O infante morreu em 1460, e com a sua morte parou o movimento das navegações. A empreza, primeiro esboçada, parecia colossal de mais para as forças da nação: não podiam ellas vencer de todo, nem o Mar, nem Marrocos; e o que se tinha conseguido, perante os resultados praticos, desanimava, e fazia sentir cansaço.[{pg. 172}]
Antes de nos alongarmos na historia d'essa empreza, cabe-nos o dever de registrar brevemente a da formação das forças navaes portuguezas, indispensaveis para o emprehendimento das viagens de descoberta e das expedições militares á costa da Berberia.
Póde dizer-se que, até ao fim do XII seculo, não ha marinha na Hespanha occidental. As luctas da reconquista, então feridas, eram-no por terra exclusivamente; e a impericia maritima dos christãos, junta aos relativos progressos dos arabes concorriam para tornar difficil a conservação das praças litoraes conquistadas. Os primeiros dispunham apenas de pequenas lanchas costeiras; emquanto os segundos tinham navios regularmente armados e equipados, com que percorriam toda a costa occidental, refrescando nos seus portos, abastecendo-os de munições e gente quando estavam cercados, e desembarcando a miude, com o fim de talar os campos dos christãos e captivar os tardivagos ou indefesos. Já, porém, no XI seculo o bispo de Compostella tinha mandado vir de Genova pilotos, sob cuja inspecção construiu duas galés que foram ás costas do Algarb sarraceno pagar em moeda egual antigas e grossas dividas. Os genovezes foram os nossos mestres na arte de navegar.
Mas desde o meiado do XII seculo o exame das armadas de Cruzados, com cujo auxilio Lisboa e depois Alcacer foram tomadas, tinha vindo accrescentar os conhecimentos: demonstrando ao mesmo tempo que, sem o imperio no mar, jámais poderia levar-se a cabo a conquista do sul do reino. Á empreza de Silves, no tempo de Sancho I, vão já navios portuguezes; e o que escrevemos sobre o caracter mais regular e systematico da politica e das campanhas d'esse reinado leva-nos a crêr que d'ahi deve datar-se a fundação da marinha militar[{pg. 173}] portugueza. Com effeito, essa marinha existe nos reinados de Sancho II e de Affonso III, como o provam as expedições maritimas que terminaram pela conquista definitiva do Algarve, e as façanhas do lendario Fuas Roupinho. Havia então já um corpo de tropas especiaes de embarque.
Que eram esses navios, porém? O leitor de certo viu alguma vez, de tarde, ao cair do sol, o recolher dos barcos, voltando do mar, nas praias de Ovar ou da Povoa-de-Varzim. Viu a construcção e os typos d'esses navios primitivos, e as pittorescas physionomias dos seus tripulantes: eis ahi uma esquadra do XIII seculo.[[68]] Vel-a-ha, real e verdadeiramente, se, com a imaginação, substituir por armas os utensilios da pesca. E quando os barcos, encalhados na areia humida, descarregaram—hoje o peixe, então as presas, os mantimentos e a gente—homens e mulheres, fincadas as mãos sobre os joelhos, curvados, com o dorso contra o costado do barco, em linha ao longo d'elle, impellem-no, manobrando ao som de um canto rythmico, para o fazer rolar sobre toros até ficar em secco, distante dos perigos das ondas. Essa scena repetia-se para pôr a enxuto, e para pôr a nado as embarcações; e Sancho II realisou um progresso, ainda hoje desconhecido nas nossas praias de pescadores: mandou construir debadoyras (cabrestantes) para encalhar, tirados por cabos, os navios. No tempo de Affonso III já o poder maritimo portuguez é de tal ordem, que os nossos navios vão em soccorro a Castella, e o papa nos convida a acompanhar as gentes do norte á Cruzada.
