O escasso ou nenhum valor que o utilitarismo dá ás idéas, a importancia exclusiva ligada ao fomento material estavam dizendo que a união encontraria adeptos entre os moços. Não seria a visão de um imperio poderoso, como o que D. João II planeara, como o que enchia democraticamente os sonhos de Passos. Era a demonstração rigorosa e exacta de quanto havia a ganhar, apagando as linhas raianas, unificando a economia, subordinando a rede da viação a vapor á geographia commercial da Peninsula, em vez de a torturar por motivos politicos. «Fraternidade, Egualdade, União, entre portuguezes e hespanhoes», trazia como epigraphe o livro de D. Sinibaldo, traduzido em portuguez e prefaciado pelo joven Latino Coelho. (A Iberia, por D. Sin. de Mas: tr. Lisboa 1853)
Os embaraços, com que então se luctava entre nós para levar a cabo o caminho de ferro de Leste, eram o motivo immediato para declarar urgente a união que agora procedia de razões economicas, como se vê, sem se ligar a chimeras politicas, no genio de homens que tinham o espirito afinado pelo tempo. D. Sinibaldo dizia que se nós queriamos o caminho de ferro, adherissemos á união. Como? De um modo pratico e simples: casando o rei portuguez com a herdeira hespanhola, D. Pedro V com a princeza das Asturias, «construir-se-ha o caminho de ferro a Badajoz». (Iberia) Fontes passava por partidario d’esta combinação (Rios, Mision); e um dos publicistas mais graves e entendidos escrevia assim: «O paiz menor tem um varão reinante, o paiz maior tem uma princeza por successor ao throno». (Cl. Ad. da Costa, Mem. sobre Portugal e a Hespanha) Emquanto D. Sinibaldo se fixava mais sobre as condições de politica internacional, sobre as opiniões da geração nova, sobre as considerações de geographia commercial e politica, determinando já a capital—Santarem—ao mesmo tempo que desenhava a futura bandeira iberica quadricolor: Costa, o estatistico, alinhavava os algarismos, multiplicava os calculos para demonstrar as riquezas que nos viriam da união. Era um iberismo positivo, pratico, regenerador.
Mas com este novo espirito portuguez tinha-se tambem insinuado em Portugal um corpo de sentimentos modernos, ainda mal definido em idéas, mixto de socialismo humanitario e republicanismo cosmopolita, federalista: a atmosphera necessaria de idealismo que alimentava o espirito dos moços, formando a vanguarda dos partidos revolucionarios portuguezes de 51 a 68, forçando os regeneradores a tornarem o Fomento solidario da Conservação. Concebe-se facilmente como a semente do iberismo devia germinar em um solo bem preparado pelas idéas cosmopolitas e humanitarias, pois que estas idéas, em vez de penderem para o lado dos antigos liberalismos, se alliavam á doutrina do fomento economico eivada de socialismo, democratico e não cesarista. Além d’isto o phenomeno singular do pessimismo portuguez, oriundo do caracter apathico do povo, justificado pela historia, corroborado com eloquencia pelas miserias presentes, conduziam a vanguarda da geração nova a vêr na solução iberica a conclusão natural da historia patria.
Latino, publicista imaginoso, artista nas idéas, no temperamento, no estylo, apresentava no seu prologo á Iberia as opiniões vagas e nebulosas da gente que, ligada partidariamente á Regeneração, como José-Estevão se achava ainda, se não satisfazia já com o mutismo politico regenerador. Latino via auroras para além do zollverein peninsular. Não via Fontes «sobre a locomotiva o progresso?» Mas o progresso do ministro era a riqueza apenas; e as auroras do publicista eram a Humanidade, uma Republica europêa, a Paz universal! «Se a federação europêa não é tão cedo possivel, não será mesquinho o nosso desejo, se aspirarmos á diminuição progressiva do numero dos Estados independentes.—A peninsula iberica que já formou uma só nação pela conquista, poderá, deverá ser um só paiz pela fusão espontanea». (Prol. da Iberia, anon.) Era tambem a opinião de Cazal Ribeiro que acclamava a Iberia, sob a fórma de uma republica federativa. (Rev. lusit. maio 53) Era tambem a opinião do moço, mallogrado Nogueira, (Fed. iberica, 54; ap Th. Braga Sol. pos. da pol. port.) que chorava sentidamente a nossa dolorosa situação: «Minha pobre patria! escuta a voz do ultimo e mais obscuro de teus filhos. Sacode essa nuvem de harpias que especulam com a tua passada grandeza, para se nutrirem em teu corpo extenuado! Quando volverem dias mais auspiciosos lança-te resolutamente na vanguarda do movimento peninsular, onde tu e os teus briosos companheiros tens tudo a ganhar e nada a perder». (ap. Iberia, tr. port.) Tambem o prologo da Iberia dizia: «Portugal, só, como está, desajudado, moribundo, que poderá jámais tentar? Exhauriu-se de forças na lucta: precisa que lhe injectem sangue novo. É, depois da Turquia, o povo mais atrazado».
