Entrou (el-rei) pelas portas da sala com nove bateis grandes, em cada um seu mantedor, e os bateis mettidos em ondas do mar feitas de panno de linho e pintadas de maneira que parecia agua. Com grande estrondo de artilheria, que troava, e trombetas, atabales, e menistres altas, que tangiam, e com muitas gritas e alvoroços de muitos apitos de mestres, contramestres e marinheiros, vestidos de brocados e sedas, com trajos de allemães, em bateis cheios de tochas e muitas velas doiradas accesas, com toldos de brocado e muitas e ricas bandeiras.

E assim vinha uma nau á vela, cousa espantosa, com muitos homens dentro e muitas bombardas, sem ninguem vêr o artificio como andava, que era cousa maravilhosa.

O toldo de brocado e as velas de tafetá branco e roxo,[{pg. 202}] a cordoada de ouro e seda, e as ancoras doiradas. E assi a nau, como os bateis, com muitas velas de cêra douradas todas accesas, e as bandeiras e estandartes eram das armas d'el-rey e da princeza, todas de damasco e doiradas, e vinha diante do batel d'el-rey, que era o primeiro sobre as ondas, um muito grande e formoso cysne com as pennas brancas e doiradas, e apoz d'elle vinha na prôa do batel o seu cavalleiro em pé, armado de ricas armas, e guiado d'elle, e em nome d'el-rey saíu com sua falla e em joelhos deu á princesa um breve, conforme sua tenção, que era querel-a servir nas festas do seu casamento; e sobre conclusão de amores desafiou para justa de armas, com oito mantedores, a todos os que o contrario quizessem combater.

E por rei de armas, trombetas e officiaes para isso ordenados, se publicou em alta voz o breve e desafio, com as condições das justas e grados d'ellas, assi para o que mais galante viesse á teia como para quem melhor justasse. E acabado, os bateis botaram pranchas fóra, e saiu el-rey com seus requissimos mômos, e a náu e bateis, que enchiam toda a sala, se saíram com grandes gritos e estrondo de artilharia, trombetas, atabales, charamellas e sacabuxas, que parecia que a sala tremia e queria caír em terra.

El-Rey dançou com a princeza, e os seus mantedores com damas que tomaram, e logo veio o duque com fidalgos da sua casa, com outros requissimos mômos. E veio outro entremez muito grande, em que vinham muitos mômos mettidos em uma fortaleza, entre uma rocha e mata de muitas verdes arvores e dois grandes selvagens á porta, com os quaes um homem de armas pelejou e desbaratou, e cortou umas cadeas e cadeados que tinham cerradas as portas do castello, que logo foram abertas, e por uma ponte levadiça sairam muitos e mui ricos mômos; e em se abrindo as portas, saíram de dentro tantas perdizes vivas e outras aves, que toda a sala foi posta em revolta e cheia de aves que andavam voando por ella até que as tomavam. E saído este grande e custoso entremez, veiu outro em que vinham vinte fidalgos, todos em trajos de peregrinos, com bordões dourados nas mãos, e grandes ramaes de contas douradas ao pescoço, e seus chapeus com muitas imagens, todos com manteos que os cobriam até ao joelho, de brocados e por cima com remendos de veludo e setim... E assi vieram muitos e ricos mômos que não digo... e dançaram todos até antemanhan; e foi tamanha festa que, se não fôra vista de muitos, que ao presente são vivos, eu a não ousara escrever.

