Todos estavam impacientes por partir; mas o vento norte fresco, o vento de monção, assobiava contra as paredes do quarto onde jazia moribunda, com a peste, a rainha D. Philippa. Ninguem pozera na empreza melhor amor do que ella: mandára fazer tres espadas cravadas de pedraria para os filhos, que em Ceuta haviam de ser armados cavalleiros; mas o destino não lhe consentiu vêr terminada a façanha. Morreu; e ainda não se tinham acabado de arrancar das paredes do convento de Odivellas os pannos de dó do enterro, quando a armada partia. Morrera a 20; são hoje 25 do mez de julho de 1415.
As pazes celebradas com Castella no anno anterior tinham dado o socego a uma côrte onde fervia o desejo de praticar grandes cousas. Diz-se que o rei pensára em abrir em Lisboa um torneio de um anno, onde viriam os mais celebres cavalleiros da Europa medir-se com os portuguezes; mas esse plano extravagante foi substituido pelo projecto mais sensato de ir a Ceuta. Para não prevenir os inimigos, conservára-se um segredo absoluto sobre o destino da grossa frota que se reunia em Lisboa. Todos temiam: o aragonez, e principalmente o mouro de Granada. Vinham de varias partes soldados e navios. D. Duarte apparelhára em Lisboa[{pg. 181}] oito galeões, e D. Henrique tinha chegado do Porto com uma divisão de cincoenta e dois navios de toda a classe. Havia inglezes, francezes e allemães na armada, que, depois de inteiramente reunida, contava 33 galeões grandes, 27 menores, de tres bancos de remeiros, 32 galeras e 120 fustas, transportes, e outros vasos secundarios. Iam embarcados cincoenta mil homens.
Ao passarem á vista do cabo de S. Vicente os navios baixaram as velas por razam das reliquias que ali havia. Ainda em Sagres não existia ao tempo a eschola do infante, mas o preito dado ao logar sagrado para muitos parecerá symbolico. Era esta a primeira grande empreza maritima de Portugal; ou antes e melhor, era a primeira vez que as esquadras portuguezas saíam de Lisboa com o fito de alargar o reino para além do mar. Inexperientes ainda os pilotos, as correntes do estreito dispersam a poderosa armada, parte da qual é arrastada até Malaga, indo o resto fundear em Ceuta.
Não nos permittem as proporções d'esta obra narrar todas as batalhas e cercos, nem isso importa; pois que, salvas excepções que temos tomado em conta, todos se parecem entre si. Nenhum caracter novo, nem particular, apresentou a tomada da cidade que, colhida de improviso, não pôde resistir. Os moradores abandonaram-na depois de um combate em que obtiveram a prova da inutilidade da defeza; e os christãos saquearam a cidade deserta, arrancando as columnas de alabastro, os marmores das portas e janellas, os tectos lavrados em paineis dourados, dos palacios da opulenta Ceuta. Emquanto a turba dos soldados se espalhava pelos meandros das ruas e pelas casas da cidade abandonada, os fugitivos, de longe, sobre as collinas, bradavam desesperados e miseraveis n'um[{pg. 182}] triste clamor de perdidos. Ficavam-lhes além, dentro dos muros da cidade tomada, afóra tudo o que possuiam, os cadaveres insepultos dos muitos que na vespera tinham morrido no combate.
Ceuta era portugueza; e uns sinos, antigamente tomados em Lagos, serviam desde logo para solemnisar a sagração da mesquita dos infieis. O infante D. Henrique, principal author, denodado executor da empreza, recebeu o titulo de duque, novo então em Portugal. Todos os tres irmãos foram armados cavalleiros.
Que se faria porém de Ceuta? Muitos opinavam pelo abandono, recolhido, como estava, o saque: eram os que ignoravam os vastos designios do infante, ou os não approvavam.
Ceuta guardou-se como principio de mais dilatadas emprezas.
Vinte annos decorridos—em que o infante se déra principalmente aos seus trabalhos de Sagres,—e vendo acaso que as descobertas das ilhas do Atlantico não valiam assaz perante os sonhos da sua ambição, e que ao longo de Africa pouco se adiantou por mar, torna a preoccupal-o a idea das conquistas marroquinas, desde tempo postas de parte. A Atlantida mysteriosa teimava em não apparecer; ou reduzia-se afinal á Madeira, ou ao archipelago açoriano, onde não havia, nem encantos, nem muralhas d'ouro, nem estranhas gentes: só desertos cerrados de florestas, bravios de abrir, e pouco remuneradores. O reino encantado do Preste-Joham fugiria deante dos navios aventureiros, como uma miragem enganadora?
Já D. João I morrera a este tempo, e governava o reino o bom, infeliz D. Duarte. O ambicioso irmão[{pg. 183}] levou-o a emprehender a conquista de Tanger, depois de ter convencido a que o acompanhasse o infante D. Fernando. O rei, ou approvou, ou não teve energia bastante para se oppôr á temeraria empreza. No conselho em que ella se debateu, porém, o outro irmão, D. Pedro—cuja sensatez parece tel-o já a esta epocha afastado de uma côrte, onde a irrequieta ambição de D. Henrique governava—observa que tudo falta, para esperar um bom exito. Não havia dinheiro para custear o exercito, e, sem grande cargo de sua consciencia, o rei não o podia tomar aos povos. Mudar a moeda (enfraquecel-a) em proveito proprio, não o devia: fallece-vos o principal cimento da passagem! Posto que Tanger se tomasse, e Arzilla, e Azamor, que se lhes faria? Do reino, despovoado e mingoado, era loucura enviar gente a guarnecel-as: seria trocar boa capa por mau capello, perder Portugal sem por isso ganhar a Africa. O exemplo dos castelhanos não colhia, porque dispunham de mais vastos recursos.—O infante vira muito mundo, e aprendera a medir pelo seu justo peso a importancia limitada da nação. A ignorancia, mãe de todas as temeridades e audacias, não o cegava.