Condemnados a uma morte inevitavel, já confessados e absolvidos, estavam resignados. Ainda tinham formado duas jangadas, que o mar logo devorou: e depois d'isso unanimemente resolveram morrer, a bem com Deus. Os do batel viam no escuro da noute as luzes das velas accesas ao retabulo da nossa-senhora do castello da pôpa,[[120]] diante do qual, prostradas de rastos, com os cabellos desgrenhados, chorando, as escravas resavam. Os homens faziam procissões sobre o convez, cantando ladainhas e hymnos. Pela manhã viram o batel tão perto que chegaram á fala; e pediam ainda que os salvassem com vozes tão profundas e piedosas, que mettiam medo e terror.

Finalmente, n'um clamor de gritos e n'uma columna de fumo, espadanando a agua, a náu sossobrou: no alto do capitel da pôpa a escrava, com a creança nos braços, mostrava-a á mãe, desolada no batel. A náu sossobrou, enterrando comsigo os homens, as mulheres e «as cousas da India, adquiridas pelos meios que Deus sabe».


A viagem da India não terminou aqui. O imperio submergiu-se, mas os salvados foram arrastando ainda, pela arenosa costa, uma vida de miseria e perdição...

O batel foi dar á terra em 27°20' sul, na terra dos fumos, a que os cafres chamam Macomata, a Zuluandia. Desembarcaram, os restos da náu da[{pg. 315}] India; e achou-se que tinham 5 espingardas, 5 espadas e um barril de polvora. Eram ao todo 98. Dos remos fizeram contos de lanças, e ferros das verrumas dos carpinteiros. Formaram em columna, seguindo costa em fóra, em demanda de Lourenço Marques.

Á frente ia um frade com a cruz alçada; depois D. Pedro de Lima com metade da gente e das armas, na cauda o capitão da náu com o resto; e, entre ambos, as mulheres, umas de pé, outras em andores levados por marinheiros e grumetes, e feitos com os remos e velas do batel. Seguiam a columna bandos de cafres, com quem por vezes tinham de pelejar, e que fugiam rebolando-se no chão e em gatinhas, como bogios aos saltos. Dormiam na areia ao relento; comiam alguma cousa que apanhavam, principalmente os caranguejos da praia; levavam os pés empolados e em chagas... Em tamanha miseria se tornára o antigo imperio com que tinham andado pela India, pela Arabia e por Johor, em Malaka!

Na altura de 26°30' depararam com os restos das jangadas da náo Santiago; uma sorte commum esperava, no regresso, todos os que vinham da India; e esses desastres eram os da nação, que em massa embarcára, e agora em massa tambem naufragava. «Estas desventuras e outras, diz o chronista, que cada dia se vêem por esta carreira da India poderam servir de balizas aos homens, principalmente aos capitães de fortalezas, para n'ellas se moderarem com o que Deus á boa mente lhes dá, e deixarem viver os pobres».

Os naufragos, miseraveis e famintos, internaram-se em Manhica, achando nos cafres a protecção e carinho que negavam no Oriente aos naturaes. Dispersaram-se em varias direcções, indo uns por[{pg. 316}] mar a Inhambane; e na ilha de Inhaca, D. Paulo «caío em cama, ou para melhor dizer, no chão», e morreu...

Não eram, porém, sómente as ondas que, punindo a desordem e a avidez, tragavam os navios podres e abarrotados; eram tambem os nossos inimigos, cruzando nos mares da India, que apresavam as náus portuguezas, como outr'ora nós tinhamos apresado as dos arabes e egypcios.

Cornelio Honteman, perseguido pela Inquisição de Portugal, fôra para Amsterdam, e publicára o que sabia das viagens da India, incitando os hollandezes com as perspectivas de grossos lucros. Em 1595 partiu de Texel a primeira frota hollandeza que dobrou o cabo da Boa-Esperança; e já em 1591 os inglezes tinham feito uma viagem á India. Em 1602 fundou-se a companhia hollandeza das Indias orientaes: foi no primeiro quartel do XVII seculo que o imperio portuguez caíu.