D. Henrique, pertinaz, decidido e, por sobre isso, violento e sem carinho, não perdoou decerto a sabia prudencia com que o irmão se oppunha aos seus designios. As relações de ambos, já frias, azedaram-se talvez; e porventura aqui esteja o motivo da indifferença com que D. Henrique ouviu os rogos do irmão, quando mais tarde lhe pedia que o servisse perante o sobrinho, Affonso V—indifferença que decerto concorreu para a morte de D. Pedro em Alfarrobeira, se porventura a não causou.
As advertencias do principe no conselho eram tanto mais graves, quanto os seus argumentos eram[{pg. 184}] absolutamente fundados, positivos; e grandes os creditos da sua opinião, merecido o respeito que todos tributavam ao seu caracter. Por isso, apesar da nenhuma brecha que os argumentos, por via de regra, fazem nas teimas, o rei (ou D. Henrique) julgou necessario escudar-se com o parecer do papa. Consultou-se, pois, Roma; e a resposta, que de lá veiu honra o nome do que a deu: «Se as terras foram christans e ha templos convertidos em mesquitas, a guerra é santa; se o não foram, deve distinguir-se: são visinhos incommodos e põem em perigo os christãos? admoestem-se, ameacem-se e só em ultimo caso se recorra ás armas. Não é este, porém, o caso? então, deixem-nos em paz, porque a terra e a abundancia d'ella é do Senhor, que faz nascer o sol sobre os bons e os maus, e dá de comer a todas as aves do céu.»
Esta ultima das tres hypotheses indicadas pelo papa era a verdadeira, o que não impediu o infante de proseguir na sua teima. «A gente do reino havia esta ida por tão pesada, que a mais d'ella preferia pagar as multas (impostas aos refractarios ao alistamento) a arriscar as vidas.» Nem as multas, nem o dinheiro do rei, nem os emprestimos, bastavam, porém, para supprir o orçamento da armada; e por isso lançou-se mão dos bens dos orfãos. Porém, apesar de tudo, dos 14:000 homens com que se contava para a ida, apenas 6:000 se conseguiu reunir.
Partiram, afinal, os dois irmãos; mas logo um mau agoiro entristeceu os soldados: o vento despedaçou a bandeira do infante, quando a desfraldava. Essa bandeira, sobre que o mouro havia de cuspir affrontas, ia já rota de Portugal...
O resultado correspondeu ás previsões geraes: depois de batida, a expedição portugueza teve de capitular sob os muros do Tanger (1437), deixando[{pg. 185}] D. Fernando em refens de Ceuta, que era o preço da liberdade do exercito. Tristes lagrimas de desespero orvalharam então as areias da costa africana: não seriam as ultimas, nem as mais copiosas. D. Henrique voltava com as reliquias da sua expedição, deixando o irmão preso. «Que el-rey se lembre de mim... roguem por minha alma, que é a ultima vez que nos veremos!» dizia o infeliz ao despedir-se, em lagrimas. D'alli os mouros levaram-no a Fez. Ia como Isaac para o altar, ou como Jesus para o Calvario. Conduziram-no montado n'um sendeiro mui magro, desferrado, tendo por freio umas tamiças, a sella esfarrapada, os arções despregados. Deram-lhe tambem uma canna, para guiar a azemola. Atraz d'elle iam os outros prisioneiros amarrados sobre as bestas de carga. A gente acudia ao caminho de Fez, chamada pelo pregão: «Venham vêr o rei dos christãos!» E os apupos, as pedradas, os escarros, caíam sobre os infelizes, chouteando, na sua paixão, esmagados por um sol abrazador. Uns, com os apupos, remordiam-se colericos; o infante, submisso e conformado, lembrava-se de que outro tanto, e mais ainda, soffrera Jesus por elle. Antes, porém, ser de uma vez crucificado, do que acabar lentamente nas lobregas estrebarias de Fez, varrendo as immundicies, comido de bichos, devorado de febres, porque nem a lentidão do martyrio lhe poupou o cadaver aos insultos da turba. Pendurado nú, pelos pés, nas ameias da cidade, foi a sorte que lhe deram. Antes, pregado na cruz, tivesse expirado como Christo. O pobre infante é o primeiro martyr da nossa epopêa; e se nos honramos do muito que fizemos, é agora o momento de deixar aqui uma lagrima de saudade e pena por esse infeliz precursor do nosso imperio![{pg. 186}]
De volta ao reino, e salvo, D. Henrique oppoz-se decididamente á entrega de Ceuta. O rei, lavado em lagrimas pela sorte do irmão, morreu logo no anno seguinte, triste e taciturno. Com a deshumanidade de um apostolo, D. Henrique sacrificava tudo e todos á sua fé. Por cousa nenhuma consentiria que se entregasse Ceuta: e os reinos do Preste-Johan? e o imperio do Oriente? Homens, familia, palavra, tudo era vão, diante d'essa miragem que, desde tantos annos, lhe punha a cabeça em delirio.
