Os fidalgos e religiosos, no chapiteu da pôpa, commentavam as queixas dos soldados, reconhecendo que, em verdade, tinham razão; e como eram mais letrados, ligavam os effeitos ás causas.

A abundancia da pimenta e uma economia mal entendida tinham exagerado as dimensões dos navios, ainda por cima aggravada pelo excesso das cargas. Era funesta uma cubiça, causa de tantas victimas; mas o mal vinha de longe, desde o reinado de D. João III. Os navios, mal desenhados, de muito porão, e, por cima de tudo, abarrotados, não obedeciam ao leme, e eram ronceiros... Verdade seja dita, os antigos não tinham podido admirar as monstruosas carracas de sete e oito cobertas, com alojamento para dois mil homens e porões para mil tonelladas de carga. Cada um d'esses navios parecia um reino! Armavam peças de vinte tonelladas de peso e calavam mais de dez braças. O costado media cincoenta palmos acima do lume de agua á meia náu, e chegava a oitenta nos castellos á pôpa e á prôa. Os baileus, que os ligavam, tinham dois andares: e nos cestos de gavea cabiam dez ou doze homens, para manobrar os canhões pequenos: berços e sacres. Mas as carracas, observavam tambem, eram pessimas no mar: boiavam, não andavam. E um dos fidalgos velhos contava como era o S. João, o Botafogo em que fôra, em 1535, com a divisão portugueza, a Tunis, na expedição de Carlos V.

E por fim, esquecidos de males distantes, todos concordavam em admirar a grandeza de Portugal, onde havia sempre para mais de 400 navios de alto-bordo, além de perto de 2:000 caravelas e vasos menores... porque o tempo ia bonança, e o vento fresco levava-os rapidamente, pelo canal de Moçambique, direito ao Cabo.[{pg. 310}]

Estavam em 26° quando, porém, quasi á vista da ponta austral de S. Lourenço (Madagascar), deram por uma agua que a náu fazia. Tudo correu aos porões, clamando contra os calafates, por cuja causa as náus se perdiam, andando pelo mar a Deus misericordia, por pouparem quatro cruzados. Afastando a carga, viram que a agua era na prôa, abaixo das escôas, ás primeiras picas: cuspia as estopas e as pastas de chumbo do fôrro, jorrando no porão, d'um torno tamanho que por elle cabia um punho. Mas, como o tempo estava bonança, não se affligiram demasiado, depois de terem vedado o rombo com saccas de arroz; e foram rumando para o sul, até 32°, a oitenta leguas da terra do Natal. Já levavam tres mezes de viagem.

Foi então que o vento rondou a sudoeste, o que os forçou a fazerem-se na volta do norte. O mar crescia, e com o quebrar das vagas a náu desconjuntava-se, e o torno da prôa, vedado com arroz, cedeu. Agua aberta e temporal desfeito: era um dia de juizo! Começaram a ouvir-se os demonios, e as mulheres a gritar em ais. Cada qual implorava o seu santo, a sua Nossa-Senhora, com uma fé simples e espontanea, beijando os relicarios e bentinhos, resando em voz alta, confessando em grita os seus peccados, arrepellando os cabellos, estorcendo-se nas ancias do medo da morte e do inferno. Decorriam os expedientes devotos e pediam-se milagres. O capitão levava a bordo uma cruz de ouro com uma particula do Santo-Lenho engastada: reliquia, fetiche, em que todos punham as maiores esperanças. Amarraram-na com um fio de retroz, ataram-na piedosamente a uma espia, lançaram-na pela pôpa, a vêr se moderavam a sanha do mar. A náu rolava com as ondas, o Santo-Lenho, seguro na pôpa, com um prégo para o afundar, seguia[{pg. 311}] os balanços do navio. Milagre! milagre! exclamaram quando o céu aclarou, amainando o vento, parecendo socegar as ondas. Os homens—fidalgos, soldados e escravos, brancos, pretos, mulatos e amarellos, pozeram mãos á obra, confiando ainda na salvação. Havia seis palmos de agua no porão; mas apesar da ancia, revezando-se nos aldropes das bombas, não conseguiam vencel-a. Alijaram ao mar toda a carga do convez, para libertar as escotilhas e alliviar a náu que vinha abarrotada. Nos porões a carga nadava, e as pranchas de brazil, as pipas da aguada, e mais volumes, boiando, eram lançados pelos balanços do mar contra o costado, batido por fôra com violencia pelas ondas. O temporal recrescia; o Santo-Lenho não queria protegel-os! Era um inferno e um desespero de estrondos, com o assobiar sinistro do sudoeste na cordoalha das enxarcias. Como as bombas não vasavam os porões, estabeleceram forcas nas escotilhas, e por ahi tiravam a agua em barris, como de um poço. D. Paulo de Lima não fugia ao trabalho, puxando á corda como os escravos. Nem comer podiam; e os frades iam de uns a outros, com agua e biscoitos, matando-lhes a fome e a sede, combatendo o cansaço com exhortações, e recommendando contra a desesperança que confiassem na providencia de Deus...

