A 10 de janeiro tomavam terra em Inhambane, communicando com os cafres: a 22 tinham subido até Quilimane, onde veem visital-os a bordo fidalgos, com toucas de seda lavradas na cabeça. Pela primeira vez chegavam á India. Viam gentes diversas, e signaes d'essa civilização distante, demandada com tanto ardor. Emergiam do mar d'Africa e da obscura sombra do continente negro. Esses fidalgos, para quem olhavam, porém, quasi com amor, como irmãos, seriam os seus mais crueis inimigos.[{pg. 214}]
Ficam um mez em Quilimane, para reparar os navios e restaurar a saude, porque o escrobuto começára a lavrar com força nas tripulações; e, partidos, chegam em 2 de março a Moçambique. Os symptomas anteriores augmentam: veem mais, muitos fidalgos: estão, decididamente, ás portas da India! vão afinal chegar ao imperio do Preste!
O que observavam augmentava-lhes o desejo, avivando-lhes a curiosidade. Tudo era novo para elles, mas tudo avigorava as esperanças de virem a encher-se com o saque dessas cousas brilhantes, marfins e sedas, ouros e pedras, que luziam nos toucados e vestidos dos fidalgos de Moçambique. Em volta da esquadrilha fundeada vogavam os navios da terra, sem coberta nem pregaria: as taboas cosidas a couro, e velas de esteiras de palma.[[77]] Os mouros vinham mercadejar com elles. O proprio sultão em pessoa quiz cumprimentar Vasco da Gama, que o recebeu a bordo. Pediu-lhe pilotos que o guiassem á India, á terra do Preste-Joham; pediu-lhe informações ácerca do famigerado imperador. O mouro disse-lhe que o Preste era um poderoso principe, com muitas cidades n'aquella costa, grandes navios e muita copia de mercadores: foi, pelo menos, isso o que Vasco da Gama percebeu, e taes novas encheram-no de alegria.
Mostrou-se depois o sultão perfido, e a esquadrilha, sem os pilotos, foi seguindo, costeiramente até Mombas (8 de abril), onde um acaso a salvou da traição que os mouros lhe preparavam. Elles tinham descortinado já perigosos concorrentes n'esses homens vindos por mar ás regiões que, desde a Arabia, o Egypto e a Nubia, eram até ahi imperio seu e indisputado. Salvo por um milagre, Vasco da[{pg. 215}] Gama seguiu a Malinda (15), onde o sultão o acolheu bem; mas não confiando mais n'esses fidalgos do Zamgebar, aproveitou de um mouro que se deixára ficar a bordo em Moçambique, e que succedeu conhecer a rota para Kalikodu. Fizeram-se ao mar, e em vinte e seis dias (24 de abril a 19 de maio) estavam na India. Durára a viagem dez mezes e onze dias.
Foi então que o seu espanto chegou ao auge. Tudo o que já tinham visto não dava uma idéa, nem distante, do que viam agora, desembarcados. O esplendor e o fausto natural do Oriente enchiam-nos de admiração e cubiça; e na sua ignorancia religiosa viam por toda a parte os christãos do Preste. Os indigenas adoravam a Virgem Maria; e os nossos prostravam-se tambem deante de Nossa Senhora na pessoa de Gauri, a deusa branca, Sakti de Shiva, o destruidor. Esta confusão, augmentada ainda por não se entenderem no que diziam, dava logar a scenas ingenuamente comicas. Alguns, duvidosos, observavam que, se os idolos eram diabos, a sua reza era só para Deus; e com esta reserva mental ficavam quietos na consciencia. Para augmentar o espanto, veiu ter com elles um mouro a falar portuguez: «Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
E nada d'isto era um sonho, eram «sem mentir, puras verdades.» Os indigenas abraçavam-nos, e os broncos alemtejanos, os beirões, os marinheiros do Tejo, ingenuos e ignorantes, abraçavam-nos tambem, na effusão de um instincto humano, como patricios. Dir-se-ia que se conheciam de muito, e que pouco ou nada os distinguia: de Lisboa á India era uma curta distancia, porque o sentimento não tem bitolas. Eram todos christãos, tambem tinham reis! o mundo era um só, e o homem o[{pg. 216}] mesmo em toda a parte! A naturalidade ingenua com que se praticavam as maiores cousas, é a grande prova da força heroica dos homens da Renascença.
Por esse tempo, na India—e com este nome designamos todas as costas e ilhas incluidas entre os meridianos de Suês e de Tidor, e entre 20° de latitude S. e 30° N., theatro das campanhas portuguezas—na India, dizemos, raças estranhas impunham uma especie de dominio em tudo similhante ao que foi depois o dos portuguezes: um monopolio commercial-maritimo, e como consequencia d'elle, feitorias, colonias e Estados. Os povos que nós iamos despojar d'esse dominio eram os arabes e os ethiopes, os persas, os turkomanos e os afghans, que, descendo do mar Vermelho e do mar da Arabia, confundidos na onda religiosa do islamismo, tinham avassalado a peninsula do Indo ao Ganges, e a Africa oriental desde Adal até Monomotapa. Estendendo-se para o extremo Oriente iam, como nós fomos, até Kambodja e Tidor nas Molucas, atravez do Arakan e do Pegu, da peninsula de Malaka e de Birma e Shan (Sião) no continente, atravez de Sumatra e Borneo e pelo meio do archipelago de Sunda. A todas essas gentes chamaram os portuguezes mouros,[[78]] expressão generica já usada na Europa para designar os sectarios do Islam, e por isso tambem adoptada agora que, tão longe e atravez de tantos mares, iamos encontrar-nos de novo, frente a frente, com o turco, antagonista do christão em todo o mundo.
«Al diablo que te doy! Quien te trouxe acá?» assim um mouro de Tunis, em Kalikodu, cumprimentava[{pg. 217}] o portuguez; e como em Moçambique e em Mombas, os mouros (usaremos d'ora ávante d'esta expressão generica, já explicada) induzem ou obrigam o Samudri-rajah (Çamorim), rei ou conde—a India vivia n'um regime simili-feodal—de Kalikodu, a exterminar os portuguezes. Kalikodu era o emporio commercial da costa do Malabar, e os dominios do seu rajah formavam o chamado reino de Kanará.
Facil seria, sem duvida, convencer o principe de que Vasco da Gama era um pirata, o seu rei uma burla; e sem o pensarem, decerto, os mouros de Kalikodu definiam antecipadamente o dominio portuguez, que só veiu a differençar-se d'uma pirataria commum, em ser uma rapina organisada por um Estado politico. Convencido ou violentado, o rajah manda perseguir os navegantes, que embarcam e se defendem (agosto 30.) Depois de uma estação, de alguns mezes na ilha de Anjediva, sobre a costa, Vasco da Gama decide voltar; e faz-se de vela para Portugal em 10 de julho de 98. Um anno depois, no mesmo dia, chegava a Lisboa. Na viagem, separou-se da frota Nicolau Coelho em Cabo Verde, e Vasco da Gama veiu pela Terceira, sepultar ahi o irmão que morrera no mar.
O enthusiasmo foi grande em Lisboa, á chegada de Vasco da Gama: tambem D. Manuel tinha as suas Indias, e Portugal o seu Colombo! E o Preste-Joham, que noticias? E de Covilhan? Nada. O navegador conseguira vencer o Cabo e achar a India, mas não conseguira decifrar o enigma, que a este tempo já contava tres seculos de successivas indagações.