Uns preferiram a Indo-China, outros as partes occidentaes; e em cincoenta annos varreram das costas e ilhas os presidios e feitorias portuguezas. O inglez combateu ao lado do persa em Hormuz para nos expulsar, e o exito levantou todos os naturaes. O soberano do Arakan lança-nos fóra do Pégu, o de Bengala despede-nos de Hugli, perdemos assim Mahabalipurum e na contra-costa, Mangaluru, Barkuru, Hanavare, Chala, Kalikodu. A perda de Hormuz arrastou comsigo Maskat, com a qual se foram todos os estabelecimentos no litoral da Arabia até ao mar Vermelho; e desguarnecida a costa do norte, inutil era conservar Sokotra e os pontos fronteiros no Adal, que foram abandonados com Quilua em Africa, as ilhas de Malaja e Anjediva, e Passir (Pacem) em Sumatra.

Os hollandezes herdavam, do nosso imperio do extremo Oriente, tudo o que não voltava a caír no poder dos naturaes. Outro tanto succedia na India. Da Africa, Arabia, e Persia, isto é, das fronteiras occidentaes, ficavam-nos Mombas e Moçambique;[[117]] das fronteiras orientaes, o ponto isolado de Macau, já na China, e Solor; do centro, restavam apenas uma cidade e quatro fortes—memoria, mais do[{pg. 306}] que dominio, em frente d'esses mares, onde já se não via tremular a bandeira portugueza em poderosas esquadras como as de outro tempo.

Ambon, Tidor, Ternate nas Molucas, Malaka na sua peninsula, Madura e toda a Sunda, eram hollandezas; os nossos antigos pontos de Ceylão—Kola-ambu e Kalitura, Negombo e Battikalo, Trinkonomali, Galla e Jafnapatan, com a ilha de Manaar visinha—pertenciam-lhe tambem; e nas duas costas da peninsula hindustanica tinham-nos tomado egualmente Negapatan de um lado, Kollam, Kadunguluru, Kananor, e Katchi, do outro. Abertamente se proclamava a queda do imperio portuguez, e até os mais infimos blasonavam. Um regulo do Arrakan escrevia nos seus estandartes: «Fatekan, senhor de Sundiva, derramador do sangue dos christãos e destruidor da nação portugueza!»

Tudo estava perdido, e a viagem terminada. Não havia outra cousa a fazer, senão voltar a casa: embarcar para o reino, com o producto das rapinas, dando a pôpa a esse mundo, onde a nossa missão terminára.

Cada capitão que, nos bons tempos, regressava da India, fazia outro tanto: cerrava as arcas atulhadas de ouro e pedrarias, arrumava a bagagem no porão, e largava as velas á náu, dizendo adeus para sempre ao Oriente!


Assim aconteceu em 1589 a D. Paulo de Lima, o que assolára Johor, na Malasia.[[118]] Foi em janeiro d'esse anno funesto que embarcou em Goa. Vinha rico; e a náu gemia com o peso do carregamento,[{pg. 307}] abarrotada com um lastro de pimenta a granel, o convez atulhado de arcas, fardos e escravos. O capitão trazia comsigo a esposa e domesticos; e embarcaram com elle, de passageiros, numerosas pessoas: soldados de retorno, frades, clerigos e mulheres.

Como na India não havia estaleiros onde os navios podessem vêr o fundo e passar o calafeto, a náu, já velha e demasiadamente grande, voltava em mau estado. Ao embarque benziam-se todos e imploravam a protecção dos frades, lembrando-se dos muitos naufragios que o tamanho e má condição das náus multipticava todos os dias. Este contava que da esquadra de Kalikodu, no anno anterior, tinham desapparecido quatro náus com toda a gente, vindo um mastro com a cordoalha da enxarcia entrar pelo rio de Daman. Aquelle, que já tres vezes fôra á India, narrava o naufragio celebre da Flamenga, e chamava ás náus sepultura de homens, e vasos de desastres: e um, persignando-se, contrito, dizia que as náus iam e vinham tão alastradas de peccados, que nas tormentas se ouviam falar os demonios claramente. Os religiosos não declaravam que fosse impossivel, mas recommendavam resignação e esperança no auxilio divino; intercalando nos seus discursos phrases breves, n'um latim sagrado.[[119]]

Entretanto a viagem seguia feliz com um mar bonançoso. Todos confiavam em que Deus não deixaria de proteger um capitão piedoso como era D. Paulo de Lima. Isto, porém, não impedia que fossem commentando as tristes cousas do mar; e com tanta maior liberdade, que começavam a crer-se[{pg. 308}] salvos d'esses perigos, á medida que viam irem-se approximando do terrivel cabo da Africa. Asseguravam que nem um terço dos que embarcavam em Lisboa chegavam á India, e isto ninguem impugnava, por ser verdade reconhecida; e que a volta ao reino acabava os que as doenças da terra, a miseria e a guerra tinham poupado no Oriente. Era um sorvedouro de homens, era... De 700 a 800 que cada náu levava, só metade vinha a servir. Depois, queixavam-se dos calafates que lançavam os navios ao mar, mal feitos e mal vedados; e referiam os numerosos casos de agua-aberta, dentro do Tejo, em navios novos. Outros accusavam o modo deshumano com que se arrumava a bordo muita mais gente do que a lotação permittia: iam como carneiros, a monte, nas toldas, expostos ao sereno mortifero das noutes, sem camas nem para os enfermos, respirando o ar podre das cobertas: por estas causas havia o escrobuto, as febres podres, as dysenterias... como se não bastassem os perigos do mar e dos ventos! Na náu em que fôra á India D. Antonio de Noronha iam 900 pessoas: metade morreu na viagem. Além d'isso os capitães—era sabido—roubavam nos mantimentos, e para poupar, escolhiam generos da peior especie. Tudo ia avariado e podre, a agua corrompida. N'uma viagem de seis mezes, como a da India, abasteciam-se para cinco apenas: d'ahi resultavam fomes.

Estas conversas exaltavam muitas vezes os animos. Como punham nos crimes o nome dos réus, levantavam-se os partidos; e mais de uma vez houve rixas tão bravas, que o capitão se viu forçado a leval-os de roldão, para debaixo do castello de prôa; e os frades, atraz, de crucifixos nas mãos, prégavam paz e amor, com orações pausadas em latim.[{pg. 309}]