Podia este pessimismo agradar á Regeneração gloriosa, magnifica? Podia agradar-lhe a Iberia, quando o pensamento da união, democratisando-se, passava do segredo das secretarias para a publicidade dos papeis? quando, em vez de combinação de gabinetes e arranjo dynastico, se tornava a expressão de ambições revolucionarias, mais vagas, mais nebulosas, mais graves do que nunca? O fomento pugnava pró, mas não pugnaria contra a conservação indispensavel ao progresso da riqueza? E, se tudo isto era assim, não valia mais recuar, abandonando as esperanças dos caminhos-de-ferro vastos e geometricos, da futura Lisboa—outra Londres—para conservar a nossa pobreza e a nossa monarchia? Em Hespanha pensava-se outro tanto, antepondo-se á união a conservação, por medo das revoluções. E desde que, accordes n’esta politica, (V. Rios, Mision) os conservadores dos dois paizes abandonavam os planos de enlaces dynasticos, o melhor partido que os regeneradores podiam tirar do iberismo era o de usar d’elle como arma para condemnarem os revolucionarios novos, aos quaes afinal o tinham ensinado.
D’ahi veiu para nós uma situação que mais de uma vez se tornou grotesca e sempre ridicula. D’ahi veiu inventar-se o 1.º de Dezembro, festa patriotica em que annualmente arremettemos contra os visinhos com bombas, foguetes, philharmonicas, e peior ainda! com discursos apopleticos de uma rhetorica plebêa. D’ahi veiu o ter-se assistido á queda de successivos gabinetes por esse labeu de iberismo explorado pelos partidos, lançado como uma pélla de um a outro lado, fazendo crêr que no meio de um odio universal á Iberia, todos em Portugal são ibericos! D’ahi veiu o accender-se no coração do povo passivo, e em proveito da intriga politica, um odio archaico, absurdo, talvez responsavel de futuro sangue innocente derramado, se um dia os vae-vens do equilibrio europeu fizerem com que a Hespanha nos conquiste. D’ahi veiu o ridiculo de uma nação fraca, mui governada, sem marinha, com um exercito indisciplinado, nem instruido, nem aguerrido, nem numeroso, com as fronteiras abertas, as costas por defender: de uma nação que não poderia resistir á mais pequena das invasões, dar ao mundo—se o mundo olhasse para nós!—o espectaculo ridiculo da fanfarronice mais disparatada. «Rrre ...benn ...too de fo.o.rça!» diz n’uma comedia hespanhola um portuguez, inchando-se, com as faces rubras; e os hespanhoes vingam-se não nos ouvindo, e chamando-nos amavelmente portuguecitos.
Tal foi a situação creada pela iniciação iberica de 53, depois aggravada quando a revolução de 68 fez da successão de Hespanha um problema. Renasceram, é natural, as combinações dynasticas; mas o iberismo, já ao tempo declaradamente federalista, era a revolução: não se repetia, pois, a historia anterior? Não eram forçados os conservadores a cohibir quaesquer ambições que tivessem, para defender a monarchia, para se defenderem a si, para esmagarem os contrarios, explorando o patriotismo em proveito proprio, condemnando em nome d’elle a revolução que affirmava ser urgente renegar a nacionalidade? (Quental, Port. per. a revol. de Hesp.)
Mas antes que este segundo momento apparecesse para crear definitivamente a situação que desenhámos ha pouco e é a de hoje; antes, entre as duas crises, que attitude era a da Hespanha? Tambem na côrte de Madrid se sabia que a Iberia seria a revolução e a quéda dos Bourbons: como poderia haver planos de annexação? Os partidos conservadores, nos dois paizes (regeneradores, unionistas), tinham chegado áquelle triste ponto de nada, absolutamente nada, poderem fazer no sentido de melhorar a sorte do povo, pela razão de que toda e qualquer idéa fecunda era, e é,—a situação conserva-se a mesma—confiscada, apropriada a si pela opinião revolucionaria, atmosphera hostil que rodeia e paralysa. Se, portanto, em Hespanha existia um medo, não de uma invasão portugueza, mas do iberismo como arma revolucionaria, em Portugal havia-se já insinuado, generalisado no povo um odio a Castella, que aos conservadores convinha que houvesse, para com essa irritação, cuja falta de fundamento elles mais do que ninguem deviam conhecer, obterem a protecção decidida do paço e uma arma de parada para baterem as opposições.
Mas os conservadores portuguezes, excitando assim um sentimento anarchico para se servirem a si e á monarchia, foram réus de graves desvarios. Logo á morte de D. Pedro V o povo de Lisboa, choroso e commovido, misturou o iberismo no corpo de protestos com que exprimia a condemnação constante, ora tacita, ora expressa, pela ordem das cousas. Ha, sem duvida, uma pathologia collectiva sem o estudo da qual o historiador jámais poderá iniciar-se no intimo dos sentimentos de um povo. As doenças mysticas do catholicismo do XVII seculo constituem um corpo de symptomas eminentes; e Portugal cujo organismo raros momentos gozou de uma saude perfeita; Portugal cujo ultimo ataque de febre monarchico-catholica nós estudámos em 26-33; Portugal que desde a implantação do liberalismo, ou em collapso não se movia, ou passava da inacção a alguma furia: Portugal apresenta um symptoma curioso para diagnostico ao medico politico. Todos os seus reis envenenados, todos os seus estadistas, burlões, eis a genuina opinião do povo, que qualquer póde obter interrogando-o. Envenenado D. João VI, D. Pedro sem duvida alguma envenenado, D. Maria II—quem o ignora? E depois de tudo isto, morriam D. Pedro V e os infantes (D. Fernando, D. João) envenenados tambem.