O reinado de D. Diniz marca uma segunda éra[{pg. 174}] na historia da marinha nacional. Reciprocamente indispensaveis a marinha mercante e a militar, os cuidados do rei administrador dirigem-se principalmente a fomentar a primeira, cuja importancia o tratado de commercio, feito em 1308 com a Inglaterra, accusa. Além d'isto o rei applica-se a melhorar o porto de Paredes, na costa ao norte do cabo da Roca, defendendo-o contra as dunas, que, apesar de tudo, o invadem e destroem. Com este mesmo pensamento mandaria semear o pinhal de Leiria. Tambem no seu tempo, por morte do conde do mar, Nuno Cogominho, em cuja familia esse cargo andára, vem tomar o almirantado da armada portugueza o genovez Pezzagna. Nacionalizada, a familia dos Peçanhas tem por largos tempos o condado do mar, ou almirantado, como já, á moda arabe, se dizia então.
Os progressos realisados no XIV seculo preparam os recursos poderosos, com que, no seguinte, o infante D. Henrique póde levar de frente as duas emprezas a que votára a sua existencia. D. Fernando, o amavioso e infeliz rei, merece n'esta historia uma menção condigna. Apesar das chimeras da sua politica tornarem em derrotas as suas emprezas, a sabedoria e o alcance economico da sua legislação dão-lhe o direito de preeminencia na historia da formação do poder naval dos portuguezes. Já então a alfandega de Lisboa rendia, por anno, de 35 a 40 mil dobras:[[69]] o que demonstra[{pg. 175}] o progresso commercial do reino, e comprova a opinião expressa no livro anterior, da deslocação do centro de gravidade nacional do norte para o sul, e da nova phisionomia adquirida depois do antigo caso da separação do condado portuguez do corpo da monarchia leoneza.
O rei que pretendia, com justiça, impedir aos proprietarios a detenção improductiva das terras, obrigando-os a lavral-as, ou a dal-as a quem por elles o fizesse, era o mesmo que, n'um corpo de leis, protegia e fomentava o commercio maritimo de Lisboa, já então uma cidade cosmopolita. Os genovezes, os lombardos, os aragonezes, os mayorquinos, milanezes, corsos, biscainhos, gentes de tão variadas partes—de toda a Hespanha e das costas circum-mediterraneas—fixavam-se em Lisboa a commerciar. Pelo Tejo saíam cada anno para cima de doze mil tonneis de vinho, sem contar o dos navios da segunda carregação, em março. Os navios eram já maiores e tinham coberta. O chronista chama á capital «grande cidade de muitas e desvairadas gentes». Era uma Veneza que se formava para succeder á antiga; e, como nas cidades republicanas da Italia, tambem o commercio era privilegio dos mercadores, prohibido aos nobres e clerigos, sendo vedado aos estrangeiros negociar fóra do porto-franco de Lisboa.
O rei D. Fernando assistia ao pleno desenvolvimento de uma potencia commercial e maritima: e o que fez em favor do seu progresso demonstra a lucidez do seu espirito. O rei em pessoa era armador e negociante de certos generos exclusivos.[{pg. 176}] Creou bolsas de seguros maritimos, mutuos, em Lisboa e no Porto, com o producto de uma taxa especial lançada sobre o commercio, instituindo o cadastro ou estatistica naval. Reduziu a metade os direitos de importação dos generos trazidos por navios nacionaes, estabelecendo assim um direito differencial de bandeira, a cuja sombra se multiplicou o numero dos navios mercantes portugueses. Deu, aos que desejassem construil-os, a faculdade de cortar madeiras nas mattas reaes. Isentou de direitos os materiaes de construcção naval, e os navios construidos fóra, por conta de nacionaes: e o mesmo concedeu á exportação dos generos do primeiro carregamento de navios novos. Por sobre esta protecção efficaz e energica, emprestava ainda aos armadores capitaes para commerciarem, ficando interessado com elles no dizimo dos lucros, que se liquidavam duas vezes ao anno.