Tres dias, desde 12 a 14 de março, conservaram a fé e os brios. Ao quarto viram que trabalhavam debalde. A agua já inundava a coberta, e só no convez se podia estar. As bombas não trabalhavam, entupidas com a pimenta a granel do porão; e só á custa do muito que iam alijando—todo o fructo das rapinas da India!—conseguiam que o navio não sossobrasse. Já tinham resolvido varar na terra; mas o temporal crescia sempre, e no[{pg. 312}] meio da cerração plumbea, não podiam governar-se. Para mais, uma vaga partiu o leme. O vento sudoeste vinha batido em salseiros rijos, que despedaçavam o panno. A pobre náu era um destroço, com que as ondas brincavam na sua furia. Assim estiveram, perdidos e já sem esperança, duas noites e um dia. De 14 para 16, os transes foram medonhos. Em montes, estendidos no convez, os homens, ou blasphemavam, ou se confessavam em voz alta, accusando todos os seus crimes, os roubos, as violencias, os estupros, as matanças da India, e pedindo em lagrimas, aos clerigos, que os salvassem das penas do inferno! As mulheres, pranteando-se, levantavam um choro de resas, lembravam-se dos seus santos favoritos, as nossa-senhoras particulares da sua devoção, fazendo votos e promessas. Os frades ouviam as confissões, absolviam, deixando semi-mortos, na confiança do perdão, os que antes clamavam em desespero, movidos pelo terror. E por sobre tudo isto os salseiros rijos do vento assobiavam nas cordas, bradando: morte! morte! «D. Paulo havia que aquelle castigo era por seus peccados.»

No dia 16 o tempo clareou um pouco: e no rumo de nor-nordeste que levavam, descobriram terra á prôa. A noute de 17 passou-se em afflicções e esperanças; mas quando amanheceu, e os olhos ávidos não poderam tornar a vêr a costa, decidiram formalmente deitar o batel ao mar. Logo todos se precipitaram no barco, ainda suspenso nos apparelhos. A ancia de viver enlouquecia-os; e D. Paulo em pé sobre o batel, com a espada e a adaga em punho, defendia-o, acutilando os invasores, como n'uma abordagem. O seu abatimento, a sua fraqueza, a sua desesperança, apagavam-se, varridos pela aurora derradeira. Repellidos os homens, o batel desceu e[{pg. 313}] poisou no mar. Depois veiu remando, pela pôpa da náu, para receber pela varanda os fidalgos, suas mulheres, e os frades: o commum dos infelizes tinha a bordo um tumulo feito. Com os balanços da náu e o impulso da vaga, o batel ameaçava despedaçar-se a cada momento contra o costado; e as mulheres desciam, penduradas em cordas de lançoes e pannos, até ao mar, onde as apanhavam.

Os do batel gritavam, desesperados por partir, porque a gente era demais e o barco afogava-se; os da náu gesticulavam, bradando em furia para que os salvassem. Uma escrava, com o filho da senhora nos braços, mostrava-o de bordo á mãe que lh'o pedia, exigindo que a salvassem, se queriam salvar da morte a creança. E os marinheiros condemnavam, em altos gritos e phrases insultuosas e obscenas, D. Paulo e os fidalgos, pelos abandonarem cruamente a uma morte miseravel. Mais difficil fôra o naufragio da nau Santiago, no baixo da India, e tinham-se salvado todos em jangadas. Não abandonassem os infelizes, lembrando-se apenas de si, os fidalgos malditos! Havia tempo para formar uma jangada, onde todos iriam, guiados pelo batel.

N'este desespero infernal e no meio da explosão de egoismo feroz houve um unico heroe: um frade que não saiu de bordo, sem ter confessado todos os condemnados. Absolvidos, lançou-se ao mar, e foi a nado agarrar-se ao batel que se afastava pesadamente: o habito salvou-o, porque os do barco não ousavam repellir o sacerdote, como repelliam a golpes os mais que vinham a nado. Na imminencia da morte, escrupulisavam de matar um padre.

Por toda essa noute de angustias, o batel vogou nas aguas da náu: os remos não podiam vencer a força das ondas, e o vento arrojava-o para o mar. A carga era demasisada, e reconhecendo isto, deitaram[{pg. 314}] fóra seis homens; depois mais seis, ficando de 110, em 98, ao todo. A bordo da náu havia mais de outro tanto.