Envenenados morreram, com effeito, mas com os miasmas do charco de Villa-Viçosa.—Qual charco! dizia o povo; um charco sim, mas o dos politicos: o de Loulé que quer ser rei, acudiam uns; e outros diziam que não, affirmando terem sido o Salamanca e os socios para nos venderem á Hespanha. Assim, lavrando na imaginação popular, a semente do iberismo lançada pela iniciação do Fomento, tornava-se agora contra os que por interesse eram os adversarios da união iberica.

Nos tumultos do inverno de 61, por occasião das mortes na côrte, o protesto espontaneo do povo rebentou de um modo symptomatico, declamando absurdos, exigindo crueldades: querendo a cabeça de Loulé que para a guardar teve de fugir pelos telhados das secretarias; propondo-se saquear a casa de Salamanca, o que envenenara no almoço de Santarem a familia real na volta de Villa-Viçosa! (Nota de Valencia, 11 de nov. ap. Rios, Mision) Quem denunciava estes criminosos? Ninguem; todos. De quem é a voz que nas tempestades fala em trovões reboando pelas quebradas das serras? A turba, como as massas da electricidade, tem uma fala cujas expressões a ninguem pertencem.

Mas assim como a trovoada não vem sem causa, assim os clamores populares, embora absurdos nas palavras, teem um motivo intimo e grave. Já na historia houvera delirios, e sempre, no fundo da loucura, appareceram verdades. Tambem os allucinados no seu tresvario vêem longe muitas vezes. Ninguem envenenara os principes, ninguem projectava vender-nos a Hespanha. Loulé, em vez de burlão, era um homem de bem. Mas que importa? Alguem ha de ser o réu, alguem o objecto da nossa colera, do nosso mal-estar, da vaga consciencia da nossa miseria, e quem, senão quem nos governa?

Se o organismo portuguez tivesse ainda energia para se rebellar, o fim de 61 teria provavelmente assistido a uma revolução: mas não sabemos nós, acaso, que depois da Maria-da-Fonte a guerra de 46-7 foi já um combate de espectros? E depois d’esse episodio funebre, não viera a Regeneração medicar-nos com tisanas de scepticismo e caldos substanciaes de melhoramentos? Se o enfermo levantava cabeça, não podia ser ainda para pensar: era apenas a convalescença em que o organismo pouco a pouco se robustecia com a transfusão de sangue de libras inglezas, por emprestimos successivos.

Quando chegou o dia do rei D. Luiz se casar, e a Hespanha que, mais viva, estava proxima a ajustar contas com o liberalismo de Isabel II, viu que a noiva era a filha do piemontez já rei da Italia unida, temeu-se em Madrid que a tradição da familia saboyana, o exemplo da outra peninsula meridional fizessem de Portugal um Piemonte hespanhol. Quanto injusto favor nos concediam! Que temerarios planos attribuiam ao nosso modesto rei, aos nossos estadistas timidos, mediocres! O embaixador que a Hespanha tinha em Lisboa apressou-se a dissipar os sustos palacianos:

O rei D. Luis é um joven sem experiencia, de curto alcance e pouco a proposito para dirigir um negocio de tanta consequencia. (Desp. do m. de la Ribera) Se me perguntasse qual eu creio que seja o caracter distinctivo d’esta sociedade, diria que é o de uma profunda prostração. Não temo que, no curso da politica, qualquer que ella seja, Portugal possa influir nos destinos da Hespanha. Não ha aqui nenhum dos elementos que se reuniram no Piemonte; não vejo partido bastante energico e poderoso para ter uma politica externa de verdadeira iniciativa; nem distingo em nenhum homem publico um verdadeiro homem d’Estado. (Desp. de Coello y Quesada, 5 de set. 64, ap. Rios, Mision)

Dissipadas as sombras de sustos, apertaram-se outra vez as mãos entre Madrid e Lisboa, contentes, esperançados, os Bourbons e os Braganças, os regeneradores e os unionistas, em que o espectro revolucionario da Iberia ficasse para todo o sempre mudo. De repente, porém, surge em Hespanha uma revolução (3 de outubro de 1868) que n’um instante expulsa a rainha, acclama Prim, e fica á espera de saber que destino ha de dar a nação. Republica? Monarchia? Iberia? Centralisação? Federalismo?... Depois a guerra assolou a França, abatendo o segundo imperio. As duas grandes nações latinas acharam-se desprovidas de governo, entregues aos vae-vens das opiniões partidarias, abertas a toda a especie de experiencias, como navios desgarrados de uma esquadra açoitada pelo tempo. Faltava a unidade de direcção almirante, e dentro de cada nau o commando fluctuava á mercê do acaso ou da fatalidade. A Hespanha tentou uma monarchia e varias fórmas de republica. A França, gemendo, não se decidia á dar á luz fórma alguma conhecida de governo. Mas em Hespanha e França o socialismo appareceu sob a fórma de deploraveis revoltas communaes, eivado de preoccupações federalistas e demagogicas, cruel, rudemente esboçado em Paris e em Carthagena. Não eram, porém, mais nem menos violentas, sanguinarias e ridiculas do que as da Edade-media, raizes de um liberalismo burguez hoje acclamado por ser vencedor. Em França e Hespanha portanto a revolução, denunciada sob o seu novissimo aspecto, levou as classes médias a congregarem-se para se defenderem. D’ahi nasceram, nos dois paizes, governos analogos, egualmente opportunos, embora diversos como fórma: a monarchia para áquem, a republicana para além dos Pyreneus.


Com a revolução hespanhola de 68 o iberismo acordou por varios modos. Em outubro liam-se nas esquinas de Lisboa pasquins dizendo:

Viva a união iberica! Viva o sr. D. Luiz I chefe dos dois paizes unidos!—Ponhamos de parte estupidos preconceitos; portuguezes e hespanhoes são irmãos pela religião, pelos costumes, pelo idioma, e sobretudo pelo seu decidido amor á liberdade. Não percamos, portuguezes, a occasião que a Providencia nos offerece para nos engrandecermos, constituindo uma nação que será invejada de todas as nações do mundo, podendo dar leis a todas, sem de nenhuma as receber.—Viva a união iberica!