Foi isto mesmo que succedeu a Affonso V em França, onde Luiz XI se fartou de rir do simples, illudindo-o com promessas, fatigando-o com viagens, picando-o com ironias perdidas, carregando-lhe a nuca de lisonjas, cumprimentos e attenções, como o bandarilheiro faz ao touro, quando o carrega de vistosas farpas, bem aguçadas.
Affonso V fôra a França pedir auxilio, porque o castelhano batera-o. Em 1474, Henrique IV de Castella[{pg. 192}] ao morrer, deixava por herdeira D. Joanna, a beltraneja (assim os adulterios da mãe tinham denominado a filha) confiando o governo do reino ao visinho de Portugal, e pedindo-lhe que casasse com a sobrinha. Affonso V julgou que o reino de Castella era a nova Africa da sua velhice, e poz-se em campo para conquistar a corôa testada; conquistar, dizemos, porque os castelhanos invocavam contra a beltraneja os mesmos argumentos que, um seculo antes, nós invocavamos contra a mulher de João I, D. Beatriz. Castella offerecia o throno a Isabel, como nós o tinhamos dado ao Mestre de Aviz.
Affonso V poz-se em campo. Já ao seu lado se via a reservada figura do filho. Receioso das loucuras do velho, arrancára da sua fraqueza um titulo secreto, pelo qual o rei annullava todas as doações superiores a dez mil réis de renda que fizesse durante a guerra. O pae dava e não dava, o filho dobrava cuidadosamente o papel, guardando-o para o futuro...
A batalha de Toro (1476) não foi propriamente uma derrota militar, mas foi uma derrota para o rei e para as suas ambições. O pobre velho, gordo, estafado, sem poder comsigo, foi correndo abrigar-se em Castro-Nuño, e deitou-se logo a dormir. Avendaño, o fidalgo do lugar, declarára-se por elle: mas a mulher, castelhana esperta, apontava-lhe o volume de carnes, para alli deitado a resonar ruidosamente, como os gordos, e dizia ao marido:—«Olha lá por quem te perdeste!»—Effectivamente o rei não valia para cousa alguma. Os castelhanos rebeldes desde logo reconheceram o seu erro, e Affonso V tomou a resolução de ir pedir a Luiz XI que lhe valesse.
O principe herdeiro aprendia muito, porque[{pg. 193}] observava tudo, com o seu olhar profundo e sagaz. Deixou ir o pae, e ficando a reger o reino, continuou, por amor da honra, mas sem calor, uma guerra que elle decerto via não conduzir ao fim desejado. Emquanto o pae andava por fóra, acclamaram-no, ou acclamou-se rei: diz-se que de França lhe viera uma abdicação. Porém Affonso V, desilludido afinal, decidiu-se a voltar; e o principe entregou-lhe immediatamente a corôa. Guardal-a, para que? Se elle, de facto, continuava a reinar em nome do pae, desfeiteado, vencido, quasi moribundo? Todas as maximas que Machiavel escreveu no seu livro do Principe, tinha-as antecipadamente D. João II na memoria:—É melhor ser louvado do que aborrecido, mas só quando isso não prejudica; o bem é preferivel ao mal, quando se póde escolher entre ambos para se conseguir um fim.—Por isso, como sabio principe, decidia-se a reinar sob o nome do pae, já inteiramente docil e subjugado por tantas miserias, esperando o momento proximo de outra vez tomar o nome de rei—méra formalidade.
No decorrer de dois annos (1479-81) a paz, negociada pelo principe perfeito, fazia da beltraneja, encerrada n'um convento, a excellente-senhora, e do rei um cadaver, afogado n'uma agonia de afflicções pungentes.
O filho não tinha nada dos loucos desvarios do pae, e desde logo vira o absurdo da guerra de Castella. Seria mais nobre e cavalleiroso proseguir valentemente na defeza dos direitos da corôa, da honra do velho, e da vida e sorte da infeliz princeza confiada á guarda de Portugal? Seria. Mas D. João II pensava (Machiavel) que o principe não deve preoccupar-se com a infamia dos seus actos, quando sejam necessarios á conservação do Estado; e que, depois de tudo bem pesado, praticar uma[{pg. 194}] certa virtude póde muitas vezes trazer a ruina, quando a infamia traria comsigo a segurança e a fortuna.
Este era effectivamente o caso em 1479. Dizia o principe que tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão. Não traduzia, porventura, com uma concisão mais eloquente, as palavras do italiano?—«O principe deverá imitar bem os brutos (porque ha duas maneiras de combater: com as leis e com a força; a primeira dos homens, a segunda dos brutos) e saber empregar as artes da raposa e do leão; pois o leão não se defende dos laços, nem a raposa dos lobos: é portanto mistér ser raposa para conhecer as redes, e leão para assustar os lobos.»—D. João II, menos classico ainda, recorria aos exemplos venatorios da Edade-media; tempos havia para usar de coruja, tempos para voar como falcão!
Os filhos de D. João I, abrindo as portas da nação á cultura da Renascença, chamando sabios, viajando, formando bibliothecas, tinham lançado á terra dura do velho Portugal as sementes italianas. Affonso V rebentára do solo como um cardo antigo, rijo e bravo, cheio de espinhos. Fôra um aborto, ou um anachronismo medieval. D. João II nascia italianisado, com todos os vicios e virtudes da cultura da Renascença. A sua côrte era um retrato das pequenas côrtes de Italia; e o principe como um italiano, cheio de perfidias e ambições, de lucidez e de manha, de instinctos sanguinarios e fortes decisões politicas.
Os tempos de coruja tinham acabado, porque não carecia mais de pactuar com as tontices do pae; rei agora (1481), seria o falcão. Mas para ser verdadeiramente rei, teria de vestir ainda muitas vezes o habito da ave nocturna, até vêr por terra[{pg. 195}] o poder d'essa fidalguia que os erros do pae tinham ensoberbado. Isto, porém, não satisfazia ainda as suas largas ambições. O homem, como Isabel de Castella o designava com espanto, mirava mais longe. A possibilidade de vir a sentar-se, elle ou os seus herdeiros, no throno de uma Hespanha unida, affagára-lhe o espirito em moço, e chegou a esperar (antes de Toro) realisal-a. Depois, rechaçado, mas não desesperado, fez de coruja em 1479; contando voar de falcão no momento opportuno. Nem paravam ahi as suas ambições: lembrava-se do fallecido infante D. Henrique, e dos vastos planos, abandonados, que tinham fervido n'aquelle cerebro. A sua monarchia dilatava-se da Hespanha á India: e com a Peninsula na Europa, com a Africa, a India, o encantado reino do Preste-Joham, sonhou a monarchia de Philippe II...