Allega-se que são indecisas as noções de Strabão com respeito ás fronteiras dos lusitanos; diz-se mais que não coincidem com as que Augusto deu á provincia da Lusitania.[[3]] O geographo antigo,[{pg. 3}] ora parece incluir os callaicos nos lusitanos, entendendo as fronteiras d'estes ultimos até á costa do norte da Peninsula; ora os separa, dando-lhes o Douro como divisoria. A demarcação de Augusto adoptou esta segunda versão. As fronteiras orientaes extendiam-se, quer para o geographo, quer, depois, para a administração romana, muito além da raia portugueza, incluindo Salamanca, e subindo quasi até proximo de Toledo. D'alli para o sul, e depois para o nascente, seguindo o curso angular do Guadiana, os lusitanos de Strabão e a Lusitania de Augusto tinham como limite este rio, quasi desde as suas fontes, e até á sua foz, na costa do nosso Algarve.

Se ligassemos, pois, um valor positivo ás resenhas dos antigos geographos, e um alcance social-historico á identidade das fronteiras primitivas e actuaes, parece-nos que poucas nações poderiam com melhores motivos achar na etimologia dos antigos o fundamento da sua vida moderna. Alargue-se a fronteira do norte ao Minho (conquista da Lusitania sobre a Gallecia) retráia-se a fronteira de leste ao Douro (conquista da Tarraconense sobre a Lusitania) e teremos feito coincidir os antigos com as actuaes limites. Qual é, dos primitivos, o povo que no decurso da sua vida historica deixou de conquistar e de ser conquistado? qual é o que não ganhou ou não perdeu, de um lado ou d'outro, sobre ou para os visinhos?

Se a maneira porque, a partir do seculo XV ou XVI, os historiographos nacionaes filiam o Portugal moderno na antiga Lusitania justifica as fundadas ironias do nosso grande historiador, não nos parece que o processo por elle seguido para negar a doutrina, seja conveniente, nem até verdadeira a opinião de que entre portugueses e lusitanos nada[{pg. 4}] haja de commum. Quando hoje vimos renascer de um modo erudito, e d'alli affirmar-se no espirito popular, a tradição nacional germanica, a italiana e até a romania: que valor tem o facto da tradição lusitana ter estado obliterada por seculos, para só resurgir n'uma epocha relativamente proxima e de um modo erudito? Se os portuguezes da Edade-media não sabiam de seus avós lusitanos, acaso saberiam de seus avós, italos, romanos ou teutonicos, os piemonteses, os vallacos, ou os prussianos até ao XVIII seculo? Acaso, tambem, ser-lhes-ha mais possivel do que a nós estabelecer uma transição natural e uma historia ininterrupta desde as primeiras edades até ás modernas? Não, decerto. Se a erudição podesse demonstrar a unidade da raça iberica, então os lusitanos baixariam á condição de uma variedade sem autonomia; facto é, porém, que pouco ou nada sabemos, nem de iberos em geral, nem de lusitanos em particular, e por isso as fabulas dos velhos antiquarios não merecem a attenção moderna. Não haverá, porém, acaso outro caminho para atacar este problema? Á falta de monumentos escriptos, nada poderá valer-nos? Entre a fabula ingenua dos antiquarios e as exigencias seccas e formaes dos eruditos modernos, não estará outra via? Affigura-se-nos que sim.[[4]]

Todos reconhecem hoje a indestructivel tenacidade das populações primitivas. Raizes profundas que nenhuma charrua destroe apesar de revolta a leiva pelo ferro das conquistas, depois de esmagadas as folhas e troncos pelo tropear dos cavallos de guerra, depois de queimados e reduzidos a cinzas pelos incendios das invasões: embora[{pg. 5}] se lancem novas sementes á terra e nasçam vegetações novas, essas raizes profundas tornam a reverdecer, crescem, dominam um chão que é seu, e afinal convertem ou esmagam, transformam ou exterminam, de um modo obscuro, lento, mas invencivel as plantas intrusas.

A permanencia dos caracteres primitivos dos povos, facto hoje indiscutivel, permitte fazer—consinta-se-nos a expressão—a historia ao inverso: julgar de hoje para hontem, inferir do actual para o passado. A questão da raça lusitana apresenta-se-nos pois n'estes termos: ha uma originalidade collectiva no povo portuguez, em frente dos demais povos da Peninsula? Crêmos que a ha circumscripta porém a traços secundarios. Crêmos que as diversas populações da Hespanha, individualisadas sim, formam, comtudo, no seu conjuncto, um corpo ethnologico dotado de caracteres geraes communs a todas. A unidade da historia peninsular, apesar do dualismo politico dos tempos modernos, é a prova mais patente d'esta opinião.[[5]]

Esse dualismo, porém, leva-nos tambem a crêr que entre as diversas tribus ibericas, a lusitana era, senão a mais, uma das mais individualmente caracterisadas. Não esquecemos, decerto, a influencia posterior dos successos da historia particular portugueza: mas elles, por si só, não bastam para explicar o feitio diverso com que cousas identicas se representam ao nosso espirito nacional. Ha no genio portuguez o que quer que é de vago e fugitivo, que contrasta com a terminante affirmativa do castelhano; ha no heroismo lusitano uma nobreza que differe da furia dos nossos visinhos; ha nas nossas letras e no nosso pensamento uma nota[{pg. 6}] profunda ou sentimental, ironica ou meiga, que em vão se buscaria na historia da civilisação castelhana, violenta sem profundidade, apaixonada mas sem entranhas, capaz de invectivas mas alheia a toda a ironia, amante sem meiguice, magnanima sem caridade, mais que humana muitas vezes, outras abaixo da craveira do homem, a entestar com as féras. Tragica e ardente sempre, a historia hespanhola differe da portugueza que é mais propriamente epica; e as differenças da historia traduzem as dessimilhanças do caracter.

Poderemos regressar agora ao passado, e perguntar-lhe a causa primaria d'este phenomeno? Decerto não. Ou sombras impenetraveis o encobrem, ou a escassez do nosso saber nos não deixou ainda desvendal-o. Como hypothese—e do nosso atrevimento será escusa a nossa modestia—somos levados a crêr que a individualidade do caracter dos lusitanos (quer n'elles incluamos os callaicos, quer não) provém de uma dose maior de sangue celtico ou celta (questionou-se outr'ora sobre isto) que gira em nossas veias, de mistura com o nosso sangue iberico. Os nomes proprios de logares, os nomes de pessoas e divindades, tirados das inscripções latinas da Lusitania e da Tarraconense, que constituem o nosso Portugal, provam a preponderancia de um elemento celtico. As vagas indicações dos antigos falam-nos dos celtas das margens do Guadiana, e dão-nol-os na costa Occidental da Peninsula. Vale porém mais do que isso a analogia evidente entre as manifestações particulares dos lusitanos e dos gallegos, e aquella phisionomia que os estudos eruditos sobre os celtas da França e da Irlanda teem determinado a estes ultimos.[[6]] Tentámos[{pg. 7}] ha pouco esboçar a nossa phisionomia differencial: escusado é tornar agora ao assumpto. Se a idéa de uma filiação dos lusitanos foi expressa de um modo ridiculo pelos antiquarios classicos, a idéa de uma filiação celtica ou celta teve já a mesma sorte quando, quasi em nossos dias, houve quem pretendesse filiar directamente o portuguez na lingua dos bardos. Paz do esquecimento a todas as chimeras![{pg. 8}]

[[2]] V. o seu retrato no Portugal Contemporaneo (2.ª ed.) II, pp. 283 a 327.

[[3]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. 11-15 e Taboas de chronol., pp. 256-7.

[[4]] V. ácerca dos lusitanos. As raças humanas, I, pp. 198-201, e 209-11, nota.

[[5]] V. Hist. da civil. iberica (3.ª ed.) pp. XXXIV-XLIV.

[[6]] V. As raças humanas, liv. II, p. 4.


[II
Fundamentos da nacionalidade]