O principe perfeito sabia tambem ser magnifico, e qual um Medicis, no momento opportuno. De facto, o casamento affagava-lhe as esperanças e ambições, abrindo horizontes de novas grandezas.[{pg. 203}]

Ainda Colombo não descobrira a America, mas o futuro imperio do principe Affonso alargava-se já por ignotas regiões. D. João II queria dar, em troca de Castella, um bom dote ao herdeiro; queria-o, além de imperador da Hespanha inteira, e da Italia hespanhola, imperador dos Estados orientaes do Preste-Joham. As propostas de Colombo, apesar de recusadas, excitavam-no; e por terra e mar enviava expedições em busca do lendario principe. A empreza iniciada pelo infante D. Henrique proseguia nas mãos do rei, que tomára a peito descobrir os mundos remotos. O seu poder naval era já tão grande, que o Tejo via com pasmo o famoso galeão de mil tonneis, monstro boiando n'agua, erriçado de canhões. Nunca os estaleiros tinham produzido navio tão grande; nunca até ahi surgira a idéa que o rei teve de artilhar as caravelas, dando um alcance e uma mobilidade desconhecida aos trons do mar. No seu pensamento havia um proposito firme de o subjugar, desvendando-o até aos seus ultimos confins, dissipando inteiramente as trevas e mysterios das ondas. Mandou aperfeiçoar as bussolas, desenhar cartas maritimas para orientação das rotas; commettendo esses estudos a uma Junta em que entraram os seus phisicos, mestre José e mestre Rodrigo, ambos judeus, com o famoso allemão Behaim, discipulo de João Monte-Regio, que em Vienna estudára astronomia com o celebre Purbach. Foi essa junta que inventou as taboas da declinação do sol, permittindo aos navios alongarem-se das costas, rumando seguros em alto mar. Traçavam-se como que estradas sobre as ondas, estradas tão mysteriosas como as regiões da Mina, cuja navegação costeira a astucia do rei envolvia em descripções terriveis para afugentar rivaes—á maneira do que os phenicios tinham feito, quando[{pg. 204}] os romanos pretendiam seguil-os nas suas viagens mediterraneas.[[73]] A posse dos segredos das costas e dos segredos das rotas enchia de confiança o animo do rei no futuro grandioso do seu imperio. O cabo da extrema Africa, limite por tanto tempo invencivel, tinha já recebido o nome de Boa-Esperança! (1486).

Aladas esperanças eram todas essas que o rei afagava, olhando a cabeça do filho. N'este momento, a que podemos e devemos chamar revelador, D. João II teve a consciencia do famoso destino que se preparava á Hespanha: do seu imperio universal, da extraordinaria vastidão do seu poder politico, e da sua influencia moral. Symbolisava tudo isso na cabeça do filho amado; porque a cegueira dos homens careceu sempre das lunetas de um symbolo para vêr de certo modo a realidade das cousas. Os symbolos passam, as cousas ficam; e da mesma fórma os homens morrem e as idéas vivem eternamente. E, na sua fraqueza, o espirito humano amortece, desespera e cáe quando vê apagado ou destruido o symbolo em que para elle estava, mesquinhamente, a realidade inteira.

O funesto acaso da queda de um cavallo, matando o principe Affonso (1491), foi para D. João II como o tiro do caçador, quando n'um instante precipita, ás voltas, o passaro que de azas pandas vogava, inebriado, no oceano do ar e da luz. O largo vôo do falcão estacou, e todas as illusões se apagaram deante do cadaver gelado do principe, casado de um anno. Essa vida que se finára, levava comsigo todos os sonhos doirados, todas as esperanças, todas as chimeras!

Foi um choro universal. «El-rey por tamanha[{pg. 205}] perda, tamanho nojo e sentimento, se trosquiou. E elle e a rainha se vestiram de muito baixo panno negro. E a princeza trosquiou os seus bellos cabellos e se vestiu de almafega e cabeça coberta de negro vaso.» Nas exequias, os homens, as mulheres, até as creanças, tomados de vertigem, arrancavam as barbas e os cabellos, davam bofetadas nas faces, batiam com as cabeças nas quinas da eça funeraria, e arranhavam o rosto a fazer sangue. O luto era geral e desvairado. Á imitação do rei e da princeza viuva, toda a gente andava tosquiada; o os que não podiam, por pobres, comprar o burel, que encarecera excessivamente, adoptaram trajos extravagantes: as mulheres vestiam as saias do avêsso, e os homens punham em cima de si os saccos de forragens e os xaireis ou cobertas das bestas de carga.