Contra uma opinião muito acceite, nós pensamos, pois, que a decisão de D. João III, abandonando as praças africanas, só peccou por serodia; e que Portugal nada tinha a esperar do seu dominio na Barberia—desde que o destino o levava para o Oriente, e desde que era manifestamente provado não poder chegar-se lá por via de Marrocos. Incidente na nossa vida nacional, o dominio portuguez das praças do litoral d'Africa é apenas um episodio da grande historia das descobertas e conquistas ultramarinas; e o seu melhor merecimento foi de servir de eschola para os guerreiros da India, de posto de acclimação—como hoje Malta ou Gibraltar, para os inglezes. Para padrão das façanhas de Affonso V e das lançadas de Lopo Barriga, não valia a pena que custou, ainda quando não fosse a causa da final catastrophe de D. Sebastião.[{pg. 189}]

[[70]] Regime das Riquezas, pp. 92 e 107-9.


[III
O principe perfeito]

Perfeito não quer dizer sem nodoa, mas sim acabado, completo; não tem aqui uma significação moral, tem um valor politico. D. João II é um exemplar perfeito do genero dos principes da Renascença, para quem Machiavel escreveu (um pouco depois) o cathecismo: é um mestre da moderna arte de reinar.

O exemplo mesquinho da pessoa do antecessor e pae, Affonso V, as desordens do reino e a fraqueza do rei, tinham educado o espirito agudo e observador do moço principe.

A tragedia de Alfarrobeira (1449) começára com um crime o espectaculoso mas triste reinado do africano; e o epitheto dado ao rei ajudou a formar a tradição de um homem cheio de valor e tenacidade, coisa que o pobre Affonso V jámais foi. Combater com denodo, n'um momento de furia, era uma qualidade commum que lhe não faltava; mas d'ahi ao valor consummado vae uma distancia enorme. O grande defeito da sua mocidade fôra a facilidade com que se deixava lisongear. Tutelado na sua menoridade, pela mãe primeiro, pelo tio e sogro depois, o pobre rei soffreu as consequencias communs a quasi todos os principes, como elle acclamados em creanças. Em volta do rei, pupillo de futuro imperante, formou-se um partido de adversarios[{pg. 190}] da regencia, ambiciosos a quem não satisfazia o juizo do infante D. Pedro, cheios de esperanças na liberalidade e no caracter desegual do moço rei. Exploravam-lhe as fraquezas, açulando-lhe os odios nos momentos de colera, distrahindo-o com facecias e ditos nas horas de abatimento, gabando-lhe tudo: os arremeços e as cobardias, a brandura e a colera, como aduladores de officio. Da insensatez do rei esperavam colher uma farta ração de beneficios e presentes. Apesar de o infante já ter feito entrega da regencia, temiam-no ainda sobremaneira, e não cessavam de o malquistar no animo do sobrinho e genro. D. Pedro em vão instava com o irmão, D. Henrique, para que desmanchasse essas perfidias. Aborrecido de viver, desejoso de deixar o mundo, o ex-regente via que tudo se conspirava para o perder. «Era grande principe, de grande conselho, prudente, de viva memoria, bem latinado, e assaz mixtico em sciencias e doutrinas de letras, e dado muito ao estudo.» Era um dos poucos, a quem a sabedoria tornára realmente bons.

Os seus brios offendidos, a perfidia dos validos, o tonto desvairamento do rei, levaram ao encontro de Alfarrobeira, quando o principe vinha á côrte justificar-se das calumnias: e vinha armado, por saber que no caminho o esperavam para o matar. Effectivamente o mataram, a elle, e ao seu fiel Achates, o nobre conde de Avranches, typo de lealdade cavalheiresca, sempre rara, e agora de todo ausente em côrtes italianisadas. Morto o seu principe, o conde prepara-se para morrer tambem, vingando-se: «Ó corpo! já sinto que não podes mais; tu, minha alma, já tardas!» E com furia, defendia-se e matava. Quando por fim o derrubaram, ferido, cruzou os braços, dizendo: «Fartar, rapazes![{pg. 191}] vingar, vilanagem!» E morreu, trespassado de lanças.

Livre do importuno conselheiro, Affonso V e os fidalgos da sua roda, tão simples e estouvados como o rei, puderam abandonar-se á vontade ao capricho das suas loucuras e batalhas. Fatigando o povo com impostos, desbaratando com prodigalidades o patrimonio da corôa, o rei, levado pela sua mania, sacrifica tudo ás correrias africanas, que a decomposição interna do imperio marroquino já tornava possiveis.

Mais de vinte annos consumiu em taes emprezas que o envelheceram. Era corpulento, e com os annos tornára-se gordo, a ponto de não poder já usar senão vestiduras soltas. Tinha a barba espessa, e era calvo; os cabellos ennegreciam-lhe as mãos, as orelhas, o nariz, accusando a vulgaridade e a violencia bravia do seu temperamento. Apesar de bem proporcionado, era tão commum no aspecto como no espirito. Brutal e vingativo, obtuso mas teimoso, e até cruel, a sua phisionomia reproduzia a do commum dos homens d'armas; e imprimiu o cunho a esses guerreiros de Africa, broncos, sem o menor requinte de perversidade fina, nem ponta de elevação distincta: como touros que marram ás cegas e qualquer destro bandarilheiro dóma.