Este incidente imprevisto da morte do principe é um dos que obrigam a meditar sobre o valor do acaso na historia. Tivesse-se consummado a união dynastica de Portugal ao resto da Hespanha já unificado, e a historia da Peninsula, a historia da Europa, seriam diversas.[[74]] Que papel teria tido no mundo um imperio exclusivamente senhor de todas as regiões descobertas? Que teria succedido, se Carlos V e a dynastia austriaca não viessem reinar em Hespanha, pondo nas mãos de um homem o imperio da Allemanha, da Italia e da Peninsula iberica? Acaso a união, realisada no periodo ascencional da Hespanha, se tivesse consolidado abafando o cristallisar da alma portugueza na éra classica e abastardando a semente que nos deu Camões. Unido então, Portugal ficaria como se[{pg. 206}] nunca tivesse existido, por isso que não chegára ainda a formular o seu pensamento historico, nem a consummar a sua empreza...

D. João II, humilhado, abatido, e rapado por dó, voltou a envergar o habito da coruja, para morrer (1495). Agonisante, mal podendo articular já as palavras, com uma voz arrastada e fanhosa que a proximidade da morte fazia satanica, dizia, encostando a cabeça felina sobre a mão descamada: «Persigam-me sem dó os filhos do Bragança!»[{pg. 207}]

[[71]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) p. 137-49.

[[72]] V. Systema dos mythos relig., p. 291.

[[73]] V. As raças humanas, liv. IV, 3.

[[74]] V. Theoria da hist. universal, nas Taboas de chronol., pp. XXXII-III.


[IV
Em demanda do Preste-Joham das Indias]

No verão de 1486 tinha Bartholomeu Dias partido de Lisboa, para dobrar o Cabo da Boa Esperança; o que de facto conseguiu, não podendo porém ir mais ávante, porque lh'o não consentiram as tripulações assustadas. No mesmo anno mandára o rei, por terra, para o Oriente, Antonio de Lisboa e Pero Montaroyo, que não passaram de Jerusalem, por só ahi reconhecerem que, não sabendo falar o arabe, não podiam intentar a viagem.

No anno seguinte, portanto, escolhem-se dois homens que sabem arabe, para ir por terra descobrir o Preste-Joham. A viagem por mar, ou se abandonava por parecer impossivel, ou aprazava-se para mais tarde: quando houvesse informações mais cabaes, colhidas nas expedições por terra. Affonso de Payva e Pero da Covilhan partiram de Lisboa, via Napoles, com cartas de credito sobre o principe banqueiro, Cosme de Medicis. D'ahi os viajantes embarcam para Rhodes, depois para Alexandria, d'onde seguiram pelo Cairo para Tur, (Tor) na praia do mar Vermelho ao sopé do Sinai, como mercadores, acompanhando as caravanas. De Tur foram a Aden, onde se separaram: Covilhan para a India, Payva para Suâkin (Suaquem) na costa da Abyssinia; aprazando o encontro, á volta, no Cairo.[{pg. 208}]

Covilhan, em Aden, embarcou para Kananor, no Malabar, e d'ahi foi a Kalikodu (Calecut) e a Gôa. Atravessou, depois, o oceano indico, indo parar a Sofala, onde colheu noticias sobre a costa oriental da Africa, e sobre a ilha da Lua (Madagascar). Voltou logo ao Cairo, pressuroso de enviar a Lisboa as importantes informações obtidas, e ahi soube da prematura morte de Payva. Recebidas em Lisboa as cartas do viajante, D. João II recambiou logo os arabes seus emissarios, com ordem de visitarem Hormuz e a costa da Persia. Executada essa missão, Covilhan, cujo primeiro dever era obter noticias do Preste-Joham, partiu para a Abyssinia. Já por esta epocha o encantado principe que, segundo Marco Paolo, habitava a Asia central, fôra transferido para a Nubia: e a lenda personalisava no obscuro Negus o extravagante monarcha, tão falado e admirado em tempos anteriores. Covilhan, de quem não houve outras cartas, por largos annos aprendêra no Oriente a verdade; mas não podia transmittil-a para Portugal. Preso, sem ser maltratado, favorecido e rico pelo contrario, viveu por trinta e tres annos na Ethiopia,[[75]] onde acabou.

Se a sua viagem não saciava a curiosidade principal do monarcha portuguez, se o Preste-Joham continuava a ser um mytho, o facto é que mais valiosos resultados se tinham obtido. A Covilhan cabe a honra de ter marcado o itinerario da navegação da India, affirmando que pelo sul da Africa se chegaria ao Oriente. Nas cartas que enviou do Cairo, dizia que os navios que navegassem ao longo da costa da Guiné, chegariam, proseguindo, ao extremo[{pg. 209}] sul do continente africano: e que, aproando ahi para leste, em direcção da ilha da Lua, por Sofala, se encontrariam no caminho da India.

D'estas e das mais informações recebidas se compoz o programma da atrevida expedição do anno de 1497, cujo destino marcado era desde logo Kalikodu, ou Calecut, como cá lhe chamavam, e onde Covilhan estivera. Vasco da Gama foi escolhido por D. Manuel (já a esse tempo D. João II tinha tres annos de fallecido) para commandar a expedição. Era um homem ousado mas prudente, e reunia ás qualidades militares as de marinheiro, cousa então commum, e depois ainda. Succedeu o mesmo a Affonso D'Albuquerque, a D. João de Castro, e a muitos outros; e a esta circumstancia deve dar-se um merecido alcance. A separação das aptidões não vinha embaraçar os planos; e havia uma unidade no mando, porque o capitão era tambem o piloto.