N'uma só cousa o portuguez primava ao italiano: era sobrio, severo, detestava o luxo—que prohibiu. A sua côrte apresentava o quer que é de funebre e austero, sempre agradavel a portuguezes. A sua figura, tambem, nada tinha de imponente, nem de graciosa. Os habitos de coruja davam-lhe mais caracter do que os de falcão: ás duas aves, porém, pedia a côr que punha em tudo, o negro. De maravilhoso engenho, subida agudeza, e mixtico pera todalas cousas, de memoria viva e esperta, faltavam-lhe porém os dotes exteriores. Não tinha elegancia, nem no corpo, nem no dizer: arrastava as palavras, falava a custo e com uma voz fanhosa. Era alvo, mas com umas veias de sangue que o faziam «com menencoria ser muy temido». Inspirava medo sem infundir amor. Aos 37 annos já[{pg. 196}] tinha cans na barba o nos cabellos; só n'essa edade deixou de ser abstemio. A força muscular, dote necessario aos principes dos bons tempos, tornava-o celebre: cortava com um golpe de espada tres e quatro tochas de cera reunidas. «Muy grande astucioso e acquiridor, sem deixar de ser inteiro e dadivoso, era muy manhoso em todalas boas manhas que um principe deve ter.» A natureza não o ajudava, decerto; e tambem, na sua educação de principe, deixava de obedecer á regra de Machiavel: «Não é necessario ser-se dotado de todas as qualidades, mas é indispensavel affectal-as;—possuil-as e servir-se d'ellas póde chegar a ser perigoso: fingil-as é sempre util;—seja-se fiel, clemente, humano, religioso e integro; mas de modo que, senhor de si, se possa e saiba fazer todo o contrario, quando a isso o caso obrigue.»—D. João não era, nem clemente, nem humano, e não julgava necessario ao seu papel fingil-o: isso fazia com que muitos o detestassem, o que era um mal: fazendo com que, se a maior parte o temia, ninguem o amasse, o que se tornava peior ainda. A perspicacia e authoridade não eram n'elle bastantes para que soubesse envolvel-as n'uma simulada bonhomia, porque doçura ou humanidade não as havia na sua alma. Não hesitava perante o assassinato, á italiana, mas tinha a fraqueza portugueza de confessar como isso se praticava. Lopo Vaz, a quem Affonso V fizera conde, levantou-se em Moura defendendo o titulo revogado ou não confirmado, e o rei «por não fiar já d'elle... determinou de o mandar matar... por certos cavalleiros que manhosamente lá mandou e o mataram á traição, aos quaes o principe fez boas mercês». Mas o cardeal D. Jorge da Costa, o alpedrinha, vendo-se ameaçado, temeu e fugiu para Roma: o rei expozera-lhe um modo facil do acabar[{pg. 197}] com elle—mandal-o tomar por quatro moços de esporas, afogal-o em um rio e dizer que caira e se afogára por desastre.

Assim que o pae morreu, D. João II convocou côrtes (1482) e mostrou quem era. Mandou examinar as jurisdições dos donatarios da corôa, prescrevendo que os corregedores entrassem nas terras de doação no cumprimento dos mandados regios, abolindo o direito de asylo dos criminosos usurpado por muitos terrenos não coutados; e ao mesmo tempo que assim coarctava as regalias historicas da nobreza, punha cobro ás invasões anarchicas dos fidalgos no fôro dos concelhos, prohibindo o lançamento de pedidos, o intrometterem-se na jurisdição do crime e nas eleições e officios municipaes. O rei, inspirado pelas novas idéas ácerca da authoridade soberana, começava por investir com a nobreza: seria o successor, D. Manoel, que, reformando os foraes, atrophiaria a outra face do systema duplo de instituições, cujo equilibrio mais ou menos estavel formára a vida politica da Edade-media[[71]]. Mas D. João II via-se tambem forçado a emendar os erros do pae, como o segundo Affonso tivera tambem de fazer á morte de Sancho I. O moço rei decidira formalmente revogar as doações do antecessor, reivindicar para a corôa o que os fidalgos tinham pilhado ao pobre, gordo, Affonso V. De todos esses fidalgos, o chefe era o poderoso duque de Bragança, cujos dominios contavam cincoenta villas, cidades e castellos, além de propriedades sem numero; cuja mesnada subia a 3:000 de cavallo e mais de 10:000 infantes; um rei no reino, do qual possuia, pelo menos, a terça parte. Costumado a considerar o rei como egual, da linhagem[{pg. 198}] de reis, e herdeiro do famoso condestavel, o duque sincera e ingenuamente acreditava na justiça da sua rebeldia. «Deservia muito grandemente o rei, fazendo-lhe guerra calada,» e carteava-se com o conde de Athouguia, seu tio, então em Castella, homem prudente, que buscava dissuadil-o, respondendo-lhe em enygmas ao gosto da epocha: «Tal não deveis cuidar, quanto mais commetter... quereis abrir uma fonte para matar vossa sede... achareis a agua tão quente que vos hão de lá ficar as unhas... tradiderunt quos deligebam.» Com effeito, era atraiçoado, e o rei tinha os seus espiões por toda a parte. Um certo Figueiredo vinha a escusas referir tudo a D. João II, que lhe respondia, com a sua voz demorada, baixa e fanhosa: «Guarda-te o melhor que puderes, e depois te farei mercê».—O espião ia e tornava, e quando, afinal, o duque foi preso por surpresa e executado, o rei deu a mão a beijar ao Figueiredo: «Até agora fiz que te não conhecia, d'ora avante olharei por ti. Pede o que quizeres: ha tempos de coruja e tempos de falcão...»

