Pouco viriam essas a importar para a historia. O essencial era a decifração do outro enigma, ainda maior—o do Mar Tenebroso. Pouco faltava já;[{pg. 218}] e em vinte annos mais, não haveria, na rotunda superficie do globo, um canto de terra incognita, nem um palmo por explorar na vasta amplidão dos mares. «Debaixo das bravas ondas, por saber os segredos da terra e os mysterios e enganos do oceano», os portuguezes, com uma curiosidade heroica, tomaram em suas mãos o futuro da Europa, e do mundo. No anno seguinte ao da descoberta da India, Pedro Alvares Cabral, que para lá fôra mandado com uma imponente esquadra, não resiste á tentação da curiosidade. Descendo no Atlantico, em direcção de leste, uma pergunta incessante o persegue: que haverá para o poente? Para esse lado descobriu Colombo umas Indias no hemispherio norte: acaso haverá mais Indias no hemispherio do sul? Amarou para oeste, a indagar, a vêr... Mais uns mezes, na longa viagem do Oriente, que importavam? Com effeito, descobriu o Brazil;[[79]] a terra de oeste vinha, desde o extremo norte até ao extremo sul, estendendo-se ao longo, nos dois hemispherios. Só então a America se pôde dizer inteiramente descoberta.
A noticia das novas terras encontradas impressionou pouco Lisboa; na côrte ardia o desejo de descobrir o Preste, o encantado Preste-Joham; de fazer com elle um bom tratado, para chamar a Portugal um pouco, ao menos, das tantas cousas boas que Vasco da Gama vira por seus olhos, e, contadas, enchiam de cubiça o espirito de toda a gente. Cabral fôra mandado a isso, e não a descobrir terras: já eram demais as Cruzes, e os nomes do repertorio escasseavam já para denominar ilhas e cabos, portos e bahias, costas e continentes. Desejava-se outra cousa, ferviam outras esperanças:[{pg. 219}]
«Boa ventura! boa ventura! muitos rubis! muitas esmeraldas!»
Tomarem-no por um pirata enchera de colera Vasco da Gama. Além da necessidade de mostrar ao Çamorim perfido o poder do rei de Portugal, era indispensavel desaggravar os brios do fidalgo offendido. Não podia ir d'esta vez, mas para outra seria a sua vingança.
Logo que Vasco da Gama chegou, decidiu-se, pois, enviar uma grande armada á India; porque agora, sabido o caminho, não havia mais receios, nem motivos, para reduzir o numero, nem a lotação dos navios. Pedro Alvares Cabral fôra nomeado almirante da frota, que contava treze náus, e levava mil e duzentos homens.
A construcção dos navios tinha progredido com a frequencia e extenção das viagens. Naus e galés, embarcações de vela e remo, tinham-se preparado melhor, augmentando em dimensões. No primeiro quartel do XVI seculo, porém, quando a avidez commercial não pervertia ainda a prudencia, a lotação ordinaria não excedia 400 toneladas.[[80]] A náu navegava á vela, jogando dos costados a artilheria, no convez ou sob a coberta. Á pôpa e prôa, nos castellos, luxuosamente ornados de lavores e douraduras, assentavam tambem canhões; e nos cestos de gavea havia pequenas colubrinas. De um a outro castello corria um baileu ou varanda volante, d'onde, nos combates, atiravam os mosqueteiros, e se passava á abordagem dos navios inimigos. Muitas[{pg. 220}] náus andavam munidas de rostos ou esporões de aço nas prôas, para a investida. As galés, navios de remo, dividiam-se em bastardas e subtis: as primeiras de 27 bancos a tres remeiros e 7 peças grossas; as segundas de 25 bancos e 5 peças apenas. A artilheria grossa jogava sómente á prôa, nos costados: entre os remeiros, collocavam-se, porém, umas peças menores, a que se chamava berços. Havia, além d'isto, as fustas, galés pequenas de 16 ou 20 bancos de dois remos, com duas peças grossas. As galés, comtudo, tambem velejavam: e para isso tinham dois mastros, onde levavam latinos; as fustas um só. Havia, porém, galés que, por se approximarem mais da armação das náus, se diziam bastardas: armavam dois mastros, mas no do traquete tinham duas velas redondas, e cestos de gavea, como as náus.
A esquadra de Pedro Alvares Cabral levantou ferro do Tejo no dia 9 de março do anno de 1500. Os gritos da marinhagem, para alar a um tempo os viradores nos cabrestantes, melopêa triste e funebre como o mar; o surdo roçar das amarras nos escovens; o apito dos mestres, dirigindo as manobras; as bandeiras multicolores soltas ao vento; e as velas meio desdobradas nos mastros, formavam o vivo quadro da nação que tambem partia, no anno de 500, já confessada e bem disposta, para essa longa viagem de pouco mais de um seculo, cheia de escrobutos e naufragios, ao cabo da qual a esperava um tumulo, vasto como é o mar, mudo como elle é nas calmas funebres dos tropicos.
Não havia protestos agora, senão esperanças, cubiças, ambições. Não partiam á aventura; partiam á conquista do que tinham descoberto, e queriam trazer para Portugal, para casa. Ninguem duvidava do exito, e o capitão levava cartas solemnes do[{pg. 221}] rei para o Çamorim. Em troca d'ellas, da sua alliança, dos presentes que lhe mandavam, viriam os rubis e as esmeraldas, a pimenta e a canella, monopolisada pelo turco, inimigo de Deus!
Já na praia começava a levantar-se a basilica, monumento ingenuo d'essa religião do commercio, erguido a Jesus e á Pimenta—os dois deuses que viviam no céu portuguez (ou carthaginez): dois deuses piamente adorados, mas servidos ambos de um modo egualmente barbaro.