O maior juizo e prudencia dirigiam os preparos da expedição. Pesavam-se e debatiam-se todas as noticias do Covilhan, commentando-as com os conhecimentos anteriores. Examinavam-se os roteiros e cartas; e Bartholomeu Dias de viva voz contava tudo o que lhe succedera, os embaraços com que havia a luctar, as difficuldades a vencer. Com a sua larga experiencia dirigia a construcção dos navios, banindo os exageros nas dimensões, recommendando a solidez dos cavernames. O descobridor do Cabo devia acompanhar a expedição até S. Jorge da Mina, e ficar ahi no resgate do ouro. Eram quatro náus pequenas, para poderem entrar em todos os portos, visitar todas as angras, passar os baixios, ao longo das costas. A sua construcção ia aprimorada e forte, como jámais se vira: madeiras escolhidas, sans, e de exagerada grossura, pregadura[{pg. 210}] bem atacada, demorado e cuidadoso calafeto. As attenções não eram menores com o equipamento: levavam tres esquipações de velas armadas e mais apparelhos, cordoalha tres vezes dobrada, e mantimentos, armaria e bombardas em abastança. Levavam seis padrões de pedra lioz com o brazão portuguez e a esphera armillar, que o rei adoptara por emblema, esculpidos. Um havia de ser collocado na bahia de S. Braz, outro na foz do Zambeze, outro em Moçambique, outro em Melinde, outro em Calecut, outro na ilha de Santa Maria. Iam dois capellães a bordo de cada navio; iam linguas ou interpretes negros, cafres e arabes; iam dez condemnados para qualquer sacrificio necessario, e finalmente iam cento e quarenta e oito soldados. Tinham-se escolhido os melhores pilotos, e o rei não consentia que se poupasse em cousa alguma. Vinha em pessoa examinar o estaleiro, e demorava-se a conversar com os mestres, ouvindo as observações de Bartholomeu, de Pedro Dias, e Vasco da Gama, que lhe mostrava o novo astrolabio de Behaim, tosco triangulo de madeira, mas muito efficaz. Pelo modelo tinham-se mandado fazer outros, mais pequenos, de latão.

Tres dos navios levavam os nomes dos tres archanjos: S. Gabriel, capitanea, de 120 toneis, S. Miguel (antigamente Berrio) e S. Raphael de 100 toneis. O nome do quarto, de 200 toneis, desconhece-se.

No fim de junho estavam todos concluidos, promptos e fundeados no mar, em frente da egreja de Restello, onde os capitães velaram a noute de 7 de julho. No dia seguinte, depois da missa, acompanhados pelo rei e por todo o povo da cidade, seguiram em procissão para a praia, cantando, com tochas nas mãos, e embarcaram.[{pg. 211}]

Diz Camões que, n'este momento,

... hum velho d'aspeito venerando,
Que ficava nas praias entre a gente,
.....................................
C'hum saber só d'experiencias feito,
Taes palavras tirou do experto peito:
......................................
Oh maldito o primeiro que no mundo
Nas ondas vela poz em sêcco lenho!

No peito de muitos havia, com effeito, uma condemnação formal por essa teima persistente dos monarchas em sacrificar dinheiro e gente á chimera das navegações.[[76]] A prudencia de experiencias feita, ronceira e fria, não acreditava no exito, depois de tantas tentativas falhadas. O resultado havia de votar contra ella; mas as palavras do poeta prophetisavam as consequencias funebres d'um imperio, que todos porém, os audazes e os prudentes, acclamaram quando Vasco da Gama voltou. Camões, assistindo já ao declinar do sol, pôde contar as fomes soffridas no mar, os temporaes e os naufragios, as peregrinações nos reinos adustos do terrivel Adamastor, e o collar de esqueletos brancos estendidos ao longo dos areaes das duas Africas—um rosario de tragedias funebres! Pôde tambem contar as ondas de protervia e crimes, d'esse mar da India, que se estirou até á Europa para afogar Portugal em vasa.


Com sete dias de viagem, a 15 (julho), chegam ás Canarias, onde um nevoeiro dispersa a pequena frota, que, entre 23 e 27, se reunia outra vez em[{pg. 212}] Cabo-Verde, para d'ahi partir em 3 de agosto. Tres mezes gastaram para descer até Santa Helena (nov. 7), onde refrescaram, porque tinham seguido ao largo, sem se internarem no golpho da Guiné. Desembarcaram tambem para reconhecer a altura, com o astrolabio, porque a bordo não lh'o consentiam os balanços dos navios; tiveram algumas escaramuças com os indigenas, e partiram afinal no dia 16 de novembro. A 19 estavam á vista do cabo Tormentoso ou da Boa-esperança, dois nomes que egualmente justificou d'esta vez. Tres dias alli andaram, batidos pelos temporaes. O vento e o mar eram tantos, que os navios mettiam as postiças debaixo de agua, e difficilmente se diria se andavam sobre as ondas, ou de envolta com ellas. No alto dos castellos, á pôpa, levavam as náus retabulos pintados, com a imagem dos santos do seu nome; e quando o mar lançava com estrepito os paineis, sobre o tendal, toda a tripulação das náus empallidecia de susto. Era um triste prognostico, e parecia que o favor divino os queria desamparar. Mares crueis e espantosos vinham pela pôpa arrebatando os bateis, arremeçando-os contra os costados das náus, avariando os lemes. Amainavam as velas, cortavam os tendaes, começavam a alijar carga ao mar... Por fim o tempo abonançou: «Nosso Senhor seja louvado, que nas maiores fortunas soccorre com a sua infinita misericordia!»

Dobrado o cabo a 22, no dia 25 fundeavam na bahia de S. Braz, onde as calmarias os forçaram a demorar-se até 7 do mez seguinte. Navegando uma semana ao longo da costa austral d'Africa chegam a 15 aos ilheus-Chãos, derradeiro termo da viagem de Bartholomeu Dias. Começavam agora a seguir as instrucções do Covilhan, o piloto ausente pelas terras do Preste-Joham, a quem demandavam.[{pg. 213}] Queriam seguir ao longo da costa, mas as correntes, a que haviam grande medo, lançavam-nos para o pélago do sul, vasto e perdido. Os marinheiros revoltam-se inutilmente: Vasco da Gama, como um destino, inexoravel e prudente na sua audacia, venceu as revoltas e as correntes.

Saíam por fim do Mar Tenebroso, e só agora se podia considerar vencido o temivel cabo. As tempestades e as correntes amansaram. De dia a calma e o céu de azul puro: á noute, por duas ou tres vezes, no topo dos mastros, brilhava a luz de S. Fr. Pedro Gonçalves, o Sant'Elmo de Lisboa. Tudo eram promessas de bonança. Subiam aos mastros a vêr os signaes do milagre, e traziam, com devoção, os pingos de cera verde que o santo lá deixára. Ás vezes chegavam a brigar contra algum incredulo, e mais de um d'esses pagou por ello. Os marinheiros recordavam-se piamente do seu santo, que ficára em Lisboa, e de Xabregas, onde cada anno o levavam em procissão, vestindo o melhor que tinham, pondo os seus ouros, coroados de coentros e flores, com bailes, musicas, folias e merendas, pelas hortas do arrabalde. O bom santo protegia-os: já se não rebellavam, e alegres proseguiam, confiados tambem na pericia e valor do capitão, que os domava com intrepidez.