O duque foi degollado publicamente no rocio de Evora (1483), depois de um simulacro de processo. Effectivamente, em taes causas os processos são apenas formulas. A força impera á solta nas demandas politicas, por isso mesmo que ellas põem em questão os fundamentos organicos da sociedade, e portanto a lei civil. O duque e o rei eram inimigos velhos; e aos odios antigos vinham juntar-se agora as intenções, rebeldes em um, tyrannicas no outro. Entretanto, o caracter desnaturado da politica dos reis na Renascença levava D. João II a representar um papel repugnante, dando ao vencido uma palma como que de martyr; ao passo que a sobranceria do fidalgo, quasi-rei, lhe mantinha[{pg. 199}] a dignidade altiva até sobre o cadafalso. Recusa prestar-se a responder no tribunal, a tomar parte na comedia que o indigna; e quando os carrascos, afflictos, lhe vestem o derradeiro trajo, uma loba roçagante, capello e carapuça de dó, com os pollegares atados por uma fita ao cinto, elle observa serenamente: «Soffrerei tudo, e mais um baraço ao pescoço, se S. A. mandar!»

A morte, tão digna, do duque de Bragança excitou ambições de vingança na nobreza, e positivamente começou a tramar-se o assassinato do rei, que o sabia. Os seus espiões andavam por toda a parte; e a politica dependia das intrigas de alcova e dos serviços dos miseraveis. O rei usava de todos os instrumentos, e o sancta sanctis da razão-d'Estado absolvia-o de todos os crimes. Havia um Tinoco, privado do bispo d'Evora, o qual tinha por manceba uma irmã d'elle, e que por isso lhe queria muito. O rei descobriu o caso, e comprou-o. Tinoco veiu, disfarçado em frade, a Setubal, contar a conspiração em que o prelado estava, e de que o duque de Vizeu era chefe; e recebeu cinco mil cruzados em ouro e um beneficio de seiscentos mil réis, porque D. João II não regateava o preço dos bons serviços. Estava compilada e tratada «a segunda e desleal desaventura de que se causou a triste morte do duque de Vizeu». O rei chamou-o a Setubal, e matou-o por suas mãos ás punhaladas. Prescindiu de processo, mas não de um auto posthumo, com o fim de justificar o seu crime, e a perseguição dos mais conjurados. O bispo de Evora foi mettido no fundo de uma cisterna, em Palmella, onde com peçonha acabou a vida; os outros foram assassinados ou justiçados, onde quer que os encontraram os algozes do rei; e um, que conseguira fugir para França, nem por isso escapou[{pg. 200}] com vida, porque o rei mandou lá um sicario matal-o.

O principe perfeito mostrava-se consummado na arte de reinar, e ninguem ousava já resistir-lhe. A primeira metade do seu programma estava realisada—agora o falcão ia alargar os seus vôos amplos!

Ninguem lhe resistia, mas no fundo da consciencia alguma cousa o denunciava como assassino. Uma noute, em Santarem, acorda em sobresalto, ouvindo alguem chamal-o. Quem era? Ninguem. Illusões! dizia-lhe a rainha no leito: era cousa má que andava pelos vãos dos telhados.[[72]] O rei não socegava, porém, e levantou-se, vestiu um roupão, tomou a espada e a rodela, na mão esquerda uma tocha, e viu que uma sombra o guiava. Quem era? Abria as portas diante do rei, e mostrava-lhe o caminho. Foram assim até aos vãos dos telhados, a sombra e o rei. Aos gritos da rainha acudiram todos, e acharam-no no sotão, despejado, alegre e seguro, diz o chronista mentindo palacianamente. A coruja noctivaga perseguia o ambicioso falcão: a educação do principe não conseguira apagar de todo a consciencia do homem.


Fernando e Isabel, de Castella, que lhe haviam tomado o pulso, ainda em tempo do pae, admiravam-lhe muito as qualidades e tinham-no em grande conta. Elle, nem por ter tratado as pazes de 1479, desistira dos seus grandiosos planos. Os reis castelhanos tinham uma filha, D. João II um filho: o casamento de ambos seria talvez um meio, mais[{pg. 201}] simples e mais rapido do que uma guerra, para dar ao herdeiro um grande throno. Tratou-se, ajustou-se e fez-se o casamento (1490); e n'esse dia de grandes esperanças, o rei sombrio e fanhoso quiz mostrar que tambem sabia ser magnifico. As bodas de Evora ficaram celebres, e principalmente o banquete, uma kermesse formidanda. Na sala do jantar, onde os noivos, o rei, e toda a côrte se achavam, appareceu uma vasta machina: era um estrado com rodas, tendo em cima um carro com dois bois, á canga. Os bois estavam assados inteiros, com as pontas e as patas doiradas; e o carro carregado de carneiros tambem assados, tambem inteiros, com as armas doiradas. Vinha um fidalgo, de aguilhada ao hombro a dirigir o carro, e moços empurrando a machina. Deram a volta da sala, cumprimentando o castelhano, que gabou muito a idéa; e entre os applausos de todos, o carro saiu, e bois e carneiros foram dados ao povo, pasmado fóra. Terminado o idyllio culinario, foram-se todos á comida, a côrte e o povo. Nos velhos tempos do rei D. Pedro essas festas eram uma só: o rei comia na rua entre os seus, e bailava, ao som das longas, com as raparigas da rua.

Á noute houve mômos, que ficaram celebres.