Com o seu braço conquistára Ceuta: arrastára a Tanger o irmão; deixára-o lá perdido, nas mãos féras dos inimigos: tudo isto eram holocaustos no altar da sua idéa. Quem sabe se elle mesmo não choraria a sós a crueldade do seu destino, e a desgraça do irmão que levára ao cepo do sacrificio? Não é, comtudo, provavel. Pelo menos, a impressão que o leitor d'estas historias recebe da narração dos seus actos consecutivos, é a de que no caracter do infante não primava a humanidade.
Voltou a encerrar-se em Sagres, com os seus livros, os seus mappas, os seus cosmographos e mareantes: voltou a olhar para o mar—pois que, por largos annos, para sempre talvez! estava perdida metade da sua empreza. Os seus navegadores iam vogando e resgatando[[70]] ao longo da costa da Africa: e as ilhas dos Açores iam successivamente saindo dos arcanos do Mar Tenebroso. O papa (Nicolau V) dava-lhe o senhorio e dominio sobre todas as descobertas na Africa (1454): e o infante, no meio das contrariedades, não desanimava na sua fé.
Entretanto o reino passára, das mãos da rainha viuva, para as do infante D. Pedro (1438) e d'estas,[{pg. 187}] finalmente, para as de Affonso V (1446); entretanto miseraveis intrigas, a que D. Henrique não quiz oppor-se para salvar o irmão que lh'o pedia, tinham levado á desgraça de Alfarrobeira (1449); e o infante, com a influencia que exercia no curto espirito do sobrinho, facilmente o decide a lançar-se nas aventuras africanas: já morrera D. Pedro, para vir repetir o que dissera nas vesperas de Tanger. Quando, em 1460, morreu D. Henrique, esse principe tão funesto aos seus, mas tão proveitoso para o reino, já Affonso V tinha conseguido tomar Alcacer-Seguer (1458). Dez annos depois, a conquista de Arzilla importa a rendição de Tanger. O dominio portuguez na costa de Marrocos chegava ao apogeu; mas qual era o resultado d'essas emprezas? Vinha por ahi a Portugal o commercio das Indias, como D. Henrique pensára? Não. Monopolisado pelos arabes no Oriente, logo que Ceuta foi para elles perdida, desviou-se para outros portos do Mediterraneo. Varrida essa illusão, que restava? Uma serie de praças fortes, eschola de soldados, fonte de permanentes conflictos, esteril em proventos, pasto para a van necessidade batalhadora da nação: precipicio aberto, que ia tragando, improficua e ingloriamente, muitas forças vivas do paiz. A opinião do sabio principe D. Pedro era absolutamente verdadeira: nós não tinhamos recursos, no reino pequeno e pobre de gente, para povoar Marrocos; e mudar parte de uma população escassa, de Portugal para a Africa, era trocar «uma boa capa, por um mau capello». Á conquista de Ceuta movera ainda uma illusão: mas agora, varrida ella, as campanhas de Africa eram uma serie de emprezas quixotescas, que viriam a terminar pela doidice varrida de D. Sebastião.[{pg. 188}]