Depois de 68 nada ha que regenerar, ou todos regeneram de um modo egual. Depois d’esta epocha, e consummada uma tal ou qual restauração da riqueza nacional, todos apparecem convertidos ao opportunismo pratico. Não ha mais distincções de partidos, ha apenas grupos diversos. Não ha mais programmas, porque ha a liberdade pratica bastante e toda a ideologia liberal morreu. Os bandos politicos já não têem rotulos, basta-lhes o nome dos chefes: é o d’este, o d’aquell’outro. E uns succedem-se aos outros, até que ... Ponto. Não precipitemos o discurso.

2.—O IBERISMO

O leitor sabe que nos ultimos reinados da dynastia de Aviz a politica de fusão dos dois estados, já ao tempo unicos na Peninsula, inspirou por mais de uma vez a côrte portugueza.[41] Sabe tambem a deploravel historia da annexação de Portugal, e a da occupação castelhana, mais deploravel ainda. Em 1640 uma conspiração palaciana, com a protecção dos jesuitas e da França, restaura a independencia portugueza, levantando a dynastia de Bragança. No meiado do XVII seculo acontecia o que succedera no seculo XII e no fim do XIV: as tres dynastias portuguezas foram, nos seus primeiros periodos, o symbolo da independencia nacional.

Á maneira, porém, que com o tempo se obliterava a lembrança das crises successivas, renascia, com as complicações dynasticas, o pensamento natural da união. Assim aconteceu no tempo de D. Fernando; assim desde D. Affonso V até 1580. E quando foi a crise peninsular, determinada pela invasão franceza, D. João VI, do Rio, onde se achava, viu despontar a perspectiva da união, e a côrte voltou a ser iberica. O duque de Palmella estava então enviado junto á Regencia de Cadix (1809-10) e dizia-se do Brazil que se o throno viesse a pertencer a Carlota Joaquina, uma esquadra iria leval-a a Hespanha, e essa solução teria «as vantagens de preparar e facilitar a reunião das duas monarchias». (Off. no Conimbricense, n. 3664)—Depois, na crise dynastica, determinada em Portugal pela morte de D. João VI, voltavam os planos ibericos.

A ambos os pretendentes se attribue o pensamento de resolver, por meio do iberismo, o problema em que se viam afflictos. (Port., seus gov. e dyn. op.)

Logo que a volta de D. Miguel em 28 levou Saldanha a emigrar, o Cid portuguez escrevia de Londres para o Rio a D. Pedro excitando-o, acenando-lhe com planos ibericos, conforme já vimos. (Liv. prim. I, 3) Em 31, regressado D. Pedro á Europa, e emquanto não havia ainda decisão assente sobre a marcha a seguir, Saldanha d’accordo com o general Mina foi a Londres convidar o principe para a empreza, a que Palmerston se teria opposto. (Carnota, Mem.)

Pensaria D. Pedro n’um imperio mais ou menos napoleonicamente liberal, herdando Fernando VII e expulsando D. Miguel? D’este, diz se, como já vimos, que no mais desesperado momento da guerra teria pensado em correr sobre Madrid, ao tempo quasi desguarnecida, tomal-a, e fazer causa commum com D. Carlos, então a ponto de vencer.

Qualquer que seja o grau de verdade d’estas allegações, é facto que, resolvida a questão dynastica em Portugal, vencedor o liberalismo, a sua historia deploravel arraigou em muitos a opinião unionista. Palmella toda a sua vida dizem ter affirmado que «Portugal, depois da separação do Brazil, não tinha mais remedio do que unir-se á Hespanha». Do lado opposto, vimos Passos confessar na tribuna que o futuro nacional estava na união. A opinião do duque de Palmella firmava-se naturalmente na historia do paiz que vivera por quatro seculos da exploração de territorios ultramarinos, e que desde 20 se achava reduzido ao canapé europeu de D. João VI, porque o resto das suas colonias, armazem de escravos apenas, de nada valia desde que o tráfico dos negros era prohibido. As finanças nacionaes, exprimindo a ruina economica portugueza, eram o commentario eloquente da doutrina e a causa immediata mais grave das agitações da politica.

Chegaram as idéas de união a inspirar os actos das côrtes de Lisboa e de Madrid? Querem alguns que sim: o futuro o dirá, quando se poderem vêr os tombos das embaixadas e ministerios. Como se sabe, Portugal, alliado á Hespanha pelo tratado de 34 que expulsara D. Miguel, tinha mandado uma divisão com o conde das Antas auxiliar Isabel II a expulsar D. Carlos. No theatro da guerra, diz-se, o conde e o general Cordoba teriam projectado combinações, que dos seus gabinetes faziam tambem Mendizabal e o primeiro marido de D. Maria II. Esse principe morreu breve, mas a nossa rainha casou-se logo, e em 38 já tinha os seus dois primeiros filhos. Por casar ainda em 44 a rainha de Hespanha, accrescenta-se que adquirira grande acceitação a idéa de um duplo enlace de Isabel II com o herdeiro de Portugal, e de D. Luiz com a infanta hespanhola. (Borrego, Hist. de una idea, ap. Rios, Mi mision, etc.) O doutrinarismo vingou porém em Hespanha; Guizot casou a rainha em 46, de modo a tornar provavel a successão de Montpensier ao throno; esteve a ponto de haver uma guerra; e, dissipada a esperança de enlaces dynasticos, veiu a intervenção hespanhola de 47 em Portugal terminar completamente este episodio da historia moderna do iberismo. (Rios, Mision)

Os emigrados que, ás centenas, o doutrinarismo hespanhol expulsava para Paris eram ibericos; e emquanto no exilio os progressistas do reino visinho punham a união no seu programma, em um canto afastado do mundo, em Macau, estava, consul pela Hespanha na China, D. Sinibaldo de Más que converteu ao iberismo o bispo portuguez. (Ibid.) Fôra isto em 50; e no anno seguinte deu-se a Regeneração, cuja physionomia moderna o leitor conhece.