N'outro logar dissemos que o governo de D. Fernando fôra um cesarísmo, e com effeito o foi de todos os modos: na sábia protecção dada ao fomento material da nação, na violencia das medidas de salvação publica, na desordem dos costumes da côrte, e no caracter bondoso e ingenuamente devasso do rei. Este Cesar do fim da Edade-média preparava o caminho á nação, cuja vida brilhante de dois seculos, afastada da estrada ordinaria da agricultura e da industria, ia ser a vida de uma Roma imperial, de uma Carthago, de uma Veneza: metropole acanhada de um imperio colossal, subordinada nos seus destinos ao merecimento individual dos governantes autocratas, mais do que á força espontanea de um espirito nacional, ao machinismo activo de um systema de instituições e classes, organicamente construido e funccionando normalmente. De todos os fundadores do Portugal maritimo D.[{pg. 177}] Fernando é o maior; e se as queixas formuladas, ao decair do XVI seculo, contra os que afastaram os portuguezes do arado para o leme, do campo para o mar, teem razão absoluta—a sabedoria de D. Fernando foi como o peior dos erros. Camões fulminava, pela bocca do velho do Restello, os que arrastavam Portugal para o mar; como Plutarcho tambem condemnou Themistocles por ter lançado os athenienses no caminho das emprezas maritimas.
Mas esses lamentos do espirito utilitario, se teem um cunho de verdade positiva, teem tambem um escasso merecimento historico. Não tivesse a Grecia sido colonisadora e maritima, e a sua voz educadora jámais se teria ouvido no mundo. Outrotanto diremos de nós. Não tivessemos alargado pelo mar um nome sem razão de ser na Europa, e, jungidos á Galliza virente e á Castella farta, teriamos tido menos fome e menos dôres, menos miserias decerto, mas nenhuma honra, tambem, na historia. O proprio nome de Portugal não teria existido, senão como lembrança erudita de um certo condado, que, nas mãos de principes astutos e atrevidos, conseguira viver alguns seculos separado do corpo da nação hespanhola.
Traduzirá isto apenas uma vaga e sentimental banalidade? Não, decerto. Infeliz de quem não viveu; e viver, para os homens e para as nações, differe de absorver, digerir e segregar, porque é mais do que satisfazer as necessidades organicas. Além d'isto, o destino, fatalidade, providencia, determinação, ou como se queira dizer—traduzido com as successivas palavras, antigas, actuaes ou futuras, um mysterio eterno—elege ou condemna—escolham tambem os sectarios entre as duas expressões—os homens e as nações a uma determinada[{pg. 178}] obra. Nós fomos elegidos ou condemnados a conquistar para o mundo esse Mar Tenebroso que o enchia de vagas ambições ou de funebres terrores.
Era este o momento opportuno de dizermos todo o nosso pensamento ácerca da empreza nacional, do seu destino, da sua missão, ou como aprouver melhor chamar-lhe. A viagem das Indias, que vamos contar—descrevendo previamente a derrota, por Ceuta e Tanger, e, no reino, pela consolidação do poder cesarêo dos reis—necessitava ser julgada: agora que, ainda no molhe os tripulantes, sobre a amarra os navios, se não desferrou o panno, nem se deram as salvas da partida.
Essa esquadra, que fundeia no Tejo, era já poderosa ao tempo de D. Fernando. Os cuidados do rei em favor da marinha mercante abraçavam tambem a marinha de guerra. A armada que foi bloquear Sevilha (1372) era, no dizer do chronista, formosa campanha de ver. Mice Lançarote Peçanha, da linhagem do genovez, ia de almirante; e o cosmopolitismo da nova patria portugueza vê-se bem no nome dos capitães: um João Focin castelhano, um Badasal de Spinola, um Brancaleon. Como Roma, Lisboa recebia no seu seio e nacionalisava gentes de toda a parte; e d'este agglomerado de caracteres, naturalmente inorganico, sairá, no momento culminante do XVI seculo, um espirito superior ao espirito nacional-natural e a noção de uma patria moral ou ideal, como foi a patria de Virgilio.
A esquadra de Sevilha contava trinta e duas galés, trinta náus redondas, afóra as que vieram per ella da costa do mar. Vinte e tres mezes teve bloqueado o Guadalquivir, e retirou com a paz. Outra frota, quasi tão poderosa como esta, foi ainda[{pg. 179}] ao Mediterraneo, na seguinte guerra de Castella, para soffrer o desastre de Saltes (1381) consequencia da temeridade do fanfarrão Affonso Tello.
Agora, fundeada no Tejo, a armada, espera o rei e os principes para ir conquistar Ceuta, em Africa.[{pg. 180}]
[[58]] V. As raças humanas, I, pp. 96-9.
[[59]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. VII-VIII e Elem. de Anthropol. (3.ª ed.) pp. 126-7 e 215-17.
[[60]] V. As raças humanas, liv. IV, 2.
[[61]] Ibid., pp. 111-18.
[[62]] Seguiremos em geral a orthographia de Kiepert nos seus Atlas, com referencia aos nomes geographicos do Oriente, traduzidos nas nossas chronicas pelo ouvido dos soldados da India.
[[63]] V. As raças humanas, I, pp, 94-6 e O Brazil e as colon. port., (2.ª ed.), pp. 244-8.
[[64]] V. As raças humanas, I, p. 184.
[[65]] V. A chronologia particular das viagens de descoberta no Brazil e as colonias portuguezas (2.ª ed.) pp. 2-3.
[[66]] V. As raças humanas, I, pp. 116-7.
[[67]] V. O Brazil e as colon. port., (2.ª ed.), pp. 14-5.
[[68]] V. no Regimen das riquezas, pp. 81-8, a evolução dos vehiculos maritimos.
[[69]] A dobra continha 4 libras e 2 soldos; 50 dobras compunha o marco de ouro cojo valor moderno é de 120$000 rs; a dobra equivaleria pois a 2$400 rs.; e o rendimento da Alfandega a de 84 a 96 contos. Havendo no porto, como diz o chronista, «400 a 500 navios de carregação» e em Sacavem e no Montijo, a carga do vinho e do sal, 60 ou 70 em cada logar, suppondo que esses navios se substituissem quatro vezes, fazendo quatro viagens n'um anno, e sabendo nós que a sua lotação média regularia por 100 toneladas—vemos que o movimento do porto attingia mais de 200:000 toneladas de generos diversos. Comparando-a com o rendimento da alfandega, faremos idéa do grau de franquia do porto.