvidos soffregos do antigo Mestre de Aviz. A rainha, orgulhosa nos filhos, approva tanto, que, já moribunda, ainda obriga o marido a partir. D. João I, passivo agora e sempre, obedece; e, do principio ao fim da sua fecunda existencia, parece fadado a ornar-se com os louros por outrem ganhos, a ceifar a seara que outro semeou. Tinha porém a habilidade propria dos homens de juizo—a de pesar, vêr, e julgar com rectidão.
Os planos de D. Henrique mereciam a plena approvação do rei, que lhe dava ampla liberdade para proseguir; e até o incitaria, se o infante carecesse de estimulo. Já no proprio anno de Ceuta. D. Henrique fizera uma primeira tentativa, enviando uma frota a sondar e reconhecer a costa da Africa.
Terminada a empreza de Ceuta, poz decididamente mãos á obra, e estabeleceu-se em Sagres.[{pg. 169}] Era uma lingua de rocha cravada nas ondas e acoitada pelas ventanias do noroeste. Estava-se alli como a bordo; e a academia do infante parecia uma náu, em que vogavam os destinos ainda ignotos da nação. Os antigos tinham chamado sacrum, sagrado, a esse promontorio, e o nome de agora tambem traduzia, no pensamento e na linguagem, a passada denominação. Sagres ia ser no XV seculo, como fôra nos velhos tempos, o pedestal de um templo. Acreditavam os antigos celtas, do Guadiana espalhados até á costa,[[64]] que no templo circular do promontorio sacro, se reuniam ás noutes os deuses, em mysteriosas conversas com esse mar cheio de enganos e tentações, aberto ao capricho dos homens para os tragar. Agora, os modernos herdeiros dos druidas erguiam em Sagres um novo templo, onde tambem ás noutes, não deuses, mas homens, se entretinham em falas com os ignotos mares, com as regiões desconhecidas. O espirito era o mesmo, a religião era outra:—era a da Renascença—a sciencia, a tentação irresistivel que arrastava os homens para a natureza; que os fazia extenuarem-se a desflorar a virgindade dos mares, a interrogar a mudez das noutes, na sua ancia de saber, de dominar, de conhecer o mundo inteiro e os seus segredos: «quantas vezes estive mettido debaixo das bravas ondas, por saber o fundo das barras e para que parte endereçavam os canaes!»
Em Sagres reunira o infante todos os recursos de que então dispunham a cosmographia e a arte de navegar. D. Pedro trouxera-lhe das suas viagens o manuscripto das peregrinações de Marco Paolo. Esses livros, os mappas de Valseca, as narrativas[{pg. 170}] e roteiros dos pilotos, as rudes cartas maritimas, faziam vergar as mesas, a que o infante, tendo ao lado o seu cosmographo, Jayme de Mayorca, então celebre, rodeado de discipulos, passava os dias a discorrer, as noutes a interrogar, silenciosamente, os enygmas propostos nos textos e desenhos. Como Raymundo Lullio, entre as drogas e retortas do seu laboratório se extenuava a buscar o principio da vida, os corpos simples ou elementares da materia para obter o segredo da existencia physica e organica: assim o infante procurava desvendar os segredos das ilhas e dos continentes, dos golphos e enseadas, velados pelo manto azul-negro do Mar Tenebroso.
Essa paixão naturalista da Renascença nos seus primeiros tempos, essa tenaz curiosidade scientifica, differia essencialmente do mysticismo religioso da Edade-média, eivado de phantasias kabbalisticas, e da ingenuidade das mythogenias primitivas. O homem já preferia a sciencia á imaginação: rejeitava as fabulas, e confiava tudo aos processos e aos meios positivos. «Ora manifesto é, diz, um seculo depois, Pedro Nunes, que estes descobrimentos de costas, ilhas e terras firmes não se fizeram indo a acertar; mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geographia, que são as cousas de que os cosmographos hão de andar apercebidos. Levavam cartas mui particularmente rumadas, e não já as que os antigos usavam, que não tinham mais figurados que doze ventos, e navegavam sem agulha.» A bussola, o astrolabio e o quadrante já guiavam as expedições maritimas enviadas annualmente de Sagres pelo infante, a sondar o Oceano, ou a descer a costa para o sul. Porto-Santo, a Madeira e os Açores foram por esta fórma arrancadas[{pg. 171}] ás trevas do mar.[[65]] Mas, apesar das successivas investidas, não se conseguira ainda dobrar o cabo Bojador, limite extremo até onde a costa era conhecida: havia doze annos que os navios iam e voltavam sem resultado. Era uma barreira natural, junta a um muro de terrores phantasticos.
Gil Eannes parte, afinal, em 1434, e volta com a desejada nova. O mundo não acabava alli, sabia-se já; mas seria possivel ir além d'esse finis-terrae da Africa? Gil Eannes voltou para responder affirmativamente. Dissiparam-se, portanto, os sustos; e os navios foram seguindo, costa abaixo, por Cabo-Verde, a Guiné, onde, cheios de satisfação, os mareantes aprisionam os primeiros negros—os azenegues do Senegal.[[66]]
Era um antegosto das horrorosas façanhas a que as tentações do mar os haviam de conduzir; mas as perdas de gente e dinheiro, já sensiveis, o dilatado das viagens, sem consequencias fecundas, esfriavam nos animos o enthusiasmo do principio. Não acabava, jámais, a costa da Africa! e o Preste-Joham e os encantos do Oriente traduziam-se apenas pela malagueta da Guiné